31.12.15

Anamnese

Mais que fazer
se desfazem


os anos que
por mim passam


Nem sei se levam
se trazem


o que depois
desenlaçam


Domingos da Mota



30.12.15

Contas caladas

Façamos de conta
que as contas estão certas,
as contas caladas,
ocultas, secretas,

à sombra das leis
de usura e rapina
e sem decibéis
ainda por cima.

Domingos da Mota

[inédito]

29.12.15

Favas contadas

Não serão favas contadas
as contas deste rosário,
mas serão bem descontadas
nas estações do calvário,
com o peso do madeiro,
com o cinto, furo a furo
(e as pazadas do coveiro
depois do tiro no escuro).

Domingos da Mota

[inédito]

28.12.15

[Especulam, fazem contas]

Especulam, fazem contas
de somar, subtrair
e também multiplicar,
quando o fim é dividir.

Sobre os lucros que vão tendo,
são avisados, precisos:
Acumulam dividendos.
Só dividem prejuízos.

Domingos da Mota

[inédito]

27.12.15

E contudo

Quando as coisas por aqui
são como são e, afinal,
somando tudo o que vi,
o que muda de sinal
deixa a pedra no sapato,
o sorriso carrancudo,
o revólver estupefacto
com mais do mesmo, e contudo.

Domingos da Mota

[inédito]

26.12.15

MARTHIYA DE ABDEL HAMID SEGUNDO ALBERTO PIMENTA

26.


Vivemos
Na nossa própria terra
Como
Num campo de refugiados.

Todos perguntam:
Que estou eu a ver?

Ninguém tinha imaginado
Que a vida
Pudesse ser uma chaga
De aspecto incurável.

É provisório,
Dizem-nos,
Pois tencionam
Encaminhar-nos depois
Para outro campo
Que estão a tentar
Estabelecer:
Cercado a toda a volta
Das suas liberdades.

Alberto Pimenta

MARTHIYA DE ABDEL HAMID SEGUNDO ALBERTO PIMENTA, &etc, 2005

24.12.15

[Natal é uma voz circular]

Natal é uma voz circular
calor de um ovo na palha dos ninhos
e música de flautas habitando
a solidão dos caminhos

1979

Luís Veiga Leitão

POESIA COMPLETA, Organização de Luís Adriano Carlos e Paula Monteiro, Apresentação crítica de Luís Adriano Carlos, Edições ASA, Porto, Setembro de 2005

23.12.15

Pesadelo

Abater-se um pesadelo
quando se sonha acordado,
entrar no sonho e revê-lo 
assim mesmo, inacabado,

como um filme de terror
que denega o seu autor.

Domingos da Mota

[inédito]

18.12.15

Soneto de Natal

Dissesse do Natal o muito que
se olha sem se ver, aquando e onde
o outro é transparente, como se
fosse um corpo invisível que se esconde,

alheio à roda-viva de quem estuga
o passo pra atingir o desejado
prazer de abraçar a própria fuga,
desprezando os caídos a seu lado;

dissesse do Natal o que é banido,
varrido pra debaixo do tapete,
o muito que apesar de escondido,
não deixa de pungir, como um ferrete,

como são e serão os sem-abrigo,
com a sopa dos pobres, por presigo.

Domingos da Mota

[inédito]

15.12.15

Prosa para 2015

Glaucoma, cataratas, miopia,
astigmatismo e tanta coisa vesga
que turvam a visão de quem porfia,
mas não mete o Rossio na Betesga;

apesar dos bicos de papagaio
que palram numa surda disfonia
e atormentam as costas, de soslaio,
e assanham a mordaz cervicalgia;

apesar da useira displicência
que ameaça entupir as coronárias
e da falta total de paciência
para aturar desfeitas ordinárias;

apesar do que dói, mas não demove,
bem-vindos sejam os meus sessenta e nove

Domingos da Mota

[inédito]

10.12.15

AGUARELA

Risco a lousa com o giz
(ponho de lado o cinzel)
e desenho por um triz
a raiz deste papel

que foi árvore frondosa,
talvez até castanheiro,
com ouriços como rosas
cheias de cor e de cheiro

E pego então no papel,
mais branco do que brancura,
e pinto em tons de pastel
a tua imensa ternura:

vê a luz, a sombra, o sema
de uma aguarela sem tema

Domingos da Mota

Bolsa de Valores e Outros Poemas, Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010

7.12.15

AUTO-RETRATO

Poeta   é certo   mas de cetineta
fulgurante de mais para alguns olhos
bom artesão na arte da proveta
narciso de lombardas e repolhos.

Cozido à portuguesa   mais as carnes
suculentas da auto-importância
com toicinho e talento   ambas partes
do meu caldo entornado na infância.

Nos olhos   uma folha de hortelã
que é verde como a esperança que amanhã
amanheça de vez a desventura.

Poeta de combate   disparate
palavrão de machão no escaparate
porém morrendo aos poucos de ternura.

José Carlos Ary dos Santos

OBRA POÉTICA, edições Avante! (5.ª edição), Lisboa, Julho de 1994

6.12.15

NADA DIREI

Nada direi do crocodilo.
É um bicho tímido, reservado, a quem a realidade magoa os dentes.

José Alberto Oliveira

ANIMAL ANIMAL um bestiário poético, organização Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim, Lisboa, Fevereiro 2005

5.12.15

DEZEMBRO

Tão baixo, possível. familiar,
o luar é apenas sujeira no céu.
Ainda mais abaixo, há grilos, mosquitos,
morcegos, a água barrenta
de um riacho, a doçura
dos frutos rachados pelos vermes
e também a aspereza
em rostos que o tempo tratou
como pedra que nunca foi movida.
Não fui uma ave migradora
e há rios que deixam de fluir
sem encontrar algo maior.

Daniel Francoy

CALENDÁRIO, Artefacto, Lisboa, Agosto de 2015

1.12.15

Epitáfio

Ainda que a visão se não abrume
lá chegarás pois atingida a meta
a passagem dará para o negrume
negrume abrupto   essa luz secreta

que sendo luz abarcará as trevas
podendo transformar-se em fogo ou gelo
num punhado de cinzas sobre as ervas
ou no fio mortiço dum cabelo

apagamento   dispersão dos ossos
o corpo decomposto   a terra chã
anónimos os restos   os destroços
perdido para sempre o amanhã

o pó terroso   quase nada   aí
apenas antes ou depois de ti.

Domingos da Mota

[inédito]

27.11.15

Olharapos

    No meio do caminho tinha uma pedra

     Carlos Drummond de Andrade


Terás pedras no caminho
e fósseis e pedregulhos;
e se for algum vizinho
a provocar os engulhos,
com um sorriso mansinho,
daqueles sorrisos cínicos
que tornam o ar daninho,
apesar de querubínicos,
as pedras podem ser punhos,
os punhos línguas-de-trapos
e as línguas testemunhos
enganosos, olharapos
que destilam os venenos
da intriga, pelo menos.

Domingos da Mota

[inédito]

26.11.15

Os ecos

As palavras contendiam
com a líquida aparência;
de tão ácidas ferviam,
sendo tal a incontinência
que as muitas que se ouviam
como pedras, como punhos,
afrontavam e feriam
os inversos testemunhos.
Eram palavras pesadas,
quase sólidas, espessas,
friamente disparadas,
expelidas às avessas
por quem ainda se torce
ouvindo os ecos da posse.

Domingos da Mota

[inédito]

21.11.15

Assobio em dó menor

     Há muito poucos verdadeiros poetas.

     Juan Goytisolo



Versejador me confesso
(com vontade de o não ser):
ser poeta não mereço
pois o poeta que houver

tem o cuidado e o dom
de deixar a sua marca
entre o sentido e o som
por muito que seja parca

a obra que permaneça
inovando: um regato
da margem esquerda do rio

sempre que o rio amanheça
e anoiteça de facto
o autor do assobio.

Domingos da Mota

[inédito]

18.11.15

Os dados

Neste jogo de cara ou coroa
lanço os dados da sorte com a mão esquerda

Se aposto num cavalo de sela
de súbito afocinha e cai por terra

(Ou o baralho de cartas não tem ases
ou o gatilho do revólver não dispara)

Domingos da Mota

[revisto]

15.11.15

Arte menor

O amor é onde
quem o sente e quando
o sentir responde
ao que está buscando

se durante a busca
o que acha é tanto
que a visão ofusca
e cega porquanto

o amor não vê:
tem olhos nos dedos
e gosto no tacto

quando cheira e crê
ouvir os segredos
ocultos de facto

Domingos da Mota

[inédito]

6.11.15

PRANTO PELO DIA DE HOJE

Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas

Sophia de Mello Breyner

GRADES, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Novembro de 1970

5.11.15

Centro de acolhimento

As chaves tanto abrem
como fecham muitas portas

Uma velha de castigo

deitada à porta do abrigo
dormiu na rua - está morta

Domingos da Mota

[revisto]

4.11.15

A Balada de Narayama

     (Narayama-Bushiko, Shohei Imamura, 1983)


O tempo urge. E a montanha além
já te vê com os olhos pedregosos;
se a quiseres subir, não tens ninguém
que te ponha no cimo. Sinuosos
são os trilhos perversos que ameaçam
do sopé da montanha até ao cume;
e os sinais abundantes espicaçam,
quando mostram, além do azedume,
as mãos interesseiras que simulam
a manta mal dobrada atrás das costas,
enquanto, entre dentes, especulam
sobre o ónus da vida com que arrostas
e que aponta aos que atingem os setenta
o pico da montanha pardacenta.

Domingos da Mota

[inédito]

2.11.15

VELHO FRAGMENTO, ENCONTRADO E COMPLETADO - CONSELHOS À JUVENTUDE

Se, quando consentires,
consentes por metade,
não tomes por virtude
a náusea que te invade.

Toma-a pelo que é:
desejo revoltado
por ser teu, sem que sejas
teu próprio corpo violado.

1954.

Jorge de Sena

PEREGRINATIO AD LOCA INFECTA 70 POEMAS E UM EPÍLOGO, Portugália Editora, Lisboa, Setembro de 1969

1.11.15

Soneto familiar

    Minhas duas irmãs éramos três,
     minha mãe e meu pai éramos cinco.

     Armando Pinheiro


Os meus catorze irmãos éramos quinze,
dezassete juntando a mãe e o pai.
Haverá quem aprove e quem ranzinze
e torça o nariz e até vaie

e vitupere a prole numerosa
e à medida que o tempo for passando
nem repare na via dolorosa
dos idos ao que vai continuando.

Meu pai e minha mãe já nos deixaram;
dos irmãos que me restam, conto cinco
e todos, a seu modo, porfiaram
e persistem ligados pelo vínculo

que alarga ou aperta - ajusta os laços
consoante a premência dos seus passos.

Domingos da Mota

[inédito]

26.10.15

Cogitação profunda do Sr. S. sobre o estado-a-que-isto-chegou

Aturo a democracia
dos que votam em quem voto.
Quanto aos outros, com a azia,
sinto náuseas se noto
uma tendência, diria,
com laivos que não tolero,
que ameace as conezias
dos parceiros que venero.
Como se pode aceitar
que alguns, fora do arco,
tentem sequer abonar,
conceder, mesmo que parco,
um apoio a quem não vota
como eu? E não sou déspota.

Domingos da Mota

[inédito]

25.10.15

Isso

Quase nada é isso,
coisa pouca sendo,
se houver um estrupício,
que arrisque, torcendo,
distorcer a ordem
natural das coisas,
julgando que pode
obstar que ouses.
Coisa pouca, não,
pois se tal pudesse,
valeria então
o que lhe aprouvesse,
por denegação
ou como entendesse.

Domingos da Mota

[inédito]

24.10.15

O sibilo

Oh, se mói! E como lavra
o sibilo enraivecido;
como agudiza e agrava
a dureza do ouvido
quando arreganha a ameaça
que desafia os limites
do poder, que ultrapassa,
com delongas e palpites
sobre como, quem e quando
pode fazer alianças
que define, sublinhando
rejeitar outras andanças,
pois assevera e atesta
ser a mudança indigesta.

Domingos da Mota

[inédito]

19.10.15

OUTRAS COISAS

Outras coisas   no entanto
o amor e o desamor e também a
morte que nas coisas morre subitamente
o  lugar  onde  vais  de súbito

De súbito faltas-me debaixo dos pés
e noutros lugares   De ti é possível dizer
que te ausentaste para parte incerta
deixando tudo no teu lugar

Está tudo na mesma   Também a mim
tempo não me falta lugar sim
Onde cairás morta, flor da infância?
De súbito faltam-me as palavras

Manuel António Pina

AINDA NÃO É O FIM NEM O PRINCÍPIO DO MUNDO CALMA É APENAS UM POUCO TARDE, a erva daninha, Porto, 1982 (2.ª edição)

18.10.15

A cegueira

    A cegueira que cega cerrando os olhos, não é a maior cegueira;
     a que cega deixando os olhos abertos, essa é a mais cega de todas:
     e tal era a dos Escribas e Fariseus.

     Padre António Vieira



A cegueira que te cega,
com os olhos bem abertos,
é a pior, pois denega
a visão dos desconcertos

que atrai sempre que molda,
manipula, tece, ofusca,
dissimula, encobre, tolda
o objecto que busca

e não olha como tal
ou se vê, nem liga peva,
numa distracção total
da ameaça que carrega,

por muito que os demais
vejam coisas desiguais.

Domingos da Mota

[inédito]

15.10.15

[Quase nada é tudo]

Quase nada é tudo
o que vê em si,
um nada contudo
maior quando ri

(mesmo que sisudo),
quando ri de si.
Para quê levar-se
a sério demais,

se pode enganar-se, 
errar e ter mais
ou menos defeitos

e vícios e mínguas
que outros sujeitos
que afiam as línguas?

Domingos da Mota

[inédito]

12.10.15

Certidão de óbito

Se quem ganha, porque perde,
se quem perde, porque ganha,
se quem gela, porque ferve,
se quem ferve se esgadanha,
se quem fala aumenta o leque
dos parceiros de diálogo,
se quem arde quer que seque
e se mantenha o catálogo,
se quem olha se interessa
e comenta, dá recados,
se quem tem medo se apressa
a impor os paus-mandados,
se depois de tudo isto
há quem sugira o velório,
o morto pede o previsto
do inferno ao purgatório.

Domingos da Mota

[inédito]

8.10.15

Como um foco

Ainda que o despisses, onde e quando
exibes o sorriso e assim desnudo
o teu sorriso fosse sobretudo
como um foco de luz que ofuscando
disfarçasse a perfídia, o engodo
que se ocultam atrás de mil promessas
e se acaso se vêem, pedem meças
às partes que se tomam pelo todo,
convém não descurar tamanha astúcia:
hipócrita, maligna, mesmo quando
parece que te está desafiando
a revê-la de perto, com minúcia,
pois sabes de antemão que a aleivosia
sobreexcede o que o foco denuncia. 

Domingos da Mota

[inédito]

7.10.15

Consulta

Basta um gesto, um simples gesto,
duas palavras contidas
nos limites do protesto
contra as margens presumidas,
uma consulta mais larga,
um outro modo de ver
o carrego e a sobrecarga
dos mesmos sempre que houver
necessidade premente
de alargar mesmo um furo
no cinto, propor diferente,
olhando para o futuro,
basta alguém mexer um dedo
e há quem morra de medo.

Domingos da Mota

[inédito]

5.10.15

Nervos

Fossem d'aço temperado
os teus nervos sempre que
o horizonte apontado
derrapasse, mesmo se
com o passo extenuado,
tropeçando em cada pé,
resistisses pendurado
no buraco que se vê.
Quantos nervos sem um esgar
se mantém, mas tu não,
impassíveis e apesar
do que rói o coração
e tão frios, afinal,
como o aço dum punhal.

Domingos da Mota

3.10.15

Oh, virgens peripatéticas!

Oh, virgens apologéticas,
vozes do dono, a quem,
louvaminheiras frenéticas,
enalteceis o desdém
por tudo o que possa ter
uma fímbria de lisura,
de oposição a valer
contra o lápis da censura;

concubinas de alta-roda,
sicofantas do poder
que glosais sobre a coda
dos interesses que houver
e das suas dialécticas,
oh, virgens peripatéticas!

Domingos da Mota

[revisto] 

1.10.15

Corrigenda

Onde se lê passado, deve ler-se presente.
Onde se lê presente, deve ler-se futuro.
Onde se lê futuro, deve ler-se ausente
Devido ao conformismo podre de maduro.

Onde se lê teimosia, deve ler-se desdém.
Onde se lê desdém, deve ler-se altivez.
Onde se lê altivez, deve ler-se também
A moscambilha em prol da avidez.

Onde se lê fumo, deve ler-se fogo.
Onde se lê fogo, deve ler-se tição.
Onde se lê tição, deve ler-se de novo
E apurar porque sim e saber porque não.

Onde se lê isto (e aquilo que arrasta),
Apesar do risco, deve ler-se basta.

Domingos da Mota

[revisto]

29.9.15

Variações sobre coisíssima nenhuma

Sem coisíssima nenhuma,
que fazer da coisa agora,
do ónus que se avoluma
e obriga. (Pese embora,

haver quem diga que o dito
amortece, que há sinais
de que o fardo maldito
já foi pior, já foi mais

carregado, já se vê
uma luz ali, além,
lá no fundo) - e porquê?

Apenas porque convém
repescar, mesmo sem fé,
quem já não crê em ninguém.

Domingos da Mota

[revisto]

26.9.15

Da humildade

     Humilitas occidit superbiam


Homem humilde vá lá,
mais humilde que os humílimos
e tão humilde, quiçá,
que se torna dificílimo
encontrar entre os mortais
outro igual, humilde assim
(as razões eleitorais
contradizem o latim),
pois o homem lá se arroga,
na sua santa humildade,
arauto da boa nova,
da certeza, da verdade
e até manda recado
aos arrogantes do lado.

Domingos da Mota

[revisto]

24.9.15

A colheita

    O pouco que sobrou 
     de quase nada

     Manuel Alberto Valente


Quase nada é pouco,
mas o pouco é tanto
que apesar de pouco
sobrepuja e quanto

o nada que sendo
quase nada, assim
se foi refazendo
(quem me dera a mim.)

Quase nada é sumo,
sendo o pouco a súmula
do rigor, do apuro
do pequeno acúmulo

de que ora sobra
a colheita,
a obra.

Domingos da Mota

[inédito]

23.9.15

Declinação das aves

As aves
Declinam
O verão

E partem 
Bandeadas
Para o sul

Mal o sol
Lhes dá
O diapasão.

Domingos da Mota

édito originalmente no blogue porosidade etérea.

21.9.15

CARTA A ADONIS, POETA SÍRIO-LIBANÊS

7.

Adonis: são remos os ciprestes?
            Ou os pulmões de um louco?
O "barbeiro" que me içou a vela
             no mastro das dores,
e me encheu a boca
de forragem destinada a animais,
não voltou a aparecer. Mas é
diabo a quem devo, tatuado
              no sangue,
o genoma
destes versos de Hakim Sanai:
«Toda a existência é simplesmente 
               o vento a teu favor!»

António Cabrita

COMBATE DE FLAUTAS, & etc, Lisboa, Setembro de 2003

20.9.15

Isto não é um soneto

Adoro?
Não,
não venero.

Gosto ou não gosto, que isso
de incensar, o que não espero,
venerador, submisso,

sob a capa de modismos
e doutras coisas que tais,
de eufemismos, seguidismos
e conluios pontuais,

é práxis que não consigo
elaborar dia a dia,
por muito que o amigo
faça dela teoria.

Seja cão ou seja gato,
o que for,
não idolatro.

Domingos da Mota

[inédito]

17.9.15

GÉNESE

Sozinho, à margem do caminho, um verme.
Passam, repassam bandos pela estrada.
E alguns vão vê-lo... ou antes: vêm ver-me,
Com um dó que dói como uma chicotada!

Passam, repassam bandos pela estrada...
Levantam pó que desce a envolver-me.
E outros, por animarem a jornada,
Jogam à bola com minh'alma inerme.

Passam. E à margem do caminho, triste,
Respiro o pó que inda no ar persiste...
Cai das estrelas o silêncio, o espanto.

Qualquer coisa de absurdo me sufoca.
Maior do que eu, sobe-me a alma à boca.
Falta-me o ar, incho de angústia... - E canto.

José Régio

Eugénio de Andrade, Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa, Campo das Letras Editores, S. A., 1999

16.9.15

Outro modo de ser

    E outras coisas mais:

     António Manuel Couto Viana


Eu não esqueço: lembro, falo,
pois dizê-lo pode ser
bem melhor do que calá-lo
- um outro modo de ver
e de estar, acaso, atento
ao que se passa em redor.
Tu calaste. E eu lamento
esse silêncio. Pior,
quando o silêncio foi tanto,
desmedido, por sinal,
e um só grito de espanto,
instintivo, natural,
poderia ser um gesto
de apoio,
ou de protesto.

Domingos da Mota

[inédito]

14.9.15

Livro de fiados

     a Ivo Machado


Neste livro de fiados
com as páginas puídas
pelo tempo, raiam dados
discretos como as feridas
abertas ou esboçadas
que se vistas devagar
parecem contas passadas
que ficaram por saldar.
Um livro que se detém
entre o deve e o haver
e cuja soma também
se manterá por fazer,
pois apesar do desconto
nem tudo ficará pronto.

Domingos da Mota

(a partir da curta, mas saborosa conversa com Ivo Machado, aquando da apresentação do seu livro de poemas, O Monólogo do Merceeiro)

[inédito]

13.9.15

CARDIOGRAFIA

Para vos ver amigos
hoje ponho as minhas lentes
verde húmido de lágrima
hoje sois belos verticais mesmo gregos
vossas boas acções enumero
por límpidos dedos de água.

A raiva de muito vos querer
meu jasmim refractário foi
mas hoje que me suicido por vós
com a cálida tinta vos pinto
do meu terno olho de boi.

Natália Correia

O VINHO E A LIRA, Edição Fernando Ribeiro de Mello, Lisboa

[Nem eu delicadezas vou cantando]

    Nem eu delicadezas vou cantando

     Luís de Camões


Nem eu delicadezas vou cantando
nem outras coisas brandas ou festivas,
pois sempre que as vejo pululando,
ainda que se ouçam muitos vivas,
reparo que as rudezas vão ficando
providas com as papas e os bolos
dos muito poderosos, onde e quando
partilham as migalhas com os tolos.
Não canto por cantar e muito menos
corro em busca das canas dos foguetes
que mesmo sendo coisas de somenos,
disfarçam artimanhas e topetes
e tantas e tamanhas trapalhadas
que não canto, por muito delicadas.

Domingos da Mota

[inédito]

11.9.15

Dies Irae

    o ódio sopra uma bolha de desespero
     na vastidão do sistema do mundo do universo e explode

     e. e. cummings


Falo
agora dos tempos cegos,
surdos, das vinganças
cruéis, dos ódios

roucos, do terror
a bramir, do absurdo
encharcado de fé
até aos ossos. Das torres,

do poder, de tanto orgulho
a ruir das alturas,
bruscamente

(do riso amarelo dos abutres)
e da fúria das águias
e dos ventos.

Domingos da Mota

Bolsa de Valores e Outros Poemas, Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010

10.9.15

Parábola sobre a utilidade das coisas

     Não há espaço para poemas, nem retórica.

     Claude Juncker



Inúteis os poemas, não há espaço;
inúteis os poemas, pois não salvam;
inúteis os poemas, não acabam
com as balsas e os muros e as fronteiras
e não dão de comer a quem tem fome
e não dão de beber a quem tem sede
e não passam rasteiras aos que tentam
fugir do sufoco e do arame
farpado que lhes tolhe os horizontes;
inúteis os poemas, não impedem
os naufrágios de milhares, sequer
as guerras de que tantos fogem aos milhões;
inúteis os poemas, não traficam
armas e mais armas e mais gente
e petróleo e petróleo e mais petróleo;
inúteis os poemas. Tão inúteis.
Úteis os discursos e as lágrimas
de velhos crocodilos.

Domingos da Mota

[inédito]