30/08/2015

[Na minha horta]

Na minha horta
colhendo fruta
sinto-me um ladrão

Yosa Buson

PRIMEIRO AMOR e outros poemas, Selecção e versões de Manuel Silva-Terra, Editora Licorne, outubro de 2013

26/08/2015

A terceira margem

Na margem esquerda do tempo
(se o tempo fosse um rio)
pintaria o destempo
que passa como um navio

e atento à passagem 
do navio visaria
focar a terceira margem
do tempo que me fugia.

Domingos da Mota

[revisto]

21/08/2015

A TRAIÇÃO

quando do cavalo de tróia saiu outro
cavalo de tróia e deste um outro
e destoutro um quarto cavalinho de
tróia tu pensaste que da barriguinha
do último já nada podia sair
e que tudo aquilo era como uma parábola
que algum brejeiro estivesse a contar-te
pois foi quando pegaste nessa espécie
de gato de tróia que do cavalo maior
saiu armada até aos dentes de formidável amor
a guerreira a que já trazia dentro em si
os quatro cavalões do vosso apocalipse

Alexandre O'Neill

POESIAS COMPLETAS, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio de 2007

19/08/2015

CANÇÃO DA MORTE PEQUENA

Prado mortal de luas,
sangue debaixo da terra.
Prado de sangue velho.

Luz de ontem, luz de amanhã.
Céu mortal de relva.
Luz e noite de areia.

Encontrei-me com a morte.
Prado mortal de terra.
Uma morte pequena.

Há um cão sobre o telhado.
Só uma das minhas mãos
atravessava sem fim
montanhas de flores secas.

Catedral de cinza apenas.
Luz e noite de areia.
Uma morte pequena.

A morte e eu, um homem.
Um homem sòzinho, e ela,
uma morte pequena.

Prado mortal de lua.
Trémula a neve geme
atrás de qualquer porta.

Um homem, e quê? Já disse.
Um homem sòzinho e ela.
Prado, amor, luz e areia.

Federico Garcia Lorca

TRINTA E SEIS POEMAS E UMA ALELUIA ERÓTICA, Tradução de Eugénio de Andrade, Editorial Inova Limitada, Porto, Janeiro de 1970

12/08/2015

COMUNICADO

Na frente ocidental nada de novo.
O povo
Continua a resistir.
Sem ninguém que lhe valha,
Geme e trabalha
Até cair.

Coimbra, 18 de Abril de 1961.

Miguel Torga

Antologia Poética, 4.ª Edição Aumentada, Coimbra, Execução Gráfica, G.C. - Gráfica de Coimbra, Lda., Abril, 1994

09/08/2015

radiograma

Alegre   triste   meigo   feroz   bêbado
lúcido
no meio do mar


Claro   obscuro   novo   velhíssimo   obsceno
puro
no meio do mar


Nado-morto às quatro   morto a nado às cinco
encontrado perdido
no meio do mar
no meio do mar

Mário Cesariny

PENA CAPITAL, Assírio & Alvim, Lisboa, Março, 1999




07/08/2015

SEM CABEÇA

Até mesmo a manhã custa a perceber.
É como se alguém me decepasse a cabeça a meio da noite
e as horas se enganassem à volta do meu pescoço.

É fácil retratar uma degolação poética
em tempos de barbárie
tecnológica.

Afinal acordei no meio de gente ainda com cabeça
e eu sou aquele avô que os media
sempre ensinam.

Desgraçados dos tais
vestidos de amarelo para melhor serem vistos
com a faca viva encostada à garganta.

Comecei com a manhã imprecisa
meio cego a procurar um verso meu no meio da bruma
com a delicada nervosa faca de papel.

O mundo é um globo de gente ajoelhada,
de cabeças suspensas. E eu ao sair, só, do sono,
decapito o poema.

Armando Silva Carvalho

A Sombra do Mar, Assírio & Alvim, Julho de 2015

05/08/2015

[Um ritmo perdido...]

Um ritmo perdido...

Se uma pausa não é fim
E silêncio não é ausência,
Se um ramo partido não mata uma árvore,
Um amor que é perdido, será acabado?

Um ouvido que escuta,
Uma alma que espera...
- Uma onda desfeita
É ou já não era?

Ana Hatherly

Um ritmo perdido, 1958

M. Alberta Menéres e E. M. de Melo e Castro, ANTOLOGIA DA POESIA PORTUGUESA, 1940-1977 VOL.II, Círculo de Poesia Moraes Editores, Lisboa, 1979

04/08/2015

IN MEMORIAM

     à minha Mãe


Desaba o sol, o silêncio,
a dor no coração da terra
comovida; na levada

do tempo, no rigor da noite,
para sempre, desmedida.
Desaba a luz, o sentido - a vida.

Domingos da Mota

Agosto de 2003