28.5.17

O sal da terra

         a partir da leitura de Mário de Carvalho


Se a coisa for bem mais que mera coisa
e o sítio não for sítio sitiado,
e quiser ver melhor, tocar na coisa
e a coisa permitir o gesto ousado,
e se sob o efeito do contacto,
do toque que a coisa consentiu,
resolver escrever, contar de facto,
revelar o que viu e o que não viu;
se o sítio merecer outra visita
e a coisa mantiver o mesmo apuro,
e apetecer voltar, como quem fita
as estrelas cadentes do futuro,
ainda que pareça uma quimera,
a coisa pode ser o sal da terra.

Domingos da Mota

[inédito]

26.5.17

Quantos zeros à direita

    Ao passado  --  para quê -- não lhe peço contas,
     faltam-lhe muitos dedos para as fazer todas.

     Jesús Jiménez  Domínguez


Quantas mãos e quantos dedos
teria de convocar
para contar os erros
sem máquina de calcular?
E entre os dedos mais ávidos
de saber o número certo
afogueados ou pálidos
com o saldo a descoberto
quanto tempo duraria
a sua tarefa ingrata
agravada dia a dia
pelos erros à socapa?
E depois da conta feita
quantos zeros 
à direita?

Domingos da Mota

[inédito]

24.5.17

como corrói

      (aos amigos brasileiros)


mal saberei
o quanto dói
apenas sei
como corrói:
ferida aberta
oh como infecta
como supura
com a ameaça
de ditadura

Domingos da Mota

[inédito]

pura evidência

não se fez nada para crescer
não se fez nada para aumentar
não se fez nada para entender
não se fez nada para alcançar
mas fez-se tudo para descer
mas fez-se tudo para acanhar
mas fez-se tudo para perder
mas fez-se tudo para afundar
rogou-se até que o diabo
mostrasse os cornos o satanás
e perseguisse de cabo a rabo
quem agastasse o capataz
não se fez nada diz a eminência:
aconteceu. pura evidência.

Domingos da Mota

[inédito]

23.5.17

redes


quem poste
quem leia
quem goste

tresleia
quem olhe
perfilhe
acolha

partilhe
quem veja
atente
reveja

comente
quem espreite
repare
rejeite

dispare
censure
invective
rasure

se esquive
quem mostre
desgoste
quem siga

persiga
quem faça
desfaça
insulte

ameace:

do nódulo
ao quisto
pequeno 
ou graúdo

quem ache
que tudo
é visto
e revisto

Domingos da Mota

PIOLHO 021 [REVISTA DE POESIA] Edições Mortas, Abril 2017

22.5.17

ofício de

o oficio de ouvir, de estar à escuta,
o ofício de ver e de prever
um disparo fortuito, uma disputa
que possa de repente acontecer,
o ofício de ler nas entrelinhas,
ofício de sentir de onde sopra
a brisa com as asas miudinhas
ou a língua de fogo que galopa,
ofício de cheirar desde o perfume
ao esturro que alastra na panela,
ofício de no meio do negrume
encontrar uma porta, uma janela,
um farol que desvie os navegantes
das arribas abruptas e cortantes.

Domingos da Mota

[inédito]

21.5.17

simulacro

voz roufenha 
soava
ressoava

ordenava 
saída
de emergência

evacuação
célere
do centro

repetia
ordem seca
grave

voltava a
soar fanhosa
cava

Domingos da Mota

[inédito]

20.5.17

ÚLTIMO OLHAR PARA A ILHA KIRRIN

Viver consiste em ir perdendo coisas:
o leme do ar nos cabelos, os amores,
as lembranças, os remos dos dias felizes.
Ao dizer-lhes adeus com a mão
deixamos no ar a casca da despedida,
vemos passar as bicicletas sem ninguém
a caminho da ferrugem, a arder sem som.
Outros invernos cegaram as lanternas,
apagaram os binóculos e ficamos mais longe.
A cerveja de gengibre bebeu-a o sol do fim  do dia
e a empada de carne, tal como a infância
foi comida pelas moscas.

Jesús Jiménez Domínguez

ensinar o eco a falar, tradução de Maria Sousa, edição do lado esquerdo, exemplar 15/100, Coimbra / Fundão, Abril de 2017

19.5.17

modo de ver

digo? não digo?
ouço e calo?
nego? desdigo?
falo? não falo?
se não consigo
se não embalo
nem contradigo
se não me ralo
se tudo está
dito e contado
melhor será 
ficar calado?
terá ou não
razão de ser
e de dizer
sem interdito
outra versão
modo de ver
e de abranger
o inaudito?

Domingos da Mota

[inédito]

17.5.17

Má para a poesia

A meia idade é terrível para a poesia,
Sobretudo para um surrealista.
Perder a vista é perder palavras.

Que correu mal? Não sabe.
A luz matinal ainda cai nas folhas.
A pessoa que ele era morreu há anos.

Agora, sentado numa poltrona,
Fixa os olhos na parede branca em frente,
Protegendo-os da luminosidade.


Bad for verse


Middle age is bad for verse,
Specially for a surrealist.
A loss of vision is a loss of words.

What went wrong? He doesn't know.
The morning light still falls on leaves.
The man he was died years ago.

Now, sitting in an easy-chair,
He stares at the blank wall in front,
Shading the eyes to cut the glare.

Arvind Krishna Mehrotra

antes de o tigre se abrigar, tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho, edições Sérgio Ninguém (Eufeme), 2017

16.5.17

Faduncho do malware

   no nosso computador
     o fado é o software

     Vasco Graça Moura


se o fado é o software,
que fazer quando o faduncho
dissemina o malware
como se fosse caruncho
no disco, no disco rígido
de qualquer computador,
e o disco fica frígido,
carregado de estupor?
limpar o vírus? pagar
o resgate em bitcoins,
como decreta o hacker
autoritário, esquizóide,
no espaço cibernético,
será útil? será ético?

Domingos da Mota

[inédito]

15.5.17

Caminho das pedras

O chão que pisas, chão de terra
Dura, saibro, seixos, pedras, erva
Seca, tojo e urtigas,
E a secura das pernas
A correr Ceca e Meca,
E as pegadas visíveis dos sapatos
E o rasto das sandálias e dos pés
E os espinhos dos cactos e dos cardos:

E se um veio da fonte de Castália
Transvazasse da nascente de água
Pura e jorrasse entre as dunas
Do deserto, oásis no meio da secura,
Da aridez de quem trilha ou chega perto
Do caminho das pedras e calhaus --
Farto de serpentes
E lacraus?

Domingos da Mota

[inédito]

9.5.17

Ensaio sobre a visão

    Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.

     José Saramago


Se podes olhar,
Se podes ver,
Se podes reparar,

Olha em redor,
Repara no que está
A acontecer,

Com minúcia,
Detalhe,
Pormenor.

Não deixes
Porém
De comprovar

Se o que vês
É real
Ou uma visão,

Um transtorno
Delirante,
Singular,

Acaso
Uma suposta
Aparição.

Domingos da Mota

[inédito]

7.5.17

e, de súbito

porque hoje é segunda-feira
e, de súbito, domingo,
uma semana inteira
mais veloz que um relâmpago,
ou como a vida se abeira
do seu fim, cheia de espanto.

Domingos da Mota

[inédito]

6.5.17

Sonâmbulo

Foram muitos os sonhos e, sonâmbulo,
com os olhos abertos, às escuras,
passou noites em volta do preâmbulo
sem entrar no miolo das leituras;
e mal ouvia o galo que espalhava
o seu canto diurno, matutino,
voltava para a cama e dormitava
até que o acordasse o sol a pino.
Foram muitos os sonhos e utopias
que assumiu sem cuidar das sequelas,
abraçando o real e as fantasias
(a contar mais carneiros que estrelas),
mas apesar do tempo dissipado,
não chora sobre o leite derramado.

Domingos da Mota

[inédito]

5.5.17

que fazer ante a aversão

dizer cobras e lagartos
das lágrimas de crocodilo
e engolir alguns sapos
maiores que proboscídeos,
será melhor ou pior
que beber óleo de rícino,
sabendo do amargor
indigesto, amaríssimo?

que fazer ante a aversão
que tal dieta produz?
defender a abstenção
ou carregar essa cruz
que repudia a suástica
obstinada e fanática?

Domingos da Mota

[inédito]

29.4.17

e o sopro

cuidados continuados:
oxalá não carecesse
de receber os cuidados
enquanto sobrevivesse.

(tomara, se descuidassem
esses cuidados de mim
e que jamais precisassem
de me acudir). sendo assim,

quem dera, cuidados tenha
quem de cuidados careça,
como a fogueira de lenha

enquanto dure e aqueça
e o lume se mantenha
e o sopro não pereça.

Domingos da Mota

[inédito]

27.4.17

Desmemória

Só hoje me lembrei que me esqueci
de falar com alguém, de lhe dizer
que a visita que há muito prometi,
não deverá, tão cedo, acontecer;
e mesmo que não possa, para já,
explicar-lhe o porquê do impedimento,
nem tudo o que me prende e tem por cá,
é razão para um tal esquecimento,
mas antes o efeito da lacuna,
da falha que aumenta com a idade
e que ouso apodar de desmemória:
deslembrança real, inoportuna,
que tende a sombrear a claridade
de quem desata os fios duma história.

Domingos da Mota

[inédito]

26.4.17

[Quem se cuida descurando]

Quem se cuida descurando
os cuidados que devia
desmazelando-se quando
não cuida da arritmia
nem sequer da tensão alta
dos níveis de glicemia
e da dor que sobressalta
arrepanha e arrepia
qual incisão duma lâmina
acerada fina fria
que se crava e se derrama
ou de súbito fulmina:
quem se cuida não infama
nem deprecia a vacina.

Domingos da Mota

[inédito]

23.4.17

PARA UM LIVRO

O tempo que passei fechado sem
nenhum leitor, justificou ser
imolado pelas traças.

Inês Lourenço

COISAS QUE NUNCA, &etc, 2010

18.4.17

Vale o que vale

Um saiu e outro e outro
e mais outro sem dizer
por que razão. Não me afoito
a especular. Podes crer
que não estou para julgar
os que se vão pela porta,
um a um, de par em par
ou em bandos. Pouco importa
o porquê dessa saída,
se vão zangados ou não,
o motivo da partida.
A minha opinião
vale o que vale, e não quero
ser incorrecto ou severo.

Domingos da Mota

[inédito]

17.4.17

A pedra

Levanta a pedra o seu voo
Antigo em busca da cabeça de
Golias:
Atingirá a testa do inimigo
Ou terá de afinar a pontaria?

Domingos da Mota

[inédito]

16.4.17

RITORNELOS

25.

O que se torna tempo
não podes somá-lo
é abissal e infinito
esperar que nasça o princípio
no interior do que só vês de fora.

Não, não podes somá-lo
entre os dedos idênticos
nem à verdade nem à carne,
o que se torna tempo
é este exacto instante
que se cumpriu
se perdeu.

Joana Emídio Marques

RITORNELOS seguido de CÂNTICOS DA FLORESTA e LITANIAS, Desenhos de Bárbara Fonte, abysmo, Lisboa, Fevereiro 2014

15.4.17

MOAB

que filhos há-de
parir a mãe de
todas as bombas?

que terríveis
hecatombes haveremos
de carpir?

que mostrengo do
seu ventre aguardaremos
que expluda

tendo em conta a voz
aguda do desmando
altipotente? 

Domingos da Mota

[inédito]

12.4.17

Os corvos

Podem os corvos
corvejar nos campos
onde espantalhos
e que tais
se agitam?

Rasam.
Crocitam.

Domingos da Mota

[revisto]

10.4.17

Terríficas luzes

Os senhores da guerra
Os senhores da morte
Os senhores da terra
Os senhores -- e a corte

De altas patentes
De seus mandatários
Ministros e agentes
Plenipotenciários

Os senhores que ordenam
Detêm poder
Que a tantos condenam
E deixam a arder

Com bombas obuses
Escombros ruínas
Terríficas luzes
Letais assassinas

Domingos da Mota

[inédito]

9.4.17

em língua de gato

Nada sei do amor é uma aragem
(outros o cantem) uma poeira
Nem sou esse o gato que pensa
mas o senhor sim desta passagem

entre ombro e ombreira
Veludo é o pelo me apascenta
Horas tantas que durmas lambo
as quentes sessenta e nove

de lado até caírem co'a calma
ratos que roem riso que move
relógio que pára o clic sem alma

da fotografia Então este tique
do verso rimado como um escroc
passa pra cá a perna e tu vais a reboque

                                                                           (Atenas, 2015)

Carlos Leite

DiVersos, Poesia e Tradução / n.º 25 - dezembro de 2016, Edições Sempre-Em-Pé,
Águas Santas

8.4.17

O MEL DE DEMÓCRITO

Dos átomos seguiste o movimento
dançando turbulento no vazio.
E vergaste-te à força do desejo
que engendra o corpo em outro divisível.
Mas nada mais fruíste do que o mel
na alma até à morte diluído.

José Augusto Seabra

Homenagem aos pré-socráticos (11 poemas), Edição Palavra em Mutação & autor, 2004

6.4.17

Espelho

     a partir de Fernando Pessoa


Se a criança
que fui me visse
(se visse ao espelho
anos depois),
e ao ver as rugas
até sorrisse,
se olhasse bem,
veria dois:
tão diferentes
que são agora.
Mas a criança
ficou lá fora,
anda às amoras,
cai no silvado.
Enquanto eu,
olhando outrora,
vejo que o espelho
está quebrado.

Domingos da Mota

[revisto]

3.4.17

Desabafo

     "Deixem-me largar um desabafo: às vezes os 
       amigos desiludem-nos tanto, porra!"

      Carlos Alberto Machado


Amigos? Inimigos? Quantos? Quem
pode contá-los e dizer bem alto:
ei-los aqui, são estes, sei-o bem,
não me engano nem temo um sobressalto,
um susto de morrer, pois todos eles
são fiéis e não traem como Judas
(descontando o chamado sete-peles
e os vira-casacas), não há mudas
que possam perturbar a confiança,
esta certeza de saber quem é
amigo ou inimigo, nesta andança
que ouso transformar num finca-pé,
pois que sei muito bem qualificá-los
e a todos, mesmo a todos, nomeá-los?

Domingos da Mota

[inédito]

1.4.17

Nem a sombra do Argos

Tarde chegou. E já não veio a tempo
de explicar a razão, que causa o trouxe,
que desejo o moveu, que contratempo
o conduziu ali. Quem estava, foi-se
cansado de esperar pelo Godot,
qualquer Messias que arriscasse vir
ou Dom Sebastião, perdido e só,
que pudesse das brumas emergir.
Tarde chegou. Se quiser contar
o porquê do regresso, do retorno,
nem um cão ouvirá sequer ladrar,
abandonada há muito pelo dono
nem a sombra do Argos voltará
a farejar quem fica ao deus dará.

Domingos da Mota

[inédito]

26.3.17

Há que franzir

Troco? Destroco? Não troco?
Falo? Respondo? Dou troco?
Calo? Engulo? Emborco?
Encharco? Caio de borco?

E assim caído, sufoco?
E amachucado e torto
Praguejo como se louco?
Ou faço-me então de morto?

E se respondo e returco
E se contesto e debato,
Julgarão que sou zaruco
Ou pior, que sou um chato,

Uma melga, um piolho?
Há que franzir o sobrolho.

Domingos da Mota

[inédito]

25.3.17

o furúnculo

não descuides o furúnculo,
pois um furúnculo desses,
mesmo não sendo carbúnculo,
será melhor que te apresses
a mostrá-lo a quem trate,
a quem saiba do assunto,
não faças o disparate
de o espremer; quando muito
desinfecta o ponto negro
e se ele tiver pus,
pega em ti, leva aconchego,
vai ao médico, faz jus
ao furúnculo, à verruga,
vai depressa, corre, estuga.

Domingos da Mota

[inédito]


24.3.17

furúnculo

é apenas um furúnculo.
e um furúnculo assim
virulento, quando muito,
espreme-se até ao fim.
não, não é uma ferida
aberta de par em par,
pois bem vista, bem espremida,
a coisa não tem o ar
de ser mais que uma borbulha
arrevesada, quiçá.
mas um furúnculo é isso:
por muito que cause engulho
e se mostre irritadiço,
há que espremê-lo,
vá lá.

Domingos da Mota

[inédito]

23.3.17

a mulher girava a mulher

a mulher girava a mulher
era a mó de um animal muito escuro

expandiam-se as redondezas do corpo
a mulher já não vinha no mapa mal cabia
na própria caligrafia.









mil águas depois
houve um homem.


Catarina Nunes de Almeida

MARSUPIAL, Mariposa Azual, Lisboa, Junho de 2014

20.3.17

Equinócio da Primavera

Fosse o sol da Primavera
que viesse celebrar
(e não a chuva, quem dera,
e não o vento a cortar)

que iluminasse este dia
depois da penosa espera
atribulada e sombria,
fosse a luz da Primavera;

fossem melros e pardais
e andorinhas em bandos,
e não estes surreais
avejões, com ditirambos

que decantam o Inverno
permanente, quase eterno.

Domingos da Mota

[revisto]

18.3.17

Paráfrase da indiferença

Primeiro 
provocaram as guerras: 
de genocídio, 
de ocupação, de prevenção, 
em nome de diversas 
primaveras, no pico do Outono 
ou em pleno Inverno, 
e forçaram centenas de milhares, 
para não dizer, milhões, a fugir 
das suas terras, aldeias, cidades, 
países, para salvar 
a pele,
mas como não era soldado, e 
no meu país havia o culto 
do Verão, 
não me importei.

Depois 
surgiram as vagas
de migrantes nos caminhos 
marítimos para os cemitérios 
mediterrânicos, mas como não 
era pescador, nem emigrante, 
e estava voltado para 
o Atlântico,
não me incomodei.

A seguir 
começaram a erguer muros 
de arame farpado, a fechar 
fronteiras, a criar campos 
de concentração,
e a acirrar os ânimos contra
os outros, os refugiados,
os estranhos, os estrangeiros,
e
cresceram, como 
cogumelos, os movimentos
e partidos xenófobos, 
racistas, extremados,
mas como tudo isso se passava 
lá longe e, na vizinhança, 
os cabeças-rapadas eram
um pequeno epifenómeno,
não me perturbei.

Agora 
que a xenofobia campeia
e tem prosélitos 
renomados em altos
cargos, dentro e fora 
de portas, com hordas
de camisas negras e de botas 
cardadas e de cruzes 
gamadas, a dois passos
do poder, ameaçando 
cavar novas sepulturas, 
não será tarde 
demais para abrir os olhos, 
olhar em volta, 
e me importar?

Domingos da Mota

[inédito,

a partir da leitura de Martin Niemöller ou Bertolt Brecht ou de quem quer que seja o seu autor]


15.3.17

AMENDOINS

Vivi o suficiente -- pensou.
Apenas uma única dúvida:
deveria dizer suficiente ou bastante?
Seja como for, chegou a um ponto
em que lhe era interiormente lícito dizer
que daquele ponto de vista em diante
a experiência entre os vivos
era mais ou menos redundante.
É claro que ao menor susto
haveria de agarrar-se à experiência redundante
como um macaco convictamente preênsil
por amendoins.
A vida era para ele amendoins.

Daniel Jonas

BISONTE, Assírio & Alvim, Porto, Abril de 2016

10.3.17

Terceiro soneto familiar

Pudéssemos saber dos tetravôs
e das mães de seus pais, saber
da árvore que a partir da raiz
chega até nós, e abrange

a família que nos cabe,
olhando para os ramos,
as flores e os frutos,
para as folhas caídas

no Outono, para os corpos
viçosos ou enxutos,
para a seiva que nutre

o abandono: pudéssemos 
saber dos que nos são, e até
dos nascituros, porque não?

Domingos da Mota

[inédito]

9.3.17

[Os velhos são manhosos]

Os velhos são manhosos.

Demoram-se a apanhar a fruta, sabem
que sabem esticar o braço antigo até aos primeiros figos,
que podem saber chegar ao fim da figueira.
Os velhos arrastam os pés em direcção à saída,
esgotam-se ao sol seguinte.
Cortam-se por vezes no vidro de emergência,
no buraco para o exterior.
Têm visões extraordinárias,
receitas específicas para o barroco do poema
e do mel.

Escrevo para os velhos.

Filipa Leal

VEM À QUINTA-FEIRA, Assírio & Alvim, Porto, 2016

6.3.17

Senhora da pós-verdade

Senhora da pós-verdade,
dizei-me, porque mentis
com a naturalidade
dum Pinóquio sem nariz
que se veja de verdade,
mas que cresce, oh se cresce,
porquanto a fatuidade
do seu umbigo parece
ser o exemplo perfeito
de como a venalidade
desdobrada num conceito
de aparente inocuidade,
não se esgota no filão
dos erros de percepção.

Domingos da Mota

[inédito]

4.3.17

O mesmo

Por muito semelhante que pareça,
é sempre diferente o que se vê,
e mesmo que a diferença se esvaneça
ou finja ser aquilo que não é,
a sua parecença, se olhada
de perto, com rigor, com precisão,
mostrará, quando muito, a camada
primeira do objecto de visão.
E ainda que pareça ser igual,
o mesmo não será, mesmo que seja
idêntico ao que os olhos podem ver:
no decurso do tempo, é natural
que mude muito mais do que deseja
e possa transformar-se noutro ser.

Domingos da Mota

[inédito]