23.11.17

Toada do queixume

Queixa-se a ti, porque sim;
queixa-se a mim, porque não;
queixa-se aqui, porque, enfim,
de queixar-se faz questão;
queixa-se mesmo no fim
de qualquer conversação,
ora não, só porque sim,
ora sim, só porque não;
faz do queixume que deixa
por onde passa a clamar
a arma que não desleixa
sempre pronta a disparar,
tiro a tiro ou de rajada,
contra tudo ou contra nada.

Domingos da Mota

[inédito]

18.11.17

As coisas

Há em todas as coisas uma mais-que-coisa
fitando-nos como se dissesse: "Sou eu",
algo que já lá não está ou se perdeu
antes da coisa, e essa perda é que é a coisa.

Em certas tardes altas, absolutas,
quando o mundo por fim nos recebe
como se também nós fôssemos mundo,
a nossa própria ausência é uma coisa.

Então acorda a casa e os livros imaginam-nos
do tamanho da sua solidão.
Também nós tivemos um nome
mas, se alguma vez o ouvimos, não o reconhecemos.

Manuel António Pina

COMO SE DESENHA UMA CASA, Assírio & Alvim, Outubro 2011

14.11.17

Ouvem-se os cães a ladrar

Ouvem-se os cães a ladrar,
quando passa a caravana,
raramente a cuincar;
mas observa o que abana

a cauda atrás do séquito,
por abanar, simplesmente,
sem outro qualquer intuito
que não seja o estar contente

de ver a turba passar
como se fosse um rebanho
sem pastor - e farejar
as ovelhas, como antanho.

Domingos da Mota

[inédito]

13.11.17

Cenotáfio

Chocará no Panteão
haver banquetes de arromba?
Essa não é a questão,

dizem alguns, pois a tumba
dos maiores que lá estão
não é esquife, é cenotáfio.

E os banquetes de arromba
não profanam
o epitáfio?

Domingos da Mota

[inédito]

8.11.17

Antes que morda

Quando o assédio
causa aversão,
provoca tédio
mesmo que não

seja opressivo,
desabusado
nem agressivo,
mas simulado,

e faz a corte
a quem não quer
ser cortejado
onde estiver;

quando o assédio,
para a ferida,
não é remédio
e dobra a dúvida,

há que domá-lo,
não lhe dar corda
e açaimá-lo
antes que morda.

Domingos da Mota

[inédito]

6.11.17

A FONTE

Com voz nascente a fonte nos convida
A renascermos incessantemente
Na luz do antigo Sol nu e recente
E no sussurro da noite primitiva

Sophia de Mello Breyner

11 POEMAS, movimento poesia, distribuições movimento, lda., Lisboa, Maio de 1971

4.11.17

POEIRA

A poeira que a noite levantou
enquanto ardia
ainda anda no ar e é seca como
uma pistola disposta a disparar.

E tarde assentará
essa poeira.

Só espero que quando repousar
sobre o tampo da mesa
seja tão espessa que eu possa escrever nela
à ponta do dedo
alguns madrigais.

Ou então heresias, se estiver
para aí virado.

A. M. Pires Cabral

A noite em que a noite ardeu, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, 2015

2.11.17

Eis a questão

    Ser ou não ser, eis a questão

     William Shakespeare


Gosto ou não gosto,
eis a questão:
a contragosto,
tomara não;

e se não gosto
disto ou daquilo,
do indisposto
som do sibilo,

não replico
no mesmo tom,
mas não me fico
só por ser bom

ou de bom-tom.

Se o tom brandir
o vitupério,
há que zurzir 
no despautério.

Domingos da Mota

[inédito]

30.10.17

Afectos

Tanto afecto não afecta
quem de afectos mais carece?
Tanta bondade indiscreta
será mesmo o que parece?
E se houver por trás do acto
a presença de um segundo
sentido pouco abstracto
que utiliza o facundo
discurso por tudo e nada,
metafísico ou real,
para dar uma banhada
ao poder conjuntural?
E o poder acusa o toque
e repara ou fica em choque?

Domingos da Mota

[inédito]

29.10.17

24. Agarrámos o tempo

24. Agarrámos o tempo
Com cordas
De esticar memórias
Solavanco branco
Na retina de uma idade
Insubmissa
Tenho por bússola
A inquieta sede
Vapor de cinzas
Na claridade transparente
De águas límpidas

Leonora Rosado

A FENDA NO SANGUE, Editora Licorne

28.10.17

Com a pulga atrás da orelha

Uma pulga atrás da orelha
pode acentuar a dúvida
sempre que olhe de esguelha
outra pulga

que à mesa de um restaurante
salte do lombo de um cão
para uma perna ambulante
e da perna para o chão

e do chão dê outro pulo
em busca de um mamilo,
sem pudor e sem escrúpulo,
sabendo ela que aquilo

que persegue com o salto,
além da ferida aberta,
é causar o sobressalto,
com a pulga em parte incerta.

Domingos da Mota

[inédito]

26.10.17

Até dói

De si para consigo
o poema flui:
realça o umbigo
do poeta e, ui,

é vê-lo na origem,
no meio, no fim,
entregue à vertigem
do ritmo assim

centrado no ego,
no eu desmedido,
soberbo conchego
do som e sentido;

de si para consigo,
enfim, como sói
mirar o umbigo,
expor-se. Até dói.

Domingos da Mota

[inédito]

16.10.17

Pirómanos

De pirómanos
reais e virtuais
que ateiam e propagam
os incêndios

até que quase tudo fique
em cinzas;
e das cinzas renascem
com as línguas de fogo

mais ávidas
de achas
que deitam na fogueira

impunemente,
de pirómanos reais
quem nos defende?

Domingos da Mota

[inédito]

14.10.17

Grosso modo

Deixa o tempo maturar
numa gaveta os poemas,
e corta, volta a podar
pretensos filosofemas,
já que muitos, quase todos
são apenas um esboço
mal parido, grosso modo,
muita banha e pouco osso;
apura os ossos do ofício
até que a banha derreta,
ainda que o sacrifício
seja duro e a gaveta,
cheia de mofo e de traças,
multiplique as ameaças.

Domingos da Mota

[inédito]

12.10.17

[Deu por si]

Deu por si
(arranjar um adjectivo para aqui)
no fundo da vida.

Francisco José Craveiro de Carvalho

Quatro Garrafas de Água, Ilustrações de João Sobral, Companhia das Ilhas, Setembro de 2017

4.10.17

VARIAÇÃO

Depois da morte que realidade
é a de termos existido? Há

porventura um passado para a morte?
O que é ter existido quando o real

se moveu para o mundo seu contrário?
Vive ainda a linguagem

quando os órgãos da fala que produzem
o canto se perderam e os lábios

vivem só na memória de por eles
passarem as palavras?

Gastão Cruz

EXISTÊNCIA, Assírio & Alvim, Setembro 2017

1.10.17

Areia movediça

     (a partir da leitura da Ode à Mentira, de Jorge de Sena)


Mais fundo que a fundura dos abismos
Desceis, descereis sempre, descereis,
Usando e abusando de eufemismos,
A areia movediça que sabeis
Ser o campo minado da mentira,
Lavrado como tendo a seu favor
A verdade absoluta, que delira,
Rodeada de pasmo e de estupor;
Mas soterrado o chão, perdido o pé,
O halo da certeza cai a pique
E arrasta consigo o que até
Aparentava ser o muro, o dique
Da verdade absoluta, insofismável,
Agora numa queda inexorável.

Domingos da Mota

[inédito]

30.9.17

A estação impossível

O poema exprime-se em frases entrecortadas
linhas da corrente, irrisórias explosões
mas espera qualquer coisa
suficientemente brilhante
qualquer coisa
para lá dos caudais escoados
que no alto erga
a estação impossível
esse momento em que a língua dos homens
não possa mais mentir

José Tolentino Mendonça

Teoria da Fronteira, Assírio & Alvim, Maio de 2017

25.9.17

Diz-que-diz-que

     Desceis, descereis sempre, descereis

     Jorge de Sena


Mais fundo que a fundura dos abismos
desceis, descereis sempre, descereis,
usando e abusando de eufemismos
que fazem das palavras que dizeis
a areia movediça onde se atola
a mentira maior que a perna curta
e que mesmo atascada, desenrola
a trama venenosa e corrupta,
diz-que-diz-que de línguas viperinas,
mais fundas que a fossa das Marianas
ou que as bocas-do-lixo, sibilinas,
que propagam calúnias levianas
e fazem do embuste o santo-e-senha
do ataque viral que mais convenha.

Domingos da Mota

[inédito]

15.9.17

SEGUNDO RETRATO

De cerúleo gabão, não bem coberto,
Passeia em Santarém chuchado moço,
Mantido às vezes de sucinto almoço,
De ceia casual, jantar incerto:

Dos esburgados peitos quase aberto,
Versos impinge por miúdo e grosso;
E do que em frase vil chamam caroço,
Se o quer, é vox clamantis in deserto:

Pede às moças ternura, e dão-lhe motes!
Que tendo um coração como estalage,
Vão nele acomodando a mil pexotes:

Sabes, leitor, quem sofre tanto ultraje,
Cercado de um tropel de franchinotes?
É o autor do soneto -- é o Bocage!

Bocage

POESIAS, Os Grandes Clássicos da Literatura Portuguesa, Colecção dirigida por Vasco Graça Moura, Editora Planeta DeAgostini, S.A., Lisboa, 2003

12.9.17

DE LONGE

Vêm de longe.
Sobre as mãos, sobre o chão caem.
Nada pode detê-las.
Entram pelo sono: redondas
grossas amargas.
E cintilantes.
Estrelas. Ou lágrimas.

Eugénio de Andrade

PEQUENO FORMATO, edição fora do mercado destinada aos amigos da Fundação Eugénio de Andrade, Porto, Fevereiro de 1997

2.9.17

Universidade de verão

Uivos, latidos,
pios, crocitos
& cacarejos,
guinchos & gritos
graves & agudos,
quem os ateia,
lança do palco
para a plateia?

O arrazoado
de alto coturno
é debitado
com ar soturno
& os alunos
arrebanhados
vestem a pele:
são amestrados..

Domingos da Mota

[inédito]

1.9.17

POSTERIDADE

Um dia eu, que passei metade
da vida voando como passageiro,
tomarei lugar na carlinga
de um monomotor ligeiro
e subirei alto, bem alto,
até desaparecer para além
da última nuvem. Os jornais dirão:
Cansado da terra poeta
fugiu para o céu. E não 
voltarei de facto. Serei lembrado
instantes por minha família,
meus amigos, alguma mulher
que amei verdadeiramente
e meus trinta leitores.. Então
meu nome começará aparecendo
nas selectas e, para tédio
de mestres e meninos, far-se-ão
edições escolares de meus livros.
Nessa altura estarei esquecido.

Rui Knopfli

USO PARTICULAR (POEMAS ESCOLHIDOS) com prefácio de António Cabrita, do lado esquerdo, Coimbra / Fundão, Julho de 2017

28.8.17

status quo


sta
tus
quo
sta

tus
quo
sta
tus

quo
sta
tus

quo
sta
tus

Domingos da Mota

[inédito]

27.8.17

GÊNESE II

no princípio era o verbo
uma vaga voz sem dono
vagando pela via láctea.

depois veio o sujeito
e junto com ele todos
os erros de concordância.

Gregorio Duvivier

É AGORA COMO NUNCA ANTOLOGIA INCOMPLETA DA POESIA CONTEMPORÂNEA BRASILEIRA, Organização e apresentação de Adriana Calcanhotto, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, Abril de 2017

12.8.17

A ESCALADA

       (segunda paráfrase da indiferença)



Primeiro
começaram com as provocações
as carrancas e as bravatas:

mar de fogo, de um lado;

fogo e fúria, do outro.

Depois

conjugaram-se paradas e desfiles
e manobras militares em terra mar
e ar e caças e bombardeiros 
e submarinos e porta-aviões
e mísseis e ogivas nucleares
e reuniões de conselhos
de insegurança e sanções e mais
sanções e reptos
e mais provocações,

mas como era longe

e os cães de guerra ladravam
do outro lado dos oceanos,
não me importei;

(não se importaram também

os órgãos de comunicação social,
cá do sítio, que nos seus noticiários
davam mais tempo de antena
e mais espaço nas páginas 
dos jornais a um golo, a um fora 
de jogo, a uma transferência
multimilionária de um jogador
de futebol, ou às pernas boleadas
de uma actriz desconhecida no areal
do Meco, que a todas as ameaças
que troavam nos ares,
preocupando-se os administradores
e as redacções com qualquer futilidade
que pudesse aumentar as tiragens
e os níveis de audiências.)

Se

um dia destes 
entre os poderosos senhores 
da guerra houver um, com o seu
estado-maior, que em vez da 
escalada verbal, 
decida premir o gatilho
ou carregar no botão,
chegarei a tempo 
de me importar?

Domingos da Mota


[inédito]


9.8.17

LITANIA

mar de fogo
fogo e fúria
fogo e fúria
mar de fogo

fogo e fúria
mar de fogo
mar de fogo
fogo e fúria

mar de fogo
mar de fogo
mar de fogo

fogo e fúria
fogo e fúria
fogo e fúria

Domingos da Mota

[inédito]

8.8.17

MANIA DO SUICÍDIO

Às vezes tenho desejos
de me aproximar serenamente
da linha dos eléctricos
e me estender sobre o asfalto
com a garganta pousada no carril polido.
Estamos cansados 
e inquietam-nos trinta e um
problemas desencontrados.
Não tenho coragem de pedir emprestados
os duzentos escudos
e suportar o peso de todas as outras cangas.
Também não quero morrer
definitivamente.
Só queria estar morto até que isto tudo
passasse.
Morrer periodicamente,
Acabarei por pedir os duzentos escudos
e suportar todas as cangas.
De resto, na minha terra
não há eléctricos.

Rui Knopfli

USO PARTICULAR (POEMAS ESCOLHIDOS) com prefácio de António Cabrita, do lado esquerdo, Coimbra / Fundão, Julho de 2017

29.7.17

PARTE POÉTICA

Não é fácil ser poeta o tempo inteiro.
Eu, por exemplo, nem cinco minutos
por dia, pois levanto-me tarde e primeiro
há que lavar os dentes, suportar os incisivos
à face do espelho, pentear a cabeça e depois,
a poeira que caminha, o massacre dos culpados,
assistir de olhos frios à refrega dos centauros.

E chegar à noite a casa para a prosa do jantar,
o estrondo das notícias, a louça por lavar.
Concluindo, só pelas duas da manhã
começo a despir o fato de macaco, a deixar
as imagens correr, simulacro do desastre.
Mas entretanto já é hora de dormir.
Mais um dia de estrume para roseira nenhuma.

José Miguel Silva

ÚLTIMOS POEMAS, Averno, Junho de 2017

23.7.17

Recado

Se por acaso aqui passa,
não se vê, não deixa rasto,
nem um ar de sua graça
que indicie o tempo gasto
na passagem velocíssima,
mais veloz que um relâmpago,
uma brisa suavíssima,
um nocturno pirilampo.
Pudesse deixar recado,
uma palavra, um sinal,
um gesto, mesmo apressado,
um sorriso matinal,
um aceno, um até já
ou até sempre, sei lá.

Domingos da Mota

[inédito]

19.7.17

Poemas Quotidianos

10


Depois das 7
as montras são mais íntimas

A vergonha de não comprar
não existe
e a tristeza de não ter
é só nossa

E a luz
torna mais belo
e mais útil
cada objecto

António Reis

Poemas Quotidianos, Prefácio Fernando J. B. Martinho, Posfácio Joaquim Sapinho, Lisboa, Tinta-da-China, Julho de 2017

17.7.17

Só quando os incêndios

Só quando os incêndios
forem naturais:
relâmpagos, raios,
faíscas normais
que os acendam
e soprem e alastrem
(sem mãos escondidas,
fogachos que bastem);

e as trovoadas,
súbitas e secas,
que sejam culpadas,
forem descobertas;
e nem a montante
do fogo que arde
sequer a jusante
soprar com alarde

o rol de granjeios,
de ganhos, proventos,
manobras, maneios,
desculpas, lamentos;
só quando os incêndios
depois do sol-posto
não derem estipêndios,
nem mesmo em Agosto.

Domingos da Mota

[inédito]

12.7.17

A vida de cada um

A vida de cada um
tem duas eras:
antes
e depois
da morte da Mãe

Teresa Rita Lopes

CICATRIZ, Editorial Presença, Lisboa, 1996

3.7.17

MIOPIA

São a janela para a alma, tu disseste, esses olhos;
e que dizes agora, quando a luz os esculpe,

células se dispersam, e a miopia parece sonho,
cortina, sombra de sombra, velo que a luz

fez violentar, lembrado apenas?

Eu atravesso a estrada sem óculos;
da ciência, a sua crença recuperada.

Tu acenas, nitidamente.

Luís Quintais

 A NOITE IMÓVEL, Assírio & Alvim, Março de 2017

29.6.17

Vinagre e azeite

A solidão pelas razões erradas avinagra a alma,
a solidão pelas razões certas lubrifica-a.

Que frágeis que somos, entre os raros momentos bons.

Indo e vindo incompletos,
intrigados com o destino,

como o relevo inacabado
de um burro caído, por cima de uma porta de igreja na Finlândia.


Vineger and oil

Wrong solitude vinegars the soul,
right solitude oils it.

How fragile we are, between the few good moments.

Coming and going unfinished,
puzzled by fate,

like the half-carved relief
of a fallen donkey, above a church door in Finland.

Jane Hirshfield

a mulher do casaco vermelho, tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho, Colecção Poetas da Eufeme, Edições de Sérgio Ninguém (Eufeme), Julho de 2017

28.6.17

da flatulência

o peido feito ameaça,
o peido que não se deu,
o peido como chalaça,
um motejo, um ar de graça,
agastou, mas não fedeu.

envolto pela canção,
o peido apenas foi
um peido proclamação,
um peido com ovação;
um peido assim como sói

dizer-se do peido mestre?
não soltou ventosidade,
não foi um traque pedestre,
nem foi um peido equestre,
foi um peido de vaidade.

mas se houve quem pegou
no peido que não fedeu
e contra o peido clamou,
praguejou, se abespinhou
e fez um tal escarcéu,

que faria se o cheirasse,
se fosse um peido real,
um peido que empestasse
como o pivete rapace
que tresanda, tal e qual.

Domingos da Mota

[inédito]

26.6.17

sofreguidão

e quando o defensor do estado mínimo
exige que o estado faça tudo;
e quando o defensor do que é privado
reclama que o estado, mas que estado,
exerça o seu papel, tome medidas
que sejam contra aquelas que tomou
enquanto no poder (oh quantas vidas
sucumbiram à míngua que lavrou);
e quando o defensor do lucro máximo,
das parcerias público-privadas,
um pastor do rebanho cujo gado
apascenta ao serviço da sagrada
sofreguidão de alguns, eis que propala
o boato pior que uma bala.

Domingos da Mota

[inédito]

25.6.17

da devastação

primeiro
negociaram o fim da agricultura
de subsistência; e os pequenos
agricultores como já não precisavam
do estrume
para adubar os campos (com as leiras
abandonadas ou em pousio)
venderam o gado
e o tojo que ano após ano era cortado
para a cama dos animais
começou a crescer abundantemente
nos matos e ao redor das casas;

entrementes
acabaram com os guardas
florestais;
e aposentaram  os cantoneiros que 
limpavam as bermas das estradas,
para evitar os fogos;

depois
começou a florescer 
uma casta de altos defensores do
eucalipto
do petróleo verde
e do pinheiro bravo
da fileira de grandes áreas 
de monocultura
amante do papel 

de muito papel
e de tudo o que suba
a cotação na bolsa de valores;

e a floresta 
à mercê do abandono de uns 
e da ganância de outros
alastrou desordenadamente;

e como as trovoadas secas
e as mãos criminosas não se extinguem
por decreto

e os fogos se tornaram  uma
constante nos meses de verão
montou-se uma indústria de combate
aos incêndios
que todos os anos corre o país de lés 
a lés como se fosse uma 
máquina de guerra;

e
entre mortos
e feridos
ninguém
escapa aos efeitos
da devastação.

Domingos da Mota

[inédito]

22.6.17

CENTRAL DA PRAÇA DAS FLORES

Falava de incêndios e de lugares
perdidos, dessas trovoadas
que só acontecem na infância
e nos perseguem depois
uma vida inteira. Estamos
em Julho, nunca fez tanto calor.

Não, corrige Benilde,
"Estamos num velório,
andam aí as moscas, a dançar".
Nesta taberna, volto a perceber,
o poeta fica por detrás do balcão
e oferece-me num largo sorriso
cansadas, certeiras palavras:

"Sou um ser vivo e humano.
Até os vermes são vivos".
-- Que lhes aproveite, Dona
Benilde, a nossa morte,
estas tardes que prefiro a tudo

e a sombra, o manso prodígio da sombra.

Manuel de Freitas

A FLOR DOS TERRAMOTOS, Averno, Lisboa, 2005

17.6.17

Prenúncio

Mal vejo a cor das palavras líquidas,
a não ser das que têm sangue e fel;
o tom das que vejo é terroso e seco
como as fragas cobertas pelo musgo

que acentua a ferrugem salgada
dos seus veios; realço a cor
das palavras sólidas,
erectas como esteios;

o tom bruscamente encanecido,
como se fosse o prenúncio dum
nevão, é dum quadro gélido, vivido,
e não há como dar-lhe outra demão.

Domingos da Mota

Eufeme, magazine de poesia n.º 3, abril / junho de 2017

12.6.17

indirecto livre

um romance é que era!...
dizem-me olhando de lado
os poemas 
longos
magros
enguias pensantes
agarradas ao papel
do centro de reabilitação

um romance é que era
com acção tempo
uma casa inteira
da raiz quadrada 
ao tecto
corredores a dar
para personagens
ténues
não totalmente
apatetadas
(sepultemos realismo
experimentalismo
e deus nos livre
do pós-colonialismo)

um romance é que faz
virar as cabeças na rua
calça mesas
duplica escaparates
expande a crítica
constipada
no seu casulo refinado

agora a conveniente
pausa descritiva
logo seguida
de autoconsciência
referencial
à guitarra e à viola

um romance é que era!...
sobrancelha arqueada
entre a cobiça e a paráfrase

Rosa Oliveira

tardio, Edições Tinta-da-china, Lda., Março de 2017