27.4.14

morte convencional

dizem que a coisa é assim: a grande sonsa
crepuscular alastra pelas veias,
fogem tacto e olfacto à geringonça
e o gosto, o ouvido, a vista e as ideias.

o cabelo suado, a barba intonsa,
as demais circunstâncias muito feias,
alguma gente em pranto que responsa
num negrume confuso de alcateias.

deitam o olho às jóias, à mobília,
os membros menos tristes da família
e a chuva dá nos vidros grosso açoite.

vai-se em cata da agência à luz das velas
nas páginas abertas, amarelas,
a murmurar: "- não passa desta noite."

Vasco Graça Moura

uma carta no inverno, Quetzal Editores, Lisboa, Março de 1997

da vida humana

6

para quê dar-te o sopro inútil,
bafo sem espelho,
em que os mortos se convertem,
a máscara mais ou menos hábil

no travesti da escrita?
já passamos a vida
em lugares paralelos, para quê ir buscar-te
a dimensão da alma

que de ti ignoramos? não é preciso
que essa pátria se cumpra, ou nenhum outro
som musical, slogan, cartaz.
morreste. és uma coisa.

nenhuma loquaz intervenção
ou invenção te ressuscita.

Vasco Graça Moura

Os Rostos Comunicantes, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1984

25.4.14

MANIFESTAÇÃO

Manifestantes e avarandados entreolham-se.

O olhar trocou-se.
Não se trocou o cheiro.

Alexandre O'Neill

POESIAS COMPLETAS, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio 2007

13.4.14

Capitães de Abril

     a partir do poema, Camões e a tença, de Sophia de Mello Breyner


Ireis ao paço. Não
de mão estendida, por muito
que a tença seja incerta. Sereis
no paço a memória viva, a imagem
da revolta que desperta.

Ireis ao paço, ou seja,
à assembleia, escutar, olhar e ver,
mas falar, não.
Expor outra razão? Melhor ideia?
No paço estará fora de questão.

Por certo evocarão a liberdade
e tecerão louvores à vossa gesta.
A maioria debitará, à saciedade, este
é o caminho que nos resta, e que varre
o país de lés a lés, o país que um dia

libertastes das grilhetas do medo,
e como vedes, o medo anda aí,
mede os contrastes, e usa
o temor da dissonância
com a novilíngua da ganância.

Ireis ao paço? Mandareis recado?
Importa a firmeza da resposta.
Basta de pingentes, paus-mandados
duma austera, apagada e vil tristeza,
atentos, veneradores e obrigados.

Domingos da Mota

[inédito]

8.4.14

Não cantarei

    Não cantarei amores que não tenho

     Carlos Drummond de Andrade


Não cantarei o amor
enquanto o ódio daninho
for a seiva da flor,
for o adubo do espinho,
for a haste do rigor,
for o sorriso escarninho,
for a guerra e o pavor,
for o descaso maninho,
for a fome e o desfavor,
for o erro comezinho,
for o sinal do bolor,
for o medo que adivinho,
for a fonte de livor,
for o veneno a caminho.

Não cantarei o amor
enquanto o ódio estiver
como dono e senhor
da natureza que houver,
impondo no seu altar
inumanos sacrifícios,
apenas para cevar
a cupidez com seus vícios.
Não quero contaminar
o amor com a aversão,
com o desprezo larvar
da humana condição,
que se propõe defraudar
e destruir a razão.

Não cantarei o amor,
pois o amor não precisa
deste canto de louvor,
de bandeira ou de divisa,
de volteios em redor
duma toada imprecisa.
Precisa de ter espaço
onde possa respirar,
da lisura dum regaço,
dum ombro para assentar,
depois de muito cansaço,
a cabeça no lugar,
que lhe permita o abraço
dum sorriso no olhar.

Domingos da Mota

[inédito]

4.4.14

Rascunho

Assim vai o poema: ensaio, escrevo,
apago, e dou voltas e mais voltas
em redor de palavras que não devo,
deixando as que devia, desenvoltas

a sair do rascunho, de viés,
um borrão abstracto que as desasa,
pois decidem fugir a sete pés
em busca de melhor, dum golpe d'asa

que as guinde até aos cumes impossíveis
de serem atingidos por alguém
que não tenha olhos d'águia, concebíveis
somente para alguns, esses a quem

consagro o que perdura, neste esboço,
dum poema esburgado até ao osso.

Domingos da Mota

[inédito]