31.1.12

DESCULPAS NÃO FALTAM

Uma casa junto ao Vouga,
rio de água suficiente,
onde apenas se mergulha
até à cintura, a pequena horta
de Virgílio, o amor robustecido
por nenhuma esperança
e tantos livros para ler
- que desculpa vou agora dar
para não ser feliz?

José Miguel Silva

SERÉM, 24 DE MARÇO, Averno, Novembro de 2011

28.1.12

ESTALACTITE

XV


extrema,
insuportável,
quando
o poema
atinge
tal
concentração
que transforma
a própria
lucidez
em energia
e explode
para sair
de si:

Carlos de Oliveira

MICROPAISAGEM, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Setembro de 1969

24.1.12

SEM NADA

1.

Confiscaram-me os bens:
árvores,  raízes,  pedras,  folhas soltas,  os saltimbancos da  minha fase
rosa, figuras azuis tremendo de frio, flores ao fundo num cenário de guer-
ra, a colecção das espécies em vias de extinção.

António Ferra

MARIAS PARDAS, & etc, 2011

21.1.12

Retrato

No alto do pedestal,
o sr. S. é um sátrapa -
um mandarim feroz,
facundo, impositivo.
Cheio de mandamentos
quadrados e de
discursos cúbicos,
o sr. S. agita imperativos
categóricos. Com o dedo
espetado, o sr. S. ameaça.
De nariz apodíctico,
o sr. S. fareja.

O sr. S. é um crânio.
Um rato (fugaz)
de biblioteca:
Esgravata. Pesquisa.
Computa. Sopesa
números e adjectivos.
E traça percentagens.
E mói a paciência.
E dói-lhe o fígado.
E tem más digestões.

O sr. S. é um mocho
com penas de pavão.
O sr. S. é um aranhão
com patas de tarântula.

O sr. S. é um verme.
O sr. S. é um vírus.
O sr. S. infecta.
O sr. S. infesta.
E replica-se.

Alta figura
de estilo, capataz
dos capatazes,
o sr. S. é o ponto final,

parágrafo.

Domingos da Mota

(a partir da leitura do poema Os talentos do sr. Lopes, de João Luís Barreto Guimarães)

de revista DI VERSOS - Poesia e Tradução: N.º 15 - Junho de 2009, Edições Sempre-em-Pé

19.1.12

À ENTRADA DA NOITE

Fogem agora, os olhos; fogem
da luz latindo.
Estão doentes, ou velhos, coitados,
defendem-se do que mais amam.
Tenho tanto que lhes agradecer:
as nuvens, as areias, as gaivotas,
a cor pueril dos pêssegos,
o peito espreitando entre o linho
da camisa, a friorenta
claridade de abril, o silêncio
branco sem costura, as pequenas
maçãs verdes de Cézanne, o mar.
Olhos onde a luz tinha morada,
agora inseguros, tropeçando
no próprio ar.

Eugénio de Andrade

Os Lugares do Lume, Editora Fundação Eugénio de Andrade, Setembro, 1998

18.1.12

ESCREVER DEPOIS DE UM DIA DE TRABALHO ÁRDUO

Já não há maçãs
nem laranjas na fruteira

e o cesto do pão
está irremediavelmente vazio.

Ainda assim
escrevo,

ainda assim,
depois de um dia de trabalho árduo.

Depois de um dia de trabalho árduo
os poemas são de pele e osso

e parecem-se estranhamente
com listas de compras,

pão, laranjas,
maçãs,

coisas escritas à mão,
coisas de que precisamos para viver,

coisas em que pensamos só
quando nos fazem falta.

Luís Filipe Parrado

criatura, N.º 6 . NOVEMBRO . 2011, Organizado pelo Núcleo Autónomo Calíope da Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa

11.1.12

FIM

Está, então, completo
o instante de serenidade
e de silêncio da
estátua?
Completas as miríades de palavras
sem o corpo
que agora, delas, se demite?
E acaso não se terá demitido sempre
expulsando o espectro
das palavras suaves que não afirmam
nem negam
nem se desacreditam?
Das palavras exaustas
e definitivas?
Repara no que lhes anula
o ímpeto: o vigor da entrega da criança
sozinha e suicida; e diz-me
porque que a privaste, paixão perversa,
de cortar a própria
língua?

Eduarda Chiote

NÃO ME MORRAS, & etc, Lisboa, Maio de 2004

5.1.12

CONSOANTES ÁTONAS

Emudecer o afe[c]to português?
Amputar a consoante que anima
a vibração exa[c]ta
do abraço, a urgência

tá[c]til do beijo? Eu não nasci
nos Trópicos; preciso desta interna
consoante para iluminar a névoa
do meu dile[c]to norte.

Inês Lourenço

COISAS QUE NUNCA, &etc, Junho de 2010

1.1.12

A MOEDA DO TEMPO

Distraí-me e já tu ali não estavas
vendeste ao tempo a glória do início
e na mão recebeste a moeda fria
com que o tempo pagou a tua entrada

Gastão Cruz

A MOEDA DO TEMPO, Assírio & Alvim, Outubro 2006