23.4.17

PARA UM LIVRO

O tempo que passei fechado sem
nenhum leitor, justificou ser
imolado pelas traças.

Inês Lourenço

COISAS QUE NUNCA, &etc, 2010

18.4.17

Vale o que vale

Um saiu e outro e outro
e mais outro sem dizer
por que razão. Não me afoito
a especular. Podes crer
que não estou para julgar
os que se vão pela porta,
um a um, de par em par
ou em bandos. Pouco importa
o porquê dessa saída,
se vão zangados ou não,
o motivo da partida.
A minha opinião
vale o que vale, e não quero
ser incorrecto ou severo.

Domingos da Mota

[inédito]

17.4.17

A pedra

Levanta a pedra o seu voo
Antigo em busca da cabeça de
Golias:
Atingirá a testa do inimigo
Ou terá de afinar a pontaria?

Domingos da Mota

[inédito]

16.4.17

RITORNELOS

25.

O que se torna tempo
não podes somá-lo
é abissal e infinito
esperar que nasça o princípio
no interior do que só vês de fora.

Não, não podes somá-lo
entre os dedos idênticos
nem à verdade nem à carne,
o que se torna tempo
é este exacto instante
que se cumpriu
se perdeu.

Joana Emídio Marques

RITORNELOS seguido de CÂNTICOS DA FLORESTA e LITANIAS, Desenhos de Bárbara Fonte, abysmo, Lisboa, Fevereiro 2014

15.4.17

MOAB

que filhos há-de
parir a mãe de
todas as bombas?

que terríveis
hecatombes haveremos
de carpir?

que mostrengo do
seu ventre aguardaremos
que expluda

tendo em conta a voz
aguda do desmando
altipotente? 

Domingos da Mota

[inédito]

12.4.17

Os corvos

Podem os corvos
corvejar nos campos
onde espantalhos
e que tais
se agitam?

Rasam.
Crocitam.

Domingos da Mota

[revisto]

11.4.17

O pó das sandálias

Fosse o pó das
sandálias do destino
mas são gases
e bombas e obuses
que destroem
mutilam
assassinam

Domingos da Mota

[inédito]

10.4.17

Terríficas luzes

Os senhores da guerra
Os senhores da morte
Os senhores da terra
Os senhores -- e a corte

De altas patentes
De seus mandatários
Ministros e agentes
Plenipotenciários

Os senhores que ordenam
Detêm poder
Que a tantos condenam
E deixam a arder

Com bombas obuses
Escombros ruínas
Terríficas luzes
Letais assassinas

Domingos da Mota

[inédito]

9.4.17

em língua de gato

Nada sei do amor é uma aragem
(outros o cantem) uma poeira
Nem sou esse o gato que pensa
mas o senhor sim desta passagem

entre ombro e ombreira
Veludo é o pelo me apascenta
Horas tantas que durmas lambo
as quentes sessenta e nove

de lado até caírem co'a calma
ratos que roem riso que move
relógio que pára o clic sem alma

da fotografia Então este tique
do verso rimado como um escroc
passa pra cá a perna e tu vais a reboque

                                                                           (Atenas, 2015)

Carlos Leite

DiVersos, Poesia e Tradução / n.º 25 - dezembro de 2016, Edições Sempre-Em-Pé,
Águas Santas

8.4.17

O MEL DE DEMÓCRITO

Dos átomos seguiste o movimento
dançando turbulento no vazio.
E vergaste-te à força do desejo
que engendra o corpo em outro divisível.
Mas nada mais fruíste do que o mel
na alma até à morte diluído.

José Augusto Seabra

Homenagem aos pré-socráticos (11 poemas), Edição Palavra em Mutação & autor, 2004

6.4.17

Espelho

     a partir de Fernando Pessoa


Se a criança
que fui me visse
(se visse ao espelho
anos depois),
e ao ver as rugas
até sorrisse,
se olhasse bem,
veria dois:
tão diferentes
que são agora.
Mas a criança
ficou lá fora,
anda às amoras,
cai no silvado.
Enquanto eu,
olhando outrora,
vejo que o espelho
está quebrado.

Domingos da Mota

[revisto]

3.4.17

Desabafo

     "Deixem-me largar um desabafo: às vezes os 
       amigos desiludem-nos tanto, porra!"

      Carlos Alberto Machado


Amigos? Inimigos? Quantos? Quem
pode contá-los e dizer bem alto:
ei-los aqui, são estes, sei-o bem,
não me engano nem temo um sobressalto,
um susto de morrer, pois todos eles
são fiéis e não traem como Judas
(descontando o chamado sete-peles
e os vira-casacas), não há mudas
que possam perturbar a confiança,
esta certeza de saber quem é
amigo ou inimigo, nesta andança
que ouso transformar num finca-pé,
pois que sei muito bem qualificá-los
e a todos, mesmo a todos, nomeá-los?

Domingos da Mota

[inédito]

1.4.17

Nem a sombra do Argos

Tarde chegou. E já não veio a tempo
de explicar a razão, que causa o trouxe,
que desejo o moveu, que contratempo
o conduziu ali. Quem estava, foi-se
cansado de esperar pelo Godot,
qualquer Messias que arriscasse vir
ou Dom Sebastião, perdido e só,
que pudesse das brumas emergir.
Tarde chegou. Se quiser contar
o porquê do regresso, do retorno,
nem um cão ouvirá sequer ladrar,
abandonada há muito pelo dono
nem a sombra do Argos voltará
a farejar quem fica ao deus dará.

Domingos da Mota

[inédito]

26.3.17

Há que franzir

Troco? Destroco? Não troco?
Falo? Respondo? Dou troco?
Calo? Engulo? Emborco?
Encharco? Caio de borco?

E assim caído, sufoco?
E amachucado e torto
Praguejo como se louco?
Ou faço-me então de morto?

E se respondo e returco
E se contesto e debato,
Julgarão que sou zaruco
Ou pior, que sou um chato,

Uma melga, um piolho?
Há que franzir o sobrolho.

Domingos da Mota

[inédito]

25.3.17

o furúnculo

não descuides o furúnculo,
pois um furúnculo desses,
mesmo não sendo carbúnculo,
será melhor que te apresses
a mostrá-lo a quem trate,
a quem saiba do assunto,
não faças o disparate
de o espremer; quando muito
desinfecta o ponto negro
e se ele tiver pus,
pega em ti, leva aconchego,
vai ao médico, faz jus
ao furúnculo, à verruga,
vai depressa, corre, estuga.

Domingos da Mota

[inédito]


24.3.17

furúnculo

é apenas um furúnculo.
e um furúnculo assim
virulento, quando muito,
espreme-se até ao fim.
não, não é uma ferida
aberta de par em par,
pois bem vista, bem espremida,
a coisa não tem o ar
de ser mais que uma borbulha
arrevesada, quiçá.
mas um furúnculo é isso:
por muito que cause engulho
e se mostre irritadiço,
há que espremê-lo,
vá lá.

Domingos da Mota

[inédito]

23.3.17

a mulher girava a mulher

a mulher girava a mulher
era a mó de um animal muito escuro

expandiam-se as redondezas do corpo
a mulher já não vinha no mapa mal cabia
na própria caligrafia.









mil águas depois
houve um homem.


Catarina Nunes de Almeida

MARSUPIAL, Mariposa Azual, Lisboa, Junho de 2014

20.3.17

Equinócio da Primavera

Fosse o sol da Primavera
que viesse celebrar
(e não a chuva, quem dera,
e não o vento a cortar)

que iluminasse este dia
depois da penosa espera
atribulada e sombria,
fosse a luz da Primavera;

fossem melros e pardais
e andorinhas em bandos,
e não estes surreais
avejões, com ditirambos

que decantam o Inverno
permanente, quase eterno.

Domingos da Mota

[revisto]

18.3.17

Paráfrase da indiferença

Primeiro 
provocaram as guerras: 
de genocídio, 
de ocupação, de prevenção, 
em nome de diversas 
primaveras, no pico do Outono 
ou em pleno Inverno, 
e forçaram centenas de milhares, 
para não dizer, milhões, a fugir 
das suas terras, aldeias, cidades, 
países, para salvar 
a pele,
mas como não era soldado, e 
no meu país havia o culto 
do Verão, 
não me importei.

Depois 
surgiram as vagas
de migrantes nos caminhos 
marítimos para os cemitérios 
mediterrânicos, mas como não 
era pescador, nem emigrante, 
e estava voltado para 
o Atlântico,
não me incomodei.

A seguir 
começaram a erguer muros 
de arame farpado, a fechar 
fronteiras, a criar campos 
de concentração,
e a acirrar os ânimos contra
os outros, os refugiados,
os estranhos, os estrangeiros,
e
cresceram, como 
cogumelos, os movimentos
e partidos xenófobos, 
racistas, extremados,
mas como tudo isso se passava 
lá longe e, na vizinhança, 
os cabeças-rapadas eram
um pequeno epifenómeno,
não me perturbei.

Agora 
que a xenofobia campeia
e tem prosélitos renomados 
em altos cargos,
dentro e fora 
de portas, que ofendem 
as minhas convicções, pois 
ameaçam cavar mais sepulturas,
não será tarde demais para 
abrir os olhos, 
olhar em volta, 
e me importar?

Domingos da Mota

[inédito,

a partir da leitura de Martin Niemöller ou Bertolt Brecht ou de quem quer que seja o seu autor]


15.3.17

AMENDOINS

Vivi o suficiente -- pensou.
Apenas uma única dúvida:
deveria dizer suficiente ou bastante?
Seja como for, chegou a um ponto
em que lhe era interiormente lícito dizer
que daquele ponto de vista em diante
a experiência entre os vivos
era mais ou menos redundante.
É claro que ao menor susto
haveria de agarrar-se à experiência redundante
como um macaco convictamente preênsil
por amendoins.
A vida era para ele amendoins.

Daniel Jonas

BISONTE, Assírio & Alvim, Porto, Abril de 2016

10.3.17

Terceiro soneto familiar

Pudéssemos saber dos tetravôs
e das mães de seus pais, saber
da árvore que a partir da raiz
chega até nós, e abrange

a família que nos cabe,
olhando para os ramos,
as flores e os frutos,
para as folhas caídas

no Outono, para os corpos
viçosos ou enxutos,
para a seiva que nutre

o abandono: pudéssemos 
saber dos que nos são, e até
dos nascituros, porque não?

Domingos da Mota

[inédito]

9.3.17

[Os velhos são manhosos]

Os velhos são manhosos.

Demoram-se a apanhar a fruta, sabem
que sabem esticar o braço antigo até aos primeiros figos,
que podem saber chegar ao fim da figueira.
Os velhos arrastam os pés em direcção à saída,
esgotam-se ao sol seguinte.
Cortam-se por vezes no vidro de emergência,
no buraco para o exterior.
Têm visões extraordinárias,
receitas específicas para o barroco do poema
e do mel.

Escrevo para os velhos.

Filipa Leal

VEM À QUINTA-FEIRA, Assírio & Alvim, Porto, 2016

6.3.17

Senhora da pós-verdade

Senhora da pós-verdade,
dizei-me, porque mentis
com a naturalidade
dum Pinóquio sem nariz
que se veja de verdade,
mas que cresce, oh se cresce,
porquanto a fatuidade
do seu umbigo parece
ser o exemplo perfeito
de como a venalidade
desdobrada num conceito
de aparente inocuidade,
não se esgota no filão
dos erros de percepção.

Domingos da Mota

[inédito]

4.3.17

O mesmo

Por muito semelhante que pareça,
é sempre diferente o que se vê,
e mesmo que a diferença se esvaneça
ou finja ser aquilo que não é,
a sua parecença, se olhada
de perto, com rigor, com precisão,
mostrará, quando muito, a camada
primeira do objecto de visão.
E ainda que pareça ser igual,
o mesmo não será, mesmo que seja
idêntico ao que os olhos podem ver:
no decurso do tempo, é natural
que mude muito mais do que deseja
e possa transformar-se noutro ser.

Domingos da Mota

[inédito]

1.3.17

O ANJO PERPLEXO

Nunca houve deus, nem virgens, nem santos,
nem ícone que proteja, nem oração que console,
nunca houve milagres ou prodígios,
nem salvação da alma ou vida eterna;
nem palavras mágicas, nem bálsamo eficaz
contra a dor que nunca cicatriza;
nem luz do outro lado das sombras
nem saída do túnel, nem esperança.
Só nos acompanha nesta travessia
um anjo perplexo que suporta
como nós a mesma penosa vida.

Amalia Bautista

Jorge Sousa Braga, SOMBRAS BRANCAS, Setenta e sete poemas sobre anjos caídos de outras línguas, Língua Morta, Novembro de 2016




26.2.17

grandessíssimos

grandessíssimos banqueiros,
capacíssimos gestores,
sabidíssimos useiros
e vezeiros com penhores,
mais-valias, traficâncias,
intercâmbios e favores,
criativas manigâncias,
desvios para offshores,
enormíssimos negócios
(sob o manto do sigilo),
refinadíssimos ócios
adequados ao estilo
dos seus umbigos gigantes
como trombas de elefantes

Domingos da Mota

[inédito]

25.2.17

IP 2

Oito óbitos por quilómetro
é muito insecto esborrachado
no pára-brisas.

São muitas vidas.
É muita abelha, muita borboleta,
muito mosquito.

Mas tu não és menos chegado ao finito
e o mais certo é que andes distraído
de que há um vidro

entre ti e o horizonte.

Rui Lage

Estrada Nacional, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, agosto de 2016

20.2.17

AMOR FORTUITO

Seduziu. E levou
naquele rubro olhar
tudo o que neste coube
sem ter sido gozado.

Que súbita presença
de casual encontro
com gestos de silêncio
e quietude de assomo.

E depois? Um tumulto,
nada mais assumido:
o tremor esvaído
que não teve percurso.

António Salvado

Essa Estória, Portugália Editora, Junho de 2008

18.2.17

o semblante

tinha um sorriso amarelo,
capcioso e contrafeito,
era grisalho o cabelo,
e o seu velho preconceito
de raiva tinha uma cor
que não sei bem definir,
um tudo-nada pior
que o sorriso a fingir;
e achacada à pesporrência
no discurso e na postura,
aquela parda eminência
retesava a catadura,
e empinava o semblante
supinamente arrogante.

Domingos da Mota

[revisto]

17.2.17

a pós-verdade

quando se mente e desmente
e a pós-verdade se diz,
pois a verdade somente
frutifica se a raiz
for plantada na terra
que lhe permita crescer,
apesar da muita guerra
que a mentira fizer;
e se esta for a erva
daninha que ameaça
a seara de centeio,
repara bem na caterva
de joio que se congraça
com a lama de permeio.

Domingos da Mota

[inédito]

16.2.17

Tudo isso e um par de botas

O diabo anda à solta, que dianho!
O dianho anda à solta, que diabo!
O Satã anda à solta, e o rebanho
Em pânico, aturdido e agitado
Investe contra o demo, o mafarrico,
Com a língua e os cornos afiados,
Mesmo que dê o dito por não dito
E ouse denegar muitos pecados.
O diabo, porém, está nos detalhes
Das vitórias a pulso e das derrotas,
E mesmo que tu ganhes ou que falhes,
Usando tudo isso e um par de botas,
Diante das mentiras e falácias,
Suas costas são largas, coriáceas.

Domingos da Mota

[inédito]

15.2.17

À espera do grande dia

   Grande vida que tudo dás e tiras
Nem sequer a recordação permanecerá nos nossos ossos
Nem sequer a música do violino de Mendelssohn.


En Espera del Gran Día


   Gran vida que das y todo quitas
ni siquiera el recuerdo quederá en nuestros huesos
ni siquiera la música del violín de Mendelssohn.

Haroldo Alvarado Tenorio

[Tradução de João Rasteiro]

Di Versos, Poesia e tradução, N.º 24, Junho de 2016, Vinte anos: 1996-2016, Edições Sempre-em-Pé

13.2.17

(pin) gente

de pingente na lapela,
armado ao pingarelho,
o discurso que afivela,
como um velho do restelo,
segue o tom e a toada
(pois repete a voz do dono),
duma prédica ajustada
com laivos de desabono.
e redobra a litania
entre a sua comandita
que sibila e pressagia
uma tremenda desdita
para quem não dobre a espinha
e não cumpra a ladainha.

Domingos da Mota

[inédito]

11.2.17

VONTADE

Debruço-me num rio de palavras,
alimento de nada
que se vai esvaindo do meu pulso.
Apenas serve a seres
que não voltam como antes.
É isto ter morrido,
nomear o pinheiro manso
e não ser o que foi, um rosto.
Não te dissolva a pena.
A uns mortos resta o choro;
a outros, o silêncio.
Recorda a tundra
para cima do círculo polar,
sem bétulas nem flores,
recorda essa paisagem
mais nua do que um claustro
e deixa escrito
que espalhem nela as tuas cinzas.

Nuno Dempster

Eufeme, magazine de poesia, n.º 2 (Janeiro/Março 2017) Editor e coordenador: Sérgio Ninguém 

8.2.17

No lugar da pouca farinha

1.

É a mesma navalha.

Aquela que levanta no mar exterminado
Uma ilha
E risca no centro da mão a métrica derrotada
De uma colmeia.

E não é o mel que exulta nas linhas inúteis
Dos dedos:

É o brilho náufrago
Das migalhas do estio
Que nelas coagula
A gotas de sombra mais insubmissa.

Luís Filipe Pereira 

No lugar da pouca farinha, edição Temas Originais, Lda., Coimbra, 2016

7.2.17

TANKA

*

A vizinha
de língua afiada
está grávida --
o cacto dela na janela
em flor

*

The neighbor
with the sharp tongue
is pregnant --
her window cactus
in full bloom

George Swede

um mosquito no meu braço, tradução de Francisco José Craveiro Carvalho, edição de Sérgio Ninguém (Eufeme), Fevereiro de 2017

5.2.17

RONDEL DO ALENTEJO

Em minarete
mate
bate 
leve
verde neve
minuete
de luar.

Meia-Noite
do Segredo
no penedo
duma noite
de luar.

Olhos caros
de Morgada
enfeitada
com preparos
de luar.

Rompem fogo
pandeiretas
morenitas,
bailam tetas
e bonitas,
bailam chitas
e jaquetas,
são as fitas
desafogo
de luar.

Voa o xaile
andorinha
pelo baile,
e a vida 
doentinha
e a ermida
ao luar.

Laçarote
escarlate
de cocote
alegria
de Maria
la-ri-rate
em folia
de luar.

Giram pés
giram passos,
girassóis
e os bonnets,
e os braços
destes dois
giram laços
de luar.

O colete
desta Virgem
endoidece
como o S
do foguete
em vertigem
de luar.

Em minarete
mate
bate
leve
verde neve
minuete
de luar.

                                                          1913

José de Almada Negreiros

Poemas Escolhidos, edição Fernando Cabral Martins, Luís Manuel Gaspar, Mariana Pinto dos Santos, Sara Afonso Ferreira, Assírio & Alvim, Novembro de 2016

2.2.17

de poucas palavras

era de poucas palavras, tão
poucas que mesmo quando
conversava com os botões,
só usava monossílabos.

Domingos da Mota

[inédito]

1.2.17

se isto?

se isto 
é um poeta que se preze
quando deveria ter
uns vinte livros publicados

e pelo menos duas antologias,
entre quinhentas a mil páginas 
cada, em papel-bíblia,
e apenas deu à estampa

um livro,
um pequeno livro
com cinquenta e cinco
poemas?

que fazer das
sobras incompletas
(à mercê das traças)
dispersas por gavetas,

pastas, cadernos,
revistas, colectâneas
e noutros sítios,
que dizer?

Domingos da Mota

[inédito]

29.1.17

auto-retrato 60

depois temos o resto da vida

e não chega

para descobrir que no seio materno
já havia uma gramática

Paulo José Miranda

auto-retrato, abysmo, Lisboa, Abril, 2016

26.1.17

bumerangue

está-lhe na massa do sangue
exorbitar, e assim sendo,
se houver um bumerangue
que o atinja, fazendo
da sua crista arrogante,
da sua língua afiada
contra quem, perto ou distante,
se opõe à declarada
intenção de se arrogar
o dono altipotente
da terra, mar e do ar,
de ocidente oriente,
uma crista emurchecida,
direi tão-só: «é a vida!»

Domingos da Mota

[inédito]

24.1.17

errar

não te leves muito a sério:
errar é próprio do homem:
emenda o erro que tome,
como se dono do império,
tamanha desproporção
que, além de exorbitar,
se guie pela ambição,
como se estrela polar.
por tentativas e erros
se descobre o que se busca,
sempre que os erros são meros
desaires que não ofuscam
o caminho a seguir:
antes o podem abrir.

Domingos da Mota

[inédito]

23.1.17

Tríptico do riso

I

Gostaria de me rir
(rir sobretudo de mim),
de ver os outros sorrir,
rir com gosto, rir assim,
desatar numa risada
com prazer, continuar
(não rir por tudo e por nada),
rir de bom grado e gozar
com um sorriso nos lábios
sempre que houvesse razão,
mesmo que não fossem sábios,
modelos de perfeição,
os porquês da casquinada
duma boa gargalhada.

II

Gostaria de me rir,
fazer do riso receita,
remédio para curtir
e aplicar à maleita,
à doença que ameaça
contagiar cegamente,
vendo aquilo que se passa,
vendo o ovo e a serpente
a chocar, sair da casca
e morder o pé descalço
que se atola, que se atasca
quando segue no encalço
de promessas e de juras
e de incertezas futuras.

III

Gostaria de me rir,
mas o riso não me sai
ante o que vejo surdir
e que analiso e que vai
ser fonte de muito choro,
muitas lágrimas de sangue,
muito abuso e desaforo,
ziguezague e bumerangue,
muitos actos de loucura,
em nome da lucidez
mais tenebrosa que augura
o reino da estupidez
sob a pata de tiranos
(por mil dias?, por cem anos?)

Domingos da Mota

[inédito]