28/12/2011

BOLETIM METEREOLÓGICO

Céu muito nublado  vento
fraco moderado de sudoeste

soprando forte nas terras
altas  aguaceiros em especial

nas regiões do Norte e Centro
e que serão de neve nos

pontos mais altos da Serra
da Estrela  e no teu coração.

Jorge Sousa Braga

PORTO DE ABRIGO, Assírio & Alvim, Lisboa, Novembro 2005

23/12/2011

[Natal é uma voz circular]

Natal é uma voz circular
calor de um ovo na palha dos ninhos
e música de flautas habitando
a solidão dos caminhos

1979

Luís Veiga Leitão

POESIA COMPLETA, Organização de Luís Adriano Carlos e Paula Monteiro, Apresentação crítica de Luís Adriano Carlos, Edições Asa, Porto, Setembro de 2005

22/12/2011

VEDORES

Sente:

como se a sombra fosse o próprio espaço
ou os musgos não quisessem dizer nada

Prepara um salto
sem gravidade
leve
desmedido para poderes fingir que nem quiseste

Abandona toda a confiança
no limite da luz
como se não houvesse mais que músculos e
intensidades

Fixa os sulcos sem tempo,
uma outra vida
na água que as pedras sempre ocultam!

Janeiro 2008

Dália Dias

MAIS A NORTE / PRUMOS, Edição Fava, Dezembro, 2011

19/12/2011

SONETO DE PASSAGEM

Das águas corredias da memória
emergem os liames da incerteza:
retêm lendas, mitos e a história
das crenças, das ideais e a beleza

das artes, dos ofícios, da cultura,
e de terras fecundas e até sáfaras
que foram ou serão a sepultura
de quem partiu do fio das diásporas.

É veloz o decurso desta vida:
um dia após o outro e, de repente,
já fomos, e o que sobra à despedida
oxalá fosse pasto de semente:

de novo sentiríamos o sol,
quem sabe se flor, se rouxinol.

Domingos da Mota

(publicado também aqui).

15/12/2011

Prosa para 2011

Malgrado  o caminho que se abeira
do abismo fatal, sob a ameaça
do poder, da cobiça, da cegueira --
da avareza sem freio que perpassa;

da perfídia das leis e dos decretos,
dos cortes desmedidos e perversos,
da penúria, da fome, dos apertos,
e do mais que não cabe nestes versos;

malgrado atingir essa fronteira
que acelera o presente, sem retorno:
(quem derrape na curva mais rasteira,
bem que pode ficar ao abandono);

apesar do negrume que ora sinto,
bem-vindos sejam os meus sessenta e cinco.

Domingos da Mota

11/12/2011

MINIBIOGRAFIA

Não me quero com o tempo nem com a moda
Olho como um deus para tudo de alto
Mas zás! do motor corpo o mau ressalto
Me faz a todo o passo errar a coda.

Porque envelheço, adoeço, esqueço
Quanto a vida é gesto e amor é foda;
Diferente me concebo e só do avesso
O formato mulher se me acomoda.

E se a nave vier do fundo espaço
Cedo raptar-me, assassinar-me, cedo:
Logo me leve, subirei sem medo
À cena do mais árduo e do mais escasso.

Um poema deixo, ao retardador:
Meia palavra a bom entendedor.

Luiza Neto Jorge

A LUME, Texto fixado e anotado por Manuel João Gomes, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio de 1989

05/12/2011

ELEGIA PARA O GATO MORTO

Com os olhos pregados no infinito,
no mais fundo de si, já revirados
e os bigodes suspensos pelo grito
que alvoroça as pombas nos telhados

e o céu da boca, se aflito,
mesmo à beira do fim, agoniado,
e o pêlo sedoso tão esquisito,
de súbito a ficar amarrotado,

na procura apressada de outra vida
renascida das sete que viveu,
que não vê, não encontra, pois perdida
como alma penada lá no céu

dos gatos: foi assim, quase descrente,
que vi o gato morto, de repente.

Domingos da Mota

04/12/2011

QUOTIDIANO

Morre todas as noites uma águia
que só de minha vida se alimenta

Que mistura de cânhamo e de carne
no seu rosto de carne me desvenda

Morre todas as noites no momento
em que volta a nascer de madrugada

E para lhe fugir ainda é cedo
E para celebrá-la já é tarde

David Mourão-Ferreira

LIRA DE BOLSO, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Novembro de 1969

01/12/2011

HERZOG

                                                Sofrer é outro mau hábito.
              (palavras de Ramona em Herzog, de Saul Bellow)


A minha desforra são palavras.
Levanto-me de manhã amarrotado
pelo peso inclemente das mentiras
e vazo no real outro real
das letras que ninguém vislumbrará.
O pássaro que canta é uma palavra,
é uma carta escrita a este, àquele,
que me saiu do lápis da amargura;
tudo se refaria se jamais feita fosse
alguma coisa que a minha mão não desse.
Desforro-me sem gosto. Desforro-me sem gasto,
acorrentado ao que me vem de trás
e ao que virá e que não sei se quero.

Pedro Tamen

Analogia e Dedos, Oceanos, Asa Editores, Outubro de 2006

30/11/2011

A MORTE VAI LEVANDO OS MEUS AMIGOS

A morte vai levando os meus amigos
e, com eles, também eu vou morrendo;
já cada vez me sinto menos sendo
     gramática de vivos.

António Barahona

RASPAR O FUNDO DA GAVETA E ENFUNAR UMA GÁVEA, Averno, Lisboa, Setembro de 2011

26/11/2011

BIPOLAR

I

Juxta crucem, garganteando
altíssimo um flamenco atrevido
-- eis como gosto às vezes de estar.

Outras vezes, contudo, baixo a voz
como um cão amedrontado refugia
por precaução a cauda entre as pernas,
seu modo de agitar uma bandeira branca
-- e não murmuro senão sílabas contritas.

Branco e negro alternados,
honestos por igual.

II

Quem entende isto? Bastará dizer como diria
o meu amigo psiquiatra americano
(se acaso eu tivesse um):
sorry, pá, bipolar, nada a fazer --

-- e com desplante lavar daí as mãos
como um Pilatos de segunda escolha?

Não sei que responder a isto. Sei é que
vou ficando cansado de ter
no meu próprio interior uma arena onde sem brio
nem progresso visível para qualquer dos lados
nos defrontamos eu e o meu touro,
perpetuamente empatados -- muito embora
eu tenha a meu favor o factor casa.

A. M. Pires Cabral

COBRA-D'ÁGUA, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, Outubro de 2011

25/11/2011

Os livros

É então isto um livro,
este, como dizer?, murmúrio,
este rosto virado para dentro de
alguma coisa escura que ainda não existe
que, se uma mão subitamente
inocente a toca,
se abre desamparadamente
como uma boca
falando com a nossa voz?
É isto um livro,
esta espécie de coração (o nosso coração)
dizendo 'eu' entre nós e nós?

Manuel António Pina

COMO SE DESENHA UMA CASA, Assírio & Alvim, Lisboa, Outubro 2011

23/11/2011

[abrupto termo dito último pesado poema do mundo]

abrupto termo dito último pesado poema do mundo

Herberto Helder

A FACA NÃO CORTA O FOGO súmula & inédita, Assírio & Alvim, Setembro de 2008

19/11/2011

MUROS

Vivemos a dois
passos, tão distantes, com
muros de silêncio

de permeio.
Os muros altos, farpados,
arrogantes.

Domingos da Mota

18/11/2011

As cadeiras

                                                   pousou uma mosca aqui

À aula de
quarta-feira assistiram 13 alunos e
27 cadeiras. Em resumo: a sala cheia.
Quando a
lição terminou os 13 alunos partiram e
acto contínuo contei 20 casais de cadeiras.
Às aulas que tenho dado nunca faltam
as cadeiras
ficam a ouvir-me caladas
(as costas muito direitas).
É bom ver que as cadeiras entendem
tudo à primeira
parecem bem mais maduras (mais
pés 
assentes na terra).

João Luís Barreto Guimarães

Poesia Reunida, Posfácio de José Ricardo Nunes, Quetzal Editores, Lisboa, Outubro de 2011

15/11/2011

Anamnese

Mais que fazer
se desfazem

os anos que
por mim passam

Nem sei se levam
se trazem

o que depois
desenlaçam

Domingos da Mota

13/11/2011

PAISAGEM

A névoa que desde manhã fechava
as portas todas ao rio foi-se embora.
A luz é fria: esta é agora
a minha terra, o outono.
Todas as terras são afinal as mesmas
folhas cobrindo a relva, às vezes
cintilando quando o sol rasga a névoa.

Eugénio de Andrade

PEQUENO FORMATO, Fundação Eugénio de Andrade, Fevereiro de 1977

10/11/2011

SOU UMA CRIATURA

Como esta pedra
de São Miguel
assim fria
assim dura
assim enxuta
assim refractária
assim totalmente
desanimada

Como esta pedra
é o meu pranto
que se não vê

A morte
desconta-se
vivendo

Giuseppe Ungaretti

SENTIMENTO DO TEMPO, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Fevereiro de 1971

05/11/2011

INSETO

Um inseto é mais complexo que um poema
Não tem autor
Move-o uma obscura energia
Um inseto é mais complexo que uma hidrelétrica

Também mais complexo
                        que uma hidrelétrica
é um poema
(menos complexo que um inseto)

e pode às vezes
                        (o poema)
com sua energia
iluminar a avenida
               ou quem sabe
                                     uma vida

Ferreira Gullar

Em alguma parte alguma, Edição Babel, Lisboa, Outubro de 2010

02/11/2011

[O rio corre]

1.


O rio corre
da fonte seca
como se rio
de fonte morta
chegasse ao mar
quebrada a ponte
das águas turvas
na torva treva
que o ramo quebra
onde pousassem
aves que houvesse
se ali cantassem
vindas do monte
que o rio leva
de engano em dano
por terra seca
ao mar sem praias
que corre e morre
sem vale ou serra
do mar à fonte

Helder Macedo

COLAGENS (2010-11), in POEMAS NOVOS E VELHOS, Editorial Presença, Lisboa, Setembro, 2011

31/10/2011

QUADRILHA

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim qua amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Carlos Drummond de Andrade

60 Anos de Poesia, Antologia organizada e introduzida por Arnaldo Saraiva, Edições «O Jornal», Publicações Projornal, Ld.ª, Lisboa, Março de 1985

30/10/2011

[Por que me abandonam]

Porque me abandonam
os dias idos em que foi
largo o horizonte e hoje,
rasos, vagos, fendidos?

Um balouçar me mantém
à vida presa, a ninguém
eu que tive de antemão
tudo aqui

quase não existo. Serei rio
em leito imaginário ou deserto
em tudo único e vário?

Em verdade vos digo, a voz
um fio. Se neste dizer existo
ainda me sobra vida. Insisto.

Helga Moreira

TUMULTO, & etc, 2003

22/10/2011

Cartão de resistência

Nos últimos dias do ano houve
que ir renovar o
cartão de identidade. Quer a lei que seja assim
de quando em tanto devemos ir
ao registo dizer que continuamos na mesma
(filhos dos mesmos pais
e país). Os
filhos das mães de Março são
filhos do mês de Junho mas
por alguma espúria ética querem ter
mesmo a certeza de que seguimos aqui
dando a cara pela república
apondo o
dedo na ferida.

João Luís Barreto Guimarães

LUZ ÚLTIMA, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, 2006

19/10/2011

[Pedro e Inês foram vistos na cidade]

Pedro e Inês foram vistos na cidade,
entre autocarros, à hora de ponta.
Estavam num hotel, dizia a rádio.
Imaginei Inês, a luz do corpo
a cintilar na sombra, o outeiro hirsuto
que se erguia das coxas em repouso,
e o sangue, arrefecendo, a descer lento
o delta do seu rio interior.
Porém, disseram que iam a fugir,
deixando para trás a cama e o hotel.
Claro que Afonso IV os procurava,
depois de ter entrado, triunfante,
na cidade onde os bufos denunciam
amantes perigosos para o mundo.

Nuno Dempster

PEDRO E INÊS: DOLCE STIL NUOVO, Edições Sempre-em-Pé, Setembro 2011

17/10/2011

O MOMENTO DE

Talvez seja o momento de.
Mesmo sem esperança. E ele escreve:
nenhum impulso para ti
neste espaço deserto.

Ele perscruta entre as pedras e as sombras.
Nada vê. Ignora. Olha.
Que traços são estes,
qual a origem destas palavras nulas?

Ele escreve. O seu desejo é o desejo
de tornar habitável o deserto.

António Ramos Rosa

A MÃO DE ÁGUA E A MÃO DE FOGO, Antologia Poética, Selecção e Organização de António Ramos Rosa, Posfácio de Maria Irene Ramalho Sousa Santos, «Fora de Texto» Cooperativa Editorial de Coimbra, CRL, Outubro/87

16/10/2011

A luz

Devagarosa a luz,
a luz, tão negra, vacila, cai
de bruços derreada:

arrefece o olhar,
rasura, cega; e pára, brusca-
mente / ao rés do nada.

Domingos da Mota

10/10/2011

[Não sai de mim afinal]

43.


Não sai de mim afinal
outra coisa além do jeito
com que modelo e aceito
o que resulta do sal

com que tempero a natura
que em minha mão se acoitou.
Ela me faz o que sou
e ao fazer-me a faço impura.

Deste bico do sapato
bebo eu a vida inteira:
aqui fechado reato

caminhos de que ribeira,
montes e flores onde exacto
encontro a minha maneira.

Pedro Tamen

O livro do sapateiro, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Março de 2010

08/10/2011

DIÓSPIROS

Há frutos que é preciso
acariciar
com os dedos com
a língua

e só depois
muito depois

se deixam morder

Jorge Sousa Braga

O POETA NU [poesia reunida], Assírio & Alvim, Lisboa, Junho de 2007

07/10/2011

ALMAS

Sempre admirei dos bichos
a magnífica destreza. Mesmo sem
alma, filosofia ou pátria,
defendem os limites
da pele e dos ameaçados territórios
onde se ocultam, no auge vital dos parcos anos.

Sempre admirei o desinteresse
soberano com que as fêmeas assistem
às competições masculinas e como
se mantêm independentes
e mestras na arte da caça
e sustento das crias, sem pensão
de alimentos ou outras demandas.

A sua maior tragédia
é serem tantas vezes criados
para serviço e digestão de bípedes
com alma, pátria e filosofia.

Inês Lourenço

COISAS QUE NUNCA, & etc, Lisboa, Julho de 2010

04/10/2011

O TEMPO CONCRETO

O tempo duro
com estas unhas de pedra
este hálito podre
de órgãos esfomeados
estas quatro paredes de cinza e álcool
este rio negro correndo nas noites como um
                                                    [esgoto
O tempo magro
em que minhas mãos divididas
nitidamente separadas e caídas
ao longo dum corpo de cansaço
pedem o precipício a hecatombe clara
o acontecimento decisivo

O tempo fecundo
dos sonhos embrulhados repetidos como um hálito
                                                            [de febres
repassadas  no  travesseiro  igual  das noites  e dos
                                                                    [dias
das ruas agrestes e pequenas da mágoa
familiar e precisa como uma esmola certa

O tempo escuro
da peste consentida do vício proclamado
da sede amarfanhada pelas mãos dos amigos
da fome concreta dum sonho proibido
e do sabor amargo dum remorso invisível

O tempo ausente
dos olhos dum desejo de claras cidades
em que acenamos perdidos às soluções erguidas
com vozes bem distintas de cadáveres opressores
com gritos sufocados de problemas supostos

O tempo presente
das circunstâncias ferozes que erguem muros
                                                           [reais
dos fantasmas de carne que nos apertam as mãos
das anedotas contadas num outro mundo de cafés
e das vidas dos outros sempre fracassadas

O tempo dos sonhos
sem coragem para poder vivê-los
com muralhas de mortos que não querem  morrer
com razões de mais para poder viver
com uma força tão grande que temos de abafar
no fragor dos versos disfarçados

O tempo implacável
em que jurámos de pé viver até ao fim
maiores dos que nós ser todo o grito nu
pureza conquistada no seio da vida impura
um raio de sol de sangue na face devastada

O tempo das palavras
numa circulação sombria como um poço
de ecos incontrolados
de timbres inesperados
como moedas de sangue cunhadas numa noite
demasiado curta e com luar demais

O tempo impessoal
em que fingimos ter um destino qualquer
para que nos conheçam os amigos forçados
para que nós próprios nos sintamos humanos
e estes fardo de trevas esta dor sem limites
a possamos levar numa mala portátil

O tempo do silêncio
em que o riso postiço dos fregueses da vida
finge ignorá-lo enquanto soluçamos
de raiva de razão reprimida revolta
e os senhores do bom senso passeiam divertidos

O tempo da razão
(e não da fantasia)
em que os versos são soldados comprimidos
que guardam as armas dentro do coração
que rasgam os seus pulsos para fazer do sangue
a tinta de escrever duma nova canção

António Ramos Rosa

O GRITO CLARO, Colecção "A Palavra", n.º 1, Faro - 1958

03/10/2011

ENSAIO SOBRE O ESQUECIMENTO

O tempo tudo apaga e a rasura
desaba repentina sobre os olhos:
os dedos da memória sem espessura
começam a safar como se escolhos

os poemas que atirei pela janela
numa garrafa cheia de vazio
(não sei se para os bolsos de uma estrela
se para o leito seco de algum rio)

Eis como sinto a sílabas que outrora
circulavam no sangue das palavras,
a súbitas perdidas, pois agora
almejam ser apenas anuladas:

esquecidas que foram para alguém
o corpo dos poemas de ninguém

Domingos da Mota

Bolsa de Valores e Outros Poemas, Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010