14.10.14

Soneto das Horas

      aos queridos mortos

       Durs Grünbein

       E manda-o também esperar a hora
       de dar à luz a sua própria morte (...)

       Rainer Maria Rilke


Por tardia que seja, é sempre cedo
que se faz a viagem sem regresso,
não sei se aliviada, se com medo
da crença de que a vida tem um preço

a pagar no além, depois da morte.
Mas pior que a triste despedida,
seria apresentar o passaporte
da alma face à ausência doutra vida.

Outra vida haverá, havendo o ciclo
do carbono que muda e transmuda,
e mesmo que o faça em contraciclo
com a essência das coisas, talvez surda

um ácido, uma base - uma semente
que fecunde a matriz de um novo ente.

Domingos da Mota

[inédito]

6 comentários:

  1. Sentido e profundo...Comovente!

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  2. Guiomar Ricardo,

    Grato pela apreciação.

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  3. Gostei, particularmente, deste seu poema.
    Não lhe saberia explicar porquê, mas lembrei-me de A. Gedeão.
    Uma boa tarde de domingo!

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    1. Analisando bem, justifica-se plenamente o seu comentário sobre a lembrança de António Gedeão:"Mandei vir os ácidos,/as bases e os sais", do belíssimo poema, "Lágrima de preta". Obrigado.
      Continuação de uma boa tarde de domingo!

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  4. Belíssimo soneto das horas. Adorei. Abraço.

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    1. Jorge Vieira, grato pela apreciação do soneto. Abraço.

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