30/12/2017

Petúlia

Alonga-se a fila
ao sol ou à chuva
e ninguém refila
impede ou perturba
a força do hábito
que ruma eu sei
em busca do dito
melhor bolo-rei
Sendo a fila longa
e a procura tanta
nem mesmo a delonga
demove ou quebranta
o passo a caminho
do bolo real
pão-de-ló e vinho
etc. e tal

Domingos da Mota

[inédito]

27/12/2017

O MORTO: SUA ASTRONOMIA

A astronomia do morto é um grito 
sem resposta. Necessita de um computador
que lhe diga como descer da constelação:
alfabetos escadas da dor. Os olhos entendem sem ouvir

as suas equações do movimento: cinemáticas!
Quanto a mim bastava-lhe a tristeza: peso
cadente das estrelas e os hieroglifos eternos
das esquinas da história e da histeria.

Rancor enxertado por decretos e votos e hinos.
É terrível ser homem moribundo. A morte
levanta a sua constelação para que eu  morra.
Nem há mesmo outra astronomia.

Alexandre Pinheiro Torres

A Flor Evaporada, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1984

24/12/2017

O Natal do vazio

O Natal do vazio que se enche
de boas intenções, quase alegria,
nas redes sociais e assim preenche
a grande solidão, penosa e fria;

o Natal que recorda os rituais
da consoada até que a luz do dia,
com o canto do galo, sendo mais
que muitos os que eram da família;

o Natal dos pinhões, par ou pernão,
do sapato ou chinelo que aguardavam
lá onde não havia chaminé:

Natal da ilusão, pura ilusão
das crianças alerta que sonhavam
com a prenda a chegar, pé ante pé.

Domingos da Mota

[inédito]

22/12/2017

A Pérola do Bolhão

Pinhões
Nozes
Miolo de nozes
Figos (pingo de mel)

Amêndoas
Avelãs
Castanhas 
(Do Maranhão)

Caju
Tâmaras
Uvas (passas)

Sultanas
Bombons
& etc.

Domingos da Mota

[inédito]

16/12/2017

TRESPASSE

1.


Ainda corri à janela. Já só lhe apanhei a saia
plissada a entrar no autocarro,
fechava-se-lhe a porta
hidráulica nas costas.
E o telemóvel sem bateria,
como avisá-la de que se enganou
e levou a minha pele?
Revisto-me da dela, aguardo.
A sua nudez retempera-me.
Ponho um cd do John Surman,
não há-de ser grave e de alergia
provámos esta noite estarmos vacinados.
Qual dos corações me pulsa
no céu da boca?

António Cabrita

Anatomia Comparada dos Animais Selvagens, Coisas de Ler Edições, Lda., Setembro de 2017

15/12/2017

Poema para 2017

Agora que a memória já se perde
e não encontra a fórmula exacta,
no momento preciso, quando deve
distinguir uma ideia abstracta
de uma noção concreta, por exemplo,
que dia da semana, de que mês,
de que ano da graça, qual o duplo
dos amigos reais, se mais que três;
e uma vez que me esqueço até dos nomes
de tantos que comigo trabalharam,
apelidos, alcunhas, sobrenomes,
tendo em conta os neurónios que murcharam,
antes que se apague mais algum,
bem-vindos sejam os meus setenta e um

Domingos da Mota

[inédito]

09/12/2017

[Tantos amigos para quê e quantos]

Tantos amigos para quê e quantos
entre os amigos virtuais serão
desassombrados, destemidos? Quantos
desses amigos reconhecerão
o outro algures se, por mero acaso,
se encontrarem um dia, em carne e osso,
e surgir um momento que dê azo
a que se diga, olá, será que posso
cumprimentá-lo, visto que o seu rosto
parece ser de alguém que não me é estranho,
e seria um prazer, seria um gosto
conhecê-lo melhor: de que tamanho
poderá ser o elo que nos liga --
se valerá a pena que prossiga?

Domingos da Mota

[inédito]

02/12/2017

AUSÊNCIA

Uma semana depois,
chego a casa, conto
os gatos, o número
confere. Não mais

dispéptico, nem com
bílis menos escura,
retomo o ritmo de arrotear
a vida; alguém com maior

convicção poderia castigar
aquilo por que espero --
a mesma dança, a mesma
música, na esperança

inglória de ignorar a morte.

José Alberto Oliveira

Telhados de Vidro, N.º 21 . Averno, Lisboa, Agosto. 2016

30/11/2017

[Tem o cheiro do pão]

Tem o cheiro do pão
acabado de cozer
no forno de lenha

Sobre a mesa
aninhados
os frutos acabados de colher

Em silêncio
as mãos
seguem essa luz

Manuel Silva-Terra

SER CASA, Editora Licorne

29/11/2017

OS BÁRBAROS

Nós é que éramos os bárbaros.
Pensando em nós é que vocês tremiam nos vossos palácios.
Era por estarem à nossa espera que o vosso coração batia desordenadamente.
Das nossas línguas é que vocês diziam:
talvez se componham só de consoantes, 
de frufus, sussurros e folhas secas.
Nós é que vivíamos nas florestas negras.
De nós é que tinha medo Ovídio em Tomi,
Nós é que adorávamos deuses com nomes
que vocês não conseguiam pronunciar.
Mas também nós conhecemos a solidão
e a angústia, e desejámos a poesia.

Adam Zagajewski

Sombras de Sombras, Selecção e tradução, Marco Bruno, revisão, Jorge Sousa Braga, prefácio, Adam  Kirsch, Edições Tinta-da-china, Lda., Lisboa, Novembro de 2017

23/11/2017

Toada do queixume

Queixa-se a ti, porque sim;
queixa-se a mim, porque não;
queixa-se aqui, porque, enfim,
de queixar-se faz questão;
queixa-se mesmo no fim
de qualquer conversação,
ora não, só porque sim,
ora sim, só porque não;
faz do queixume que deixa
por onde passa a clamar
a arma que não desleixa
sempre pronta a disparar,
tiro a tiro ou de rajada,
contra tudo ou contra nada.

Domingos da Mota

[inédito]

18/11/2017

As coisas

Há em todas as coisas uma mais-que-coisa
fitando-nos como se dissesse: "Sou eu",
algo que já lá não está ou se perdeu
antes da coisa, e essa perda é que é a coisa.

Em certas tardes altas, absolutas,
quando o mundo por fim nos recebe
como se também nós fôssemos mundo,
a nossa própria ausência é uma coisa.

Então acorda a casa e os livros imaginam-nos
do tamanho da sua solidão.
Também nós tivemos um nome
mas, se alguma vez o ouvimos, não o reconhecemos.

Manuel António Pina

COMO SE DESENHA UMA CASA, Assírio & Alvim, Outubro 2011

14/11/2017

Ouvem-se os cães a ladrar

Ouvem-se os cães a ladrar,
quando passa a caravana,
raramente a cuincar;
mas observa o que abana

a cauda atrás do séquito,
por abanar, simplesmente,
sem outro qualquer intuito
que não seja o estar contente

de ver a turba passar
como se fosse um rebanho
sem pastor - e farejar
as ovelhas, como antanho.

Domingos da Mota

[inédito]

13/11/2017

Cenotáfio

Chocará no Panteão
haver banquetes de arromba?
Essa não é a questão,

dizem alguns, pois a tumba
dos maiores que lá estão
não é esquife, é cenotáfio.

E os banquetes de arromba
não profanam
o epitáfio?

Domingos da Mota

[inédito]

08/11/2017

Antes que morda

Quando o assédio
causa aversão,
provoca tédio
mesmo que não

seja opressivo,
desabusado
nem agressivo,
mas simulado,

e faz a corte
a quem não quer
ser cortejado
onde estiver;

quando o assédio,
para a ferida,
não é remédio
e dobra a dúvida,

há que domá-lo,
não lhe dar corda
e açaimá-lo
antes que morda.

Domingos da Mota

[inédito]

06/11/2017

A FONTE

Com voz nascente a fonte nos convida
A renascermos incessantemente
Na luz do antigo Sol nu e recente
E no sussurro da noite primitiva

Sophia de Mello Breyner

11 POEMAS, movimento poesia, distribuições movimento, lda., Lisboa, Maio de 1971

04/11/2017

POEIRA

A poeira que a noite levantou
enquanto ardia
ainda anda no ar e é seca como
uma pistola disposta a disparar.

E tarde assentará
essa poeira.

Só espero que quando repousar
sobre o tampo da mesa
seja tão espessa que eu possa escrever nela
à ponta do dedo
alguns madrigais.

Ou então heresias, se estiver
para aí virado.

A. M. Pires Cabral

A noite em que a noite ardeu, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, 2015

02/11/2017

Eis a questão

    Ser ou não ser, eis a questão

     William Shakespeare


Gosto ou não gosto,
eis a questão:
a contragosto,
tomara não;

e se não gosto
disto ou daquilo,
do indisposto
som do sibilo,

não replico
no mesmo tom,
mas não me fico
só por ser bom

ou de bom-tom.

Se o tom brandir
o vitupério,
há que zurzir 
no despautério.

Domingos da Mota

[inédito]

30/10/2017

Afectos

Tanto afecto não afecta
quem de afectos mais carece?
Tanta bondade indiscreta
será mesmo o que parece?
E se houver por trás do acto
a presença de um segundo
sentido pouco abstracto
que utiliza o facundo
discurso por tudo e nada,
metafísico ou real,
para dar uma banhada
ao poder conjuntural?
E o poder acusa o toque
e repara ou fica em choque?

Domingos da Mota

[inédito]

29/10/2017

24. Agarrámos o tempo

24. Agarrámos o tempo
Com cordas
De esticar memórias
Solavanco branco
Na retina de uma idade
Insubmissa
Tenho por bússola
A inquieta sede
Vapor de cinzas
Na claridade transparente
De águas límpidas

Leonora Rosado

A FENDA NO SANGUE, Editora Licorne

28/10/2017

Com a pulga atrás da orelha

Uma pulga atrás da orelha
pode alimentar a dúvida
sempre que olhe de esguelha
outra pulga

que à mesa de um restaurante
salte do lombo de um cão
para uma perna ambulante
e da perna para o chão

e do chão dê outro pulo
em busca de um mamilo,
sem pudor e sem escrúpulo,
sabendo ela que aquilo

que persegue com o salto,
além da ferida aberta,
é causar o sobressalto,
com a pulga em parte incerta.

Domingos da Mota

[inédito]

26/10/2017

Até dói

De si para consigo
o poema flui:
realça o umbigo
do poeta e, ui,

é vê-lo na origem,
no meio, no fim,
entregue à vertigem
do ritmo assim

centrado no ego,
no eu desmedido,
soberbo conchego
do som e sentido;

de si para consigo,
enfim, como sói
mirar o umbigo,
expor-se. Até dói.

Domingos da Mota

[inédito]

16/10/2017

Pirómanos

De pirómanos
reais e virtuais
que ateiam e propagam
os incêndios

até que quase tudo fique
em cinzas;
e das cinzas renascem
com as línguas de fogo

mais ávidas
de achas
que deitam na fogueira

impunemente,
de pirómanos reais
quem nos defende?

Domingos da Mota

[inédito]

14/10/2017

Grosso modo

Deixa o tempo maturar
numa gaveta os poemas,
e corta, volta a podar
pretensos filosofemas,
já que muitos, quase todos
são apenas um esboço
mal parido, grosso modo,
muita banha e pouco osso;
apura os ossos do ofício
até que a banha derreta,
ainda que o sacrifício
seja duro e a gaveta,
cheia de mofo e de traças,
multiplique as ameaças.

Domingos da Mota

[inédito]

12/10/2017

[Deu por si]

Deu por si
(arranjar um adjectivo para aqui)
no fundo da vida.

Francisco José Craveiro de Carvalho

Quatro Garrafas de Água, Ilustrações de João Sobral, Companhia das Ilhas, Setembro de 2017

04/10/2017

VARIAÇÃO

Depois da morte que realidade
é a de termos existido? Há

porventura um passado para a morte?
O que é ter existido quando o real

se moveu para o mundo seu contrário?
Vive ainda a linguagem

quando os órgãos da fala que produzem
o canto se perderam e os lábios

vivem só na memória de por eles
passarem as palavras?

Gastão Cruz

EXISTÊNCIA, Assírio & Alvim, Setembro 2017

01/10/2017

Areia movediça

     (a partir da leitura da Ode à Mentira, de Jorge de Sena)


Mais fundo que a fundura dos abismos
Desceis, descereis sempre, descereis,
Usando e abusando de eufemismos,
A areia movediça que sabeis
Ser o campo minado da mentira,
Lavrado como tendo a seu favor
A verdade absoluta, que delira,
Rodeada de pasmo e de estupor;
Mas soterrado o chão, perdido o pé,
O halo da certeza cai a pique
E arrasta consigo o que até
Aparentava ser o muro, o dique
Da verdade absoluta, insofismável,
Agora numa queda inexorável.

Domingos da Mota

[inédito]

30/09/2017

A estação impossível

O poema exprime-se em frases entrecortadas
linhas da corrente, irrisórias explosões
mas espera qualquer coisa
suficientemente brilhante
qualquer coisa
para lá dos caudais escoados
que no alto erga
a estação impossível
esse momento em que a língua dos homens
não possa mais mentir

José Tolentino Mendonça

Teoria da Fronteira, Assírio & Alvim, Maio de 2017

25/09/2017

Diz-que-diz-que

     Desceis, descereis sempre, descereis

     Jorge de Sena


Mais fundo que a fundura dos abismos
desceis, descereis sempre, descereis,
usando e abusando de eufemismos
que fazem das palavras que dizeis
a areia movediça onde se atola
a mentira maior que a perna curta
e que mesmo atascada, desenrola
a trama venenosa e corrupta,
diz-que-diz-que de línguas viperinas,
mais fundas que a fossa das Marianas
ou que as bocas-do-lixo, sibilinas,
que propagam calúnias levianas
e fazem do embuste o santo-e-senha
do ataque viral que mais convenha.

Domingos da Mota

[inédito]

15/09/2017

SEGUNDO RETRATO

De cerúleo gabão, não bem coberto,
Passeia em Santarém chuchado moço,
Mantido às vezes de sucinto almoço,
De ceia casual, jantar incerto:

Dos esburgados peitos quase aberto,
Versos impinge por miúdo e grosso;
E do que em frase vil chamam caroço,
Se o quer, é vox clamantis in deserto:

Pede às moças ternura, e dão-lhe motes!
Que tendo um coração como estalage,
Vão nele acomodando a mil pexotes:

Sabes, leitor, quem sofre tanto ultraje,
Cercado de um tropel de franchinotes?
É o autor do soneto -- é o Bocage!

Bocage

POESIAS, Os Grandes Clássicos da Literatura Portuguesa, Colecção dirigida por Vasco Graça Moura, Editora Planeta DeAgostini, S.A., Lisboa, 2003

14/09/2017

a escrita - Paulo da Costa Domingos

MEDIDAS TOMADAS


A fina película que aparta
da Igreja o Estado, propícia
aos líquidos conteúdos, ao alívio
do tenso músculo, às
ideias feitas, rompeu
e o verbo se fez carne
e a carne, apetecível, encheu-se
de um pó e friccionou-se com
os santos óleos, e...
a Humanidade é aquilo
que hoje bem sabemos.

Paulo da Costa Domingos

a escrita, &etc, Lisboa, Março de 2010

12/09/2017

DE LONGE

Vêm de longe.
Sobre as mãos, sobre o chão caem.
Nada pode detê-las.
Entram pelo sono: redondas
grossas amargas.
E cintilantes.
Estrelas. Ou lágrimas.

Eugénio de Andrade

PEQUENO FORMATO, edição fora do mercado destinada aos amigos da Fundação Eugénio de Andrade, Porto, Fevereiro de 1997

02/09/2017

Universidade de verão

Uivos, latidos,
pios, crocitos
& cacarejos,
guinchos & gritos
graves & agudos,
quem os ateia,
lança do palco
para a plateia?

O arrazoado
de alto coturno
é debitado
com ar soturno
& os alunos
arrebanhados
vestem a pele:
são amestrados..

Domingos da Mota

[inédito]

01/09/2017

POSTERIDADE

Um dia eu, que passei metade
da vida voando como passageiro,
tomarei lugar na carlinga
de um monomotor ligeiro
e subirei alto, bem alto,
até desaparecer para além
da última nuvem. Os jornais dirão:
Cansado da terra poeta
fugiu para o céu. E não 
voltarei de facto. Serei lembrado
instantes por minha família,
meus amigos, alguma mulher
que amei verdadeiramente
e meus trinta leitores.. Então
meu nome começará aparecendo
nas selectas e, para tédio
de mestres e meninos, far-se-ão
edições escolares de meus livros.
Nessa altura estarei esquecido.

Rui Knopfli

USO PARTICULAR (POEMAS ESCOLHIDOS) com prefácio de António Cabrita, do lado esquerdo, Coimbra / Fundão, Julho de 2017

30/08/2017

O pio

Pia, pia o passaroco
no poleiro que lhe dão:
o seu pio é um sufoco
arrogante, abelharuco,
um trinado de avejão,

ou pior, é o crocito
de corvo que sempre foi,
e o passaroco esquisito
afia a língua e o bico
e mostra como lhe dói

ver os pássaros voar
em bandos por outras bandas,
menosprezando o piar
do seu douto corvejar
sobre o poleiro em bolandas.

Domingos da Mota

[inédito]

28/08/2017

27/08/2017

GÊNESE II

no princípio era o verbo
uma vaga voz sem dono
vagando pela via láctea.

depois veio o sujeito
e junto com ele todos
os erros de concordância.

Gregorio Duvivier

É AGORA COMO NUNCA ANTOLOGIA INCOMPLETA DA POESIA CONTEMPORÂNEA BRASILEIRA, Organização e apresentação de Adriana Calcanhotto, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, Abril de 2017

20/08/2017

HISTÓRIA

A  história, que vem a ser?
mera lembrança esgarçada
algo entre ser e não-ser:
noite névoa nuvem nada.
Entre as palavras que a gravam
e os desacertos dos homens
tudo o que há no mundo some:
Babilônia Tebas Acra.
Que o mais impecável verso
breve afunda feito o resto
(embora mais lentamente
que o bronze, porque mais leve)
sabe o poeta e não o ignora
ao querê-lo eterno agora.

Antonio Cicero

A Cidade e os Livros, prefácio de José Miguel Wisnik, QUASI EDIÇÕES, Fevereiro de 2006


12/08/2017

A ESCALADA

       (segunda paráfrase da indiferença)



Primeiro
começaram com as provocações
as carrancas e as bravatas:

mar de fogo, de um lado;

fogo e fúria, do outro.

Depois

conjugaram-se paradas e desfiles
e manobras militares em terra mar
e ar e caças e bombardeiros 
e submarinos e porta-aviões
e mísseis e ogivas nucleares
e reuniões de conselhos
de insegurança e sanções e mais
sanções e reptos
e mais provocações,

mas como era longe

e os cães de guerra ladravam
do outro lado dos oceanos,
não me importei;

(não se importaram também

os órgãos de comunicação social,
cá do sítio, que nos seus noticiários
davam mais tempo de antena
e mais espaço nas páginas 
dos jornais a um golo, a um fora 
de jogo, a uma transferência
multimilionária de um jogador
de futebol, ou às pernas boleadas
de uma actriz desconhecida no areal
do Meco, que a todas as ameaças
que troavam nos ares,
preocupando-se os administradores
e as redacções com qualquer futilidade
que pudesse aumentar as tiragens
e os níveis de audiências.)

Se

um dia destes 
entre os poderosos senhores 
da guerra houver um, com o seu
estado-maior, que em vez da 
escalada verbal, 
decida premir o gatilho
ou carregar no botão,
chegarei a tempo 
de me importar?

Domingos da Mota


[inédito]


09/08/2017

LITANIA

mar de fogo
fogo e fúria
fogo e fúria
mar de fogo

fogo e fúria
mar de fogo
mar de fogo
fogo e fúria

mar de fogo
mar de fogo
mar de fogo

fogo e fúria
fogo e fúria
fogo e fúria

Domingos da Mota

[inédito]

08/08/2017

MANIA DO SUICÍDIO

Às vezes tenho desejos
de me aproximar serenamente
da linha dos eléctricos
e me estender sobre o asfalto
com a garganta pousada no carril polido.
Estamos cansados 
e inquietam-nos trinta e um
problemas desencontrados.
Não tenho coragem de pedir emprestados
os duzentos escudos
e suportar o peso de todas as outras cangas.
Também não quero morrer
definitivamente.
Só queria estar morto até que isto tudo
passasse.
Morrer periodicamente,
Acabarei por pedir os duzentos escudos
e suportar todas as cangas.
De resto, na minha terra
não há eléctricos.

Rui Knopfli

USO PARTICULAR (POEMAS ESCOLHIDOS) com prefácio de António Cabrita, do lado esquerdo, Coimbra / Fundão, Julho de 2017

29/07/2017

PARTE POÉTICA

Não é fácil ser poeta o tempo inteiro.
Eu, por exemplo, nem cinco minutos
por dia, pois levanto-me tarde e primeiro
há que lavar os dentes, suportar os incisivos
à face do espelho, pentear a cabeça e depois,
a poeira que caminha, o massacre dos culpados,
assistir de olhos frios à refrega dos centauros.

E chegar à noite a casa para a prosa do jantar,
o estrondo das notícias, a louça por lavar.
Concluindo, só pelas duas da manhã
começo a despir o fato de macaco, a deixar
as imagens correr, simulacro do desastre.
Mas entretanto já é hora de dormir.
Mais um dia de estrume para roseira nenhuma.

José Miguel Silva

ÚLTIMOS POEMAS, Averno, Junho de 2017

23/07/2017

Recado

Se por acaso aqui passa,
não se vê, não deixa rasto,
nem um ar de sua graça
que indicie o tempo gasto
na passagem velocíssima,
mais veloz que um relâmpago,
uma brisa suavíssima,
um nocturno pirilampo.
Pudesse deixar recado,
uma palavra, um sinal,
um gesto, mesmo apressado,
um sorriso matinal,
um aceno, um até já
ou até sempre, sei lá.

Domingos da Mota

[inédito]

19/07/2017

Poemas Quotidianos

10


Depois das 7
as montras são mais íntimas

A vergonha de não comprar
não existe
e a tristeza de não ter
é só nossa

E a luz
torna mais belo
e mais útil
cada objecto

António Reis

Poemas Quotidianos, Prefácio Fernando J. B. Martinho, Posfácio Joaquim Sapinho, Lisboa, Tinta-da-China, Julho de 2017

17/07/2017

Só quando os incêndios

Só quando os incêndios
forem naturais:
relâmpagos, raios,
faíscas normais
que os acendam
e soprem e alastrem
(sem mãos escondidas,
fogachos que bastem);

e as trovoadas,
súbitas e secas,
que sejam culpadas,
forem descobertas;
e nem a montante
do fogo que arde
sequer a jusante
soprar com alarde

o rol de granjeios,
de ganhos, proventos,
manobras, maneios,
desculpas, lamentos;
só quando os incêndios
depois do sol-posto
não derem estipêndios,
nem mesmo em Agosto.

Domingos da Mota

[inédito]