27.12.12

Roncos & Sibilos

Se do ronco se faz verso
e do verso o seu avesso,
do repouso me despeço
pois que o ressono é um terço

de ruídos, um rosário
de sibilos guturais
(fosse canto de canário),
mas não é, e digo mais

que perante tal bramir,
tal decante de zunidos,
até os cães a latir
contra os gatos esbaforidos

mais parecem um coral
afinado, por sinal.

Domingos da Mota

a partir da leitura do "Soneto do ronco", de Jorge Linhaça

(dedicado ao médico especialista de doenças pulmonares, Dr. António Ramalho Almeida, e à sua Banda "Roncos e Sibilos")

23.12.12

Lêdo Ivo [1924 - 2012]

CANTO GRANDE


Não tenho mais canções de amor.
Joguei tudo pela janela.
Em companhia da linguagem
fiquei, e o mundo se elucida.

Do mar guardei a melhor onda
que é menos móvel que o amor.
E da vida, guardei a dor
de todos os que estão sofrendo.

Sou um homem que perdeu tudo
mas criou a realidade,
fogueira de imagens, depósito
de coisas que jamais explodem.

De tudo quero o essencial:
o aqueduto de uma cidade,
rodovia do litoral,
o refluxo de uma palavra.

Aqui estou, minha canção
enfrenta o inverno, é de concreto.

Meu coração está batendo
sua canção de amor maior.
Bate por toda a humanidade,
em verdade não estou só.

Posso agora comunicar-me
e sei que o mundo é muito grande.
Pela mão, levam-me as palavras
a geografias absolutas.

Lêdo Ivo

POESIA BRASILEIRA DO SÉCULO XX DOS MODERNISTAS  À ACTUALIDADE, Selecção, introdução e notas de Jorge Henrique Bastos, Edições Antígona, Fevereiro de 2002

20.12.12

Pedro Tamen

                                                                           (Sorneto)



Não digo do Natal - digo da nata
do tempo que se coalha com o frio
e nos fica branquíssima e exacta
nas mãos que não sabem de que cio

nasceu esta semente; mas que invade
esses tempos relíquidos e pardos
e faz assim que o coração se agrade
de terrenos de pedras e de cardos

por dezembros cobertos. Só então
é que descobre dias de brancura
esta nova pupila, outra visão,

e as cores da terra são feroz loucura
moídas numa só, e feitas pão
com que a vida resiste, e anda, e dura.

Pedro Tamen

Memória Indescritível, Gótica, Lisboa, 2000

13.12.12

DIÁRIO DE RUM

Enquanto espero a subida das águas
Vou construindo de cabeça
O poema deste dia

Prédios para deitar abaixo
Escalpes de negócios clandestinos
Cães que hesitam a travessia

Os bárbaros chegaram ao governo
Falam línguas.

João Almeida

Telhados de Vidro, N.º 17 . Novembro . 2012

8.12.12

MORTE

Sabemos que de todas as sementes
é a mais pesada. Havemos de esperar
por ela. Acolhemo-la e nada
podia ser tão nosso. Compreendemos
que no seu interior talvez exista
a última seiva, o rumor de outra
germinação para que fique
junto dela. Descai silenciosa
e devagar. A terra é o nosso corpo.

Fernando Guimarães

(Sete poemas, Revista de Poesia relâmpago N.º 29/30, Outubro de 2011-Abril de 2012, Ano XV)

5.12.12

Papiniano Carlos (1918-2012)

A galope
um cavaleiro atravessa a noite.
Inútil perguntar-lhe
o que levava. Galopava.

À desfilada
atravessava noites, abismos, cidades.
Não lhe perguntásseis de onde veio,
aonde ia. Galopava.

Furacão
vingador, arcanjo desencadeado
que resta do que foste? Já não és fogo
nem vento. És cinza, pó. Mas galopas.

Papiniano Carlos

SONHAR A TERRA LIVRE E INSUBMISSA..., Editorial Inova, SARL, Porto, 1973

2.12.12

NESSE NUNCA

Nunca se pensa que virá um dia
em que essa idade como bruma fria
será a que teremos; todavia

nesse nunca está ela já contida:
se o pensamento desconhece a vida,
dela recebe o sangue da ferida

Gastão Cruz

CRATERAS, Assírio &  Alvim, Fevereiro 2010

1.12.12

ARIDEZ

O tempo passa devagar,
à volta das crateras.
Os relógios de pulso e os relógios de pêndulo
param,
tudo pára quando,
nos bosques nocturnos de sangue e pedra,
uma criança retira a última espiga do
cálice fumegante da terra.
É uma vida árida,
um pensamento de montanhas ao longe.
As mulheres,
quando o sol cai do outro lado do mundo,
deitam-se de bruços,
a ouvir a respiração da erva.
Mas ninguém cuida das vinhas.
Passam caravanas sem destino e os condenados
andam em círculo,
abandonados por deus.
É assim o longo silêncio das esferas.

José Agostinho Baptista

QUATRO LUAS, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio 2006

24.11.12

ARITMÉTICA EMOTIVA

Minhas duas irmãs éramos três,
minha mãe e meu pai éramos cinco.
Se existe, sabe Deus como se fez
a nossa casa, com amor e afinco.

Cada um eram cinco duma vez;
eu, à distância, ainda bem o sinto.
A alegria se fez e se refez:
todos brincavam. Hoje só eu brinco

atirando piropos à saudade,
que devolve em imagens. É a maneira
de refazer a tímida unidade

em que nos reunimos de algum modo.
Mas é apenas o fumo da fogueira,
vestígio vago do que foi um todo.

Armando Pinheiro

UMA ANTOLOGIA, Selecção e prefácio de Manuel António Pina com um desenho de José Rodrigues, ASA Editores, S.A., Porto, 2003

19.11.12

Mil Novecentos e Oitenta e Quatro

Recolhemos o gato
na madrugada de sábado,
recém-nascido, ainda com os olhos fechados.

Como uma mãe a um filho,
vigiamos-lhe o sono,
compramos um biberão e leite em pó,
uma tetina,
uma manta de reduzidas dimensões,
branca,
com um desenho negro no dorso,
para lhe lembrar a raça.

Não tendo resistido,
morreu serenamente,
num súbito vagido
e o pêlo encharcado,
quem sabe se pelo esforço
da grande travessia.

Por última mortalha,
metemo-lo num sobrescrito,
para continuar a viagem.

Amadeu Baptista

açougue, &etc, Lisboa, Junho de 2012

18.11.12

NENHUMA MÚSICA

«O gato olha-me
ou o meu olhar olhando-o?
E eu o que vejo senão
a mesma Única solidão?

Chamo-o pelo nome,
pela oposição.
Em vão:
sou eu quem responde.

Virou-se e saltou
para o parapeito
real e perfeito,
sem nome e sem corpo.
(Também eu estou,
como ele, morto).»

Manuel António Pina

POESIA REUNIDA (1974-2001), Assírio & Alvim, Lisboa, Novembro 2001

16.11.12

Ciclo

Abre o caruncho a rede, o labirinto
De escuras galerias que enfraquecem
A rijeza do cerne resinoso.

Toda a madeira passa nas mandíbulas
Dos insectos roazes, se converte
Em dejectos de pó, remastigados.

Tronco vivo que foi, agora morto,
Tornará o barrote à insondável
Matriz de que outra árvore se alimenta.

José Saramago

Os Poemas Possíveis, Editorial Caminho, Outubro de 1998

15.11.12

[Pode ser esta a hora]

Pode ser esta a hora
de um prodígio
ou de uma sombra funesta

António Ramos Rosa

Em torno do imponderável, Editora Licorne, Lisboa, Outubro de MMXII

13.11.12

11.11.12

NÃO ME MOSTRES NENHUM NORTE

Não me mostres nenhum norte
nem estradas para lá:
são tudo embustes.

Mostra-me antes pedras, folhas mortas
de Outono atapetando o chão das matas,
voos de libelinha rasando o sol poente,
cândidas risadas infantis.

Quero eu dizer: mostra-me coisas
daquelas que se corrompem sem pressa.

A. M. Pires Cabral

COBRA-D´ÁGUA, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, Outubro de 2011

2.11.12

Exorcismo

Destes
(Ou de outros como estes)
Que roubam, confiscam e saqueiam
Libera nos, Domine

Dos que fazem do mercado
Santo-e-senha
Da nossa salvação
Libera nos, Domine

Daqueles que receitam a pobreza
A miséria de milhões para que poucos
Ostentem o poder e a ganância
Libera nos, Domine

Dos prosélitos mais papistas que o papa
Mais ultra-liberais
Que os demais
Libera nos, Domine

Das portas trancadas dos palácios
Das torres de marfim onde se movem
Os feitores de tanta perdição
Libera nos, Domine

Dos que usam as pessoas como ratos
Ou cobaias de modelos
Sociais
Libera nos, Domine

Da cegueira de ouvido
Dos que mandam alheios
Aos clamores das multidões
Libera nos, Domine

Dos pastores que louvam
Os rebanhos que não tugem
Nem mugem
Libera nos, Domine

Do cutelo ou da corda
No pescoço curvado
Pelo medo
Libera nos, Domine

Do medo
De sem medo erguer a voz
E sacudir a cerviz
Libera nos, Domine

Domingos da Mota

31.10.12

Carlos Drummond de Andrade

RESÍDUO


De tudo ficou um pouco.
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos,
pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
- vazio - de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,

um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures,
na consoante?
no poço?

Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.

De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefactos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver... de aspirina.
De tudo ficou um pouco.

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória

Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vómito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espectáculos e sob a morte de escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.

Carlos Drummond de Andrade

60 Anos de Poesia, Antologia organizada e apresentada por Arnaldo Saraiva, Edições «O Jornal», Lisboa, Março 1985

26.10.12

Sozinho em casa, com a tarde a anoitecer
entram-me na ensonada, enfermiça audição
os desvairados sons da cidade -
sirenes diversas em tumultos distantes.

Sirenes diversas
confusas
vagas, no rodopio das suas aflições indefinidas,
a percorrer as distâncias, as chuvosas curvas abertas
das cinturas internas.

As curvas abertas, distantes,
da cidade que anoitece.

Daniel Maia-Pinto Rodrigues

A Casa da Meia Distância, Mariposa Azual, Lisboa, Janeiro 2010

21.10.12

OS TEMPOS NÃO

Os tempos não vão bons para nós, os mortos.
Fala-se demais nestes tempos (inclusivé   cala-se).
As palavras esmagam-se entre o silêncio
que as cerca e o silêncio que transportam.

É pelo hálito que te conheço   no entanto
o mesmo escultor modelou os teus ouvidos
e a minha voz, agora silenciosa porque nestes tempos
fala-se demais são tempos de poucas palavras.

Falo contigo demais assim me calo e porque
te pertence esta gramática assim te falta
e eis por que todos temos a perder e por que é
cada vez mais pesada a paz dos cemitérios.

Manuel António Pina

AINDA NÃO É O FIM NEM O PRINCÍPIO DO MUNDO CALMA É APENAS UM POUCO TARDE, A Erva Daninha, SCRL, 2.ª edição, Porto, 1982

19.10.12

Manuel António Pina [1943-2012]

Completas


A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.

E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em fundos sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.

Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.

Manuel António Pina

POESIA, SAUDADE DA PROSA uma antologia pessoal, Assírio & Alvim, Lisboa, 2011

14.10.12

[Que os rituais podem ser mortíferos, mesmo entre cristãos]

Que os rituais podem ser mortíferos, mesmo entre cristãos,
Eis o que nos mostra uma triste nova vinda da África do Sul.
Durante um baptismo num rio da Suazilândia,

Um jovem negro afogou-se. Ainda a oração
Do padre não tinha chegado ao fim, já a corrente o arrastava
Rio abaixo, por entre rochas pontiagudas. Os fiéis

Perderam-no de vista em segundos. A cabeça,
Como um melão, foi levada para o centro, afundando-se depois
Num turbilhão mais forte. Metade cristão,

Metade ainda pagão, desapareceu entre as duas margens,
Nas ondas turvas, até receber agonizante
O sacramento do crocodilo.

Durs Grünbein

Aos Queridos Mortos, Tradução e posfácio de Fernando Matos Oliveira, Angelus Novus, Coimbra, 2003

9.10.12

O tempo

O tempo perfura portas cerradas
biombos, tabiques e lapsos
um rangido de ferrugem velha
a mercadoria imaginária que tenhamos

insectos erram de planta em planta
um feto desdobra as grandes folhas
estranhamente espaçosas
nesta estação

A lua sobe no céu
lavado de fresco pelas últimas trovoadas

José Tolentino Mendonça

ESTAÇÃO CENTRAL, Assírio & Alvim, Lisboa, Setembro de 2012

7.10.12

IMITAÇÃO DE OVÍDIO

II


mas que memória
podemos ter
de nós?
e de qual tempo?

deste tempo exterior
em que
depois de criados
e decifrados
os consensuais alfabetos
da exploração
da vida
chegou o projecto Stardust
com material inalterado
desde o início
do sistema solar,
que não nos diz
se então já havia actos de amor
e portanto
não nos diz nada (?)

(...)

Alberto Pimenta

IMITAÇÃO DE OVÍDIO, & etc, 2006

5.10.12

ESTA GENTE

Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
Dum país liberto
Duma vida limpa
E dum tempo justo

Sophia de Mello Breyner

GRADES, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Novembro de 1970

2.10.12

Jorge Fazenda Lourenço

20020607 (a Eugénio de Andrade)


Deve ser o fim - os melhores
Fizeram-se já ao caminho,
Luminoso para eles, para nós,
Os vivos, obscuro, sem perdão.

Hoje, os únicos em festa
São o corvo e o abutre.

Levai-me, espíritos ligeiros,
Partir desejo, o canto
Suspenso é só do vento

Um sopro vão de luz
Um corpo em setembro
O cardo e a malvasia
Na cinza das nossas vozes.

Jorge Fazenda Lourenço

Cutucando a musa com verso longo e curto e outras coisas leves e pesadas, Relógio D'Água Editores, Lisboa, Novembro de 2009

30.9.12

OLHA O ANIMAL

nem sempre é fácil
olhar o animal
mesmo que ele te olhe
sem medo ou ódio
fá-lo tão fixamente
que parece desdenhar
o seu subtil segredo
parece ser melhor sentir
a evidência do mundo
que noite e dia ruidosamente
perfura e corrói
o silêncio da alma

Jean Follain

(trad. Jorge Sousa Braga)

ANIMAL ANIMAL um bestiário poético, organização Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim, Lisboa, Fevereiro de 2005

25.9.12

E NÓS DENTRO

À direita e à esquerda:
falésias, abismos, referver
de águas indisciplinadas.

Na estreita faixa do meio,
os carris são um pavor
perpendicular.

Ou melhor: são uma corda bamba
por onde avança, estouvado
saltimbanco de olhos vendados,
sem vara e sem cautelas,
o comboio e nós dentro.

A. M. Pires Cabral

QUE COMBOIO É ESTE, Edição Teatro de Vila Real, Dezembro de 2005

22.9.12

CINCO ALMAS TRIVIAIS

5

Eu sou
o mais boquiaberto
dos ministros.

Estas finanças
doem
como um calo.

Estas finanças
devem ser um galo
cantando o ouro
que urinam
as crianças.

Estas finanças
devem ser um falo
ubérrimo brasil
de esquálidas
donzelas.

Armando da Silva Carvalho

OS OVOS D'OIRO, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Setembro de 1969

21.9.12

19.9.12

PONTO DE HONRA

Não sou escrava
de lamento
nem tento ferida
de enfeite

nem uso a raiva
que tenho
como um alfange
no peito

Não talho o sangue
nas pedras

nem uso palavras
de ódio

e não quero anéis
de aceite
para enfeitar os meus olhos

Maria Teresa Horta

MINHA SENHORA DE MIM, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Abril de 1971

14.9.12

[Não crispes o desespero]

Não crispes o desespero
com os dedos,
nada crepite
à flor da pele.

És um burguês altivo,
dominador, seguro;
mantém o retrato
bem iluminado.

Guarda o que sentes
entre as costelas,
nem o hálito enrugue
o vinco das calças,
os álgidos rebuços.

Se tudo cai ao lado
reforça a couraça...
peneiradas as dúvidas
fragmenta-as na cinza.

Que ninguém pressinta
que os escombros são teus.

Egito Gonçalves

O FÓSFORO NA PALHA, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Abril de 1970

8.9.12

[pois pois existe um país]

pois pois existe um país
onde o olvido onde pesa o olvido
suavemente sobre as coisas sem nome
ali onde a cabeça cala onde a cabeça é muda
e não se sabe e não se sabe nada
o canto das bocas mortas morre
no areal a viagem cumprida
nada há que chorar

a minha solidão enfim conheço-a bem mal
mas tenho tempo é o que eu digo ainda tenho
                                                        [tempo
mas que tempo osso faminto o tempo do cão
do céu que fenece e não cessa a borrasca do
                                                               [céu
do raio que trepa mosqueado e tremente
do mícrones e dos anos trevas

querem que eu vá de A a B e eu não posso
não posso sair estou num país sem rastos
sim sim que rica coisa vocês têm aí que rica
                                                        [coisa
mas o que é não me façam mais perguntas
espiral de pó de instantes o que é o mesmo
a calma o amor o ódio a calma a calma

Samuel Beckett

POEMAS ESCOLHIDOS, Antologia organizada por Magnus Hedlund, tradução Jorge Rosa e Armando da Silva Carvalho, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Março de 1970

1.9.12

O RUMOR DA SÁTIRA

         Depois de ver, na televisão, uma
           entrevista com Eugénio de Andrade.


Coitados dos poetas premiados!
Dão-lhes um cheque só pra ver navios,
que não vão viajar depois de velhos,
nem 'screver odes, com flebite, anémicos.

Coitados dos poetas tão dispersos:
não cabem em si próprios nem nos prémios,
soprados e lambidos plos políticos
que citam nas arengas os seus versos.

Coitados, não! Talvez seja bem feito!
A vingança de Deus já não ilude;
e reservado está prémio maior

pra quem da discrição fez seu defeito
e, não contente, dedicou virtude
ao silêncio de Deus e seu sabor.

António Barahona

DEITAR A LÍNGUA DE FORA (Vários Autores), Língua Morta, Julho de 2012

26.8.12

aula

o teu corpo
é uma aula
de natureza.

ensina-me
a ouvir
a queda da chuva.

o voo das folhas

a canção
do outono
à flor
da pele.

Alberto Serra

morrer de vagar, Edição Temas Originais, Lda., Coimbra, 2012

23.8.12

AS CINZAS (CICLO PRIMEIRO)

1

Uma caverna de luz e de fogo branco,
a lava iluminada por cima das nuvens
de cinza. É ali que o pintor situa as suas
tintas, com as duas mãos pousadas num
balcão.

Três corvos seguem um caminho definido
pelas árvores roubando o alimento dos
pássaros pequenos.

De uma calçada sai um fumo azedo que se
dispersa pelos chapéus-de-sol. As oliveiras
estão paradas, sem vento, sem frutos.
Secam como um peixe_____________

Jaime Rocha

Telhados de Vidro, N.º 16 . Abril . 2012, Averno, Lisboa

18.8.12

A VOZ QUASE SILÊNCIO

vai-se perdendo a voz quase silêncio
um corpo agora oco       gasto       frio
a morte é uma cor que foi escolhida
para encontrar a direcção do vento

o homem que foi feto       que foi um peixe
que foi o ar    que foi o sangue e o gesto
atravessa o mar com círculos nos braços
possuído no seu próprio destino
na descoberta dos focos submarinos

ao nível das estrelas mais brilhantes
e no entanto desde há muito extintas
pode encontrar-se o grande amor final
pesar-se no seu som e qualidade

garganta de alcatrão fundente
vai-se perdendo a voz, quase silêncio

Manuel de Castro

EDOI LELIA DOURA antologia das vozes comunicantes da poesia moderna portuguesa, organizada por Herberto Helder, Assírio & Alvim, Lisboa, Janeiro de 1985

15.8.12

O OUTRO

Feridas mais fundas do que em mim
abriu em ti o silêncio,
estrelas maiores
enredam-te na rede dos seus olhares,
cinza mais branca
repousa sobre a palavra em que acreditaste.

Paul Celan

A Morte É Uma Flor, Poemas do Espólio, Tradução, posfácio e notas de João Barrento, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, 1998

14.8.12

POESIAS

2.


Eu ontem vi-te...
Andava a luz
Do teu olhar,
Que me seduz
A divagar
Em torno de mim.
E então pedi-te,
Não que me olhasses,
Mas que afastasses,
Um poucochinho,
Do meu caminho,
Um tal fulgor
De medo, amor,
Que me cegasse,
Me deslumbrasse,
Fulgor assim.

Ângelo de Lima

POESIAS COMPLETAS, organização, prefácio e notas de Fernando Guimarães, Assírio & Alvim, Lisboa, 2.ª Edição, Maio de 2003

12.8.12

sumário

O poema ensina a estar de pé.
Fincado no chão, na rua, o verso
não voa, não paira, não levita.

Mão que escreve não sonha
(em verdade, mal pode dormir à luz
das coisas de que se ocupa).

Eucanaã Ferraz

Cinemateca, Quasi Edições, Fevereiro de 2009

11.8.12

FACHADAS

I

Ao longe, no caminho, avisto o Poder.
Tal qual uma cebola,
os malabarismos do seu rosto
a caírem um após outro.


II

Os teatros  esvaziaram-se. É meia-noite.
Letras de anúncios chamejam nas frontarias.
O mistério das cartas sem resposta
escorre ao longo das frias lentejoilas.

Tomas Tranströmer

50 Poemas, Tradução de Alexandre Pastor, Relógio D'Água Editores, Lisboa, julho de 2012

5.8.12

O ÚLTIMO POEMA

Assim eu quereria o meu último poema

Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos in-
                                                                        [tencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais
                                                                            [límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

Manuel Bandeira

ESTRELA DA VIDA INTEIRA (poesias reunidas e poemas traduzidos), 19.ª edição, José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1991

30.7.12

O Sol Negro

Esse ontem como se hoje na memória,
a cela da prisão tão presa à vida,
e o nó cego da esperança quando a história
calçava uma bota desmedida,

quando o tempo feroz da ditadura
denegria o sol e o sol negro
espalhava uma luz cuja negrura
se afundava e perdia nesse pego,

esse ontem como se hoje não morreu,
ronda a esquina dos dias qual secreta
e pode desabar do próprio céu
se o passo perde o pé, não fica alerta:

(se há mesmo assassinos, tantos, tantos
que são feitos beatos e até santos).

Domingos da Mota

a partir das leituras: do poema "hoje há 28 anos fui preso", de Júlio Saraiva, e da crónica de Manuel António Pina, "Fila à porta do Paraíso", no Jornal de Notícias de 29. 10. 2008

28.7.12

[Assim será. Ninguém]

Assim será. Ninguém
virá depois
recolher os ecos, acordar
os sons da flauta
estrangulada. As portas
estarão fechadas mesmo
para o silêncio.

Albano Martins

Di Versos - Poesia e Tradução / n.º 17 - julho de 2012 [de miniantologia realizada por José Carlos Marques com base em As Escarpas dos Dias. Poesia 1950-2010 (Porto, Edições Afrontamento, Maio de 2010), in Cadernos de Argolas, 2000-2010]

22.7.12

SONETO DA CURVA DO TEMPO

                         - Ao Domingos da Mota


eu tenho rios tristes na memória
e venho cego de outra antiguidade
não sei amigo se ontem tive história
dentro do bojo da minha cidade


dormi na rua junto co'a escória
e deixei meu eu todo só na saudade
"Era uma vez a a Rainha Vitória..."
num copo sujo bebi tempestade


se me vem o verso todo iluminado
é porque tropecei num clarão qualquer
da lua cheia já fui namorado


mas hoje me passo para o que bem me houver
só sou passado deste meu passado
que me venha o hoje como deus quiser


Júlio Saraiva


Com os meus agradecimentos, e a devida autorização do Poeta, colhido no seu Mural do Facebook.
Mais poemas do autor, no blogue Currupião.

21.7.12

ARANHAS

Retomam nesta casa o solitário
trabalho de mil séculos

Ei-las de novo aqui   No seu mistério
cresce o frio silêncio
das vozes de outro tempo   Aprisionam
na surdina da noite essa memória
de outros aniversários
em corpos como o teu   Se reparares
serás apenas isso
insecto tão incerto como um espectro
um dia vivo mas outrora agora
envolto num sudário
perdido no seu canto   Desde sempre
as aranhas
tecem o seu império
esquecido labirinto onde procuram
o centro do universo

Fernando Pinto do Amaral

PALIATIVOS, Língua Morta, Maio de 2012

18.7.12

CONDIÇÃO

Nada é abençoado. Permanecemos
sobre a terra sem ter para onde ir,
mesmo quando julgamos ser o excêntrico
centro cego do mundo. Encurralados,
olhando em volta, ficam desertos os olhos,
e nada nos pertence. Este é o tempo
medido com o sangue e o seu pulsar finito.

Nuno Dempster

ELEGIAS DE CRONOS, Edições Artefacto, Lisboa, Junho de 2012

7.7.12

PRELÚDIO

Ressoam nas colinas do silêncio
as palavras paradas, por dizer:
sustidas, refreadas, frias, tensas
apetece libertá-las, a saber,
avivar a língua, silabá-las,
atear-lhes a voz, pô-las a arder,
despertar-lhes os sentidos - e afagá-las
comprazidas num corpo de mulher.

Apetece acolher, pegar em duas
ou três das palavras soltas, nuas
e com elas longamente conversar,
e manter a mais rouca, mais bravia
- prelúdio matinal da rebeldia -
sobre as dunas do tempo a galopar.

Domingos da Mota

publicado inicialmente com o título de Arte Poética, e algumas variações, na revista Palavra em Mutação, N.º 0, Novembro 2001/Abril 2002; e posteriormente em Bolsa de Valores e Outros Poemas, Edição Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010