27/12/2012

Roncos & Sibilos

Se do ronco se faz verso
e do verso o seu avesso,
do repouso me despeço
pois que o ressono é um terço

de ruídos, um rosário
de sibilos guturais
(fosse canto de canário),
mas não é, e digo mais

que perante tal bramir,
tal decante de zunidos,
até os cães a latir
contra os gatos esbaforidos

mais parecem um coral
afinado, por sinal.

Domingos da Mota

a partir da leitura do "Soneto do ronco", de Jorge Linhaça

(dedicado ao médico especialista de doenças pulmonares, Dr. António Ramalho Almeida, e à sua Banda "Roncos e Sibilos")

23/12/2012

Lêdo Ivo [1924 - 2012]

CANTO GRANDE


Não tenho mais canções de amor.
Joguei tudo pela janela.
Em companhia da linguagem
fiquei, e o mundo se elucida.

Do mar guardei a melhor onda
que é menos móvel que o amor.
E da vida, guardei a dor
de todos os que estão sofrendo.

Sou um homem que perdeu tudo
mas criou a realidade,
fogueira de imagens, depósito
de coisas que jamais explodem.

De tudo quero o essencial:
o aqueduto de uma cidade,
rodovia do litoral,
o refluxo de uma palavra.

Aqui estou, minha canção
enfrenta o inverno, é de concreto.

Meu coração está batendo
sua canção de amor maior.
Bate por toda a humanidade,
em verdade não estou só.

Posso agora comunicar-me
e sei que o mundo é muito grande.
Pela mão, levam-me as palavras
a geografias absolutas.

Lêdo Ivo

POESIA BRASILEIRA DO SÉCULO XX DOS MODERNISTAS  À ACTUALIDADE, Selecção, introdução e notas de Jorge Henrique Bastos, Edições Antígona, Fevereiro de 2002

20/12/2012

Pedro Tamen

                                                                           (Sorneto)



Não digo do Natal - digo da nata
do tempo que se coalha com o frio
e nos fica branquíssima e exacta
nas mãos que não sabem de que cio

nasceu esta semente; mas que invade
esses tempos relíquidos e pardos
e faz assim que o coração se agrade
de terrenos de pedras e de cardos

por dezembros cobertos. Só então
é que descobre dias de brancura
esta nova pupila, outra visão,

e as cores da terra são feroz loucura
moídas numa só, e feitas pão
com que a vida resiste, e anda, e dura.

Pedro Tamen

Memória Indescritível, Gótica, Lisboa, 2000

15/12/2012

Prosa para 2012

Apesar da expressão de deve e haver
não ser a mais exacta: como e quando
se obriga tanta gente, sem dever,
a saldar o que poucos vão sacando;

apesar da receita do poder,
ditada por banqueiros e quejandos,
ter em vista sugar o que aprouver,
num país de costumes ditos brandos;

apesar da revolta (que acentua
o risco de sombrias ameaças),
propagar o contágio, rua a rua,
e encher de clamor imensas praças;

apesar do estridor dos decibéis,
bem-vindos sejam os meus sessenta e seis

Domingos da Mota

(Dezembro de 2012)
[Inédito]

13/12/2012

DIÁRIO DE RUM

Enquanto espero a subida das águas
Vou construindo de cabeça
O poema deste dia

Prédios para deitar abaixo
Escalpes de negócios clandestinos
Cães que hesitam a travessia

Os bárbaros chegaram ao governo
Falam línguas.

João Almeida

Telhados de Vidro, N.º 17 . Novembro . 2012

08/12/2012

MORTE

Sabemos que de todas as sementes
é a mais pesada. Havemos de esperar
por ela. Acolhemo-la e nada
podia ser tão nosso. Compreendemos
que no seu interior talvez exista
a última seiva, o rumor de outra
germinação para que fique
junto dela. Descai silenciosa
e devagar. A terra é o nosso corpo.

Fernando Guimarães

(Sete poemas, Revista de Poesia relâmpago N.º 29/30, Outubro de 2011-Abril de 2012, Ano XV)

05/12/2012

Papiniano Carlos (1918-2012)

A galope
um cavaleiro atravessa a noite.
Inútil perguntar-lhe
o que levava. Galopava.

À desfilada
atravessava noites, abismos, cidades.
Não lhe perguntásseis de onde veio,
aonde ia. Galopava.

Furacão
vingador, arcanjo desencadeado
que resta do que foste? Já não és fogo
nem vento. És cinza, pó. Mas galopas.

Papiniano Carlos

SONHAR A TERRA LIVRE E INSUBMISSA..., Editorial Inova, SARL, Porto, 1973

02/12/2012

NESSE NUNCA

Nunca se pensa que virá um dia
em que essa idade como bruma fria
será a que teremos; todavia

nesse nunca está ela já contida:
se o pensamento desconhece a vida,
dela recebe o sangue da ferida

Gastão Cruz

CRATERAS, Assírio &  Alvim, Fevereiro 2010

01/12/2012

ARIDEZ

O tempo passa devagar,
à volta das crateras.
Os relógios de pulso e os relógios de pêndulo
param,
tudo pára quando,
nos bosques nocturnos de sangue e pedra,
uma criança retira a última espiga do
cálice fumegante da terra.
É uma vida árida,
um pensamento de montanhas ao longe.
As mulheres,
quando o sol cai do outro lado do mundo,
deitam-se de bruços,
a ouvir a respiração da erva.
Mas ninguém cuida das vinhas.
Passam caravanas sem destino e os condenados
andam em círculo,
abandonados por deus.
É assim o longo silêncio das esferas.

José Agostinho Baptista

QUATRO LUAS, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio 2006