21.12.13

Poema de Natal

       com que a vida resiste, e anda, e dura.

          Pedro Tamen


Não digo do Natal - mas da natura
de quem faz do poder um pesadelo
que aprofunda as sementes da amargura
através do garrote e do escalpelo;

não digo do Natal - mas da tortura
que macera as feridas com desvelo,
impassível à dor que já satura
os ombros causticados pelo gelo.

Dissesse do Natal - seria bom
que pudesse cantar, subir o tom
das loas e dos hinos e dos ritos,

se em vez duma esmola, tão-somente
renascesse o respeito pela gente
que povoa o Natal dos aflitos.

Domingos da Mota

[inédito]

15.12.13

Poema para 2013

          sob o estigma da peste grisalha


Não vou somar aquilo que perdi,
sequer subtrair o que ganhei
ao muito que busquei e persegui
para atingir o pouco que apurei;
não vou patentear, mostrar aqui
o mapa dos caminhos que sonhei,
de tantos, tantos sítios que não vi
e que excedem de longe os que trilhei;
não vou apascentar os desenganos,
por muito defraudado que me sinta,
sequer ajoelhar perante os danos;
e mesmo que o tempo me desminta,
apesar do disfórico ferrete,
bem-vindos sejam os meus sessenta e sete

Domingos da Mota

[Inédito]

10.12.13

PUNHAL EXCELENTE

Já quase não há, o punhal excelente
com que a mim próprio me esventrei algumas vezes
para melhor me desentranhar em versos --

-- esses lícitos salpicos de lama,
essas coisas à toa, hossanas, ambições,
promessas, juras, astutas
ingenuidades: toda essa merda que há
dentro do poeta e com que ele gosta
de borrifar os outros. Para que
não se fiquem a rir.

E eis que agoniza: o gume rombo,
manchas inamovíveis de ferrugem,
incapaz de incisões, definitivamente
inoperacional o punhal excelente.

Paz ao seu aço.

A. M. Pires Cabral

gaveta do fundo, Edições Tinta-da-China, Lda., Lisboa, Novembro de 2013

5.12.13

Douta ignorância

Não sou dado a sermões nem a conselhos
nem à douta ignorância dos pastores:
alvitres, sugestões, por muitos velhos
que sejam ou pareçam os temores,

não deixam de pesar nas decisões
que tomo quando tenho de optar,
e ainda que me esqueça das razões,
não param mesmo assim de levedar.

Não vou aconselhar, pois não me cabe,
embora desaprove quando alguém
decreta sobre o muito que não sabe
e norteia o caminho para quem

terá de superar, transpor o muro
que separa o presente do futuro.

Domingos da Mota

[Inédito]