26.12.13

Lágrimas de pedra

       com lágrimas de pedra nos sapatos

          Dinis Machado


Com lágrimas de pedra, mas sem lenço
para limpar dos olhos a poeira
que transforma o que vejo, seco e denso,
em algo mais espesso que a fronteira

que separa o que sinto do que penso,
no limiar da sombra e da cegueira,
as lágrimas de pedra com que adenso
a visão do presente que se abeira

das bordas do abismo, são bem mais
que sulcos ressequidos pela dor,
que restos, que resquícios, que sinais
dos tempos de fracasso ou de fulgor:

são as rugas de quem, olhando em volta,
vê um ror de cinismo, e de revolta.

Domingos da Mota

[revisto]

21.12.13

Poema de Natal

       com que a vida resiste, e anda, e dura.

          Pedro Tamen


Não digo do Natal - mas da natura
de quem faz do poder um pesadelo
que aprofunda as sementes da amargura
através do garrote e do escalpelo;

não digo do Natal - mas da tortura
que macera as feridas com desvelo,
impassível à dor que já satura
os ombros causticados pelo gelo.

Dissesse do Natal - seria bom
que pudesse cantar, subir o tom
das loas e dos hinos e dos ritos,

se em vez duma esmola, tão-somente
renascesse o respeito pela gente
que povoa o Natal dos aflitos.

Domingos da Mota

[inédito]

15.12.13

Poema para 2013

          sob o estigma da peste grisalha


Não vou somar aquilo que perdi,
sequer subtrair o que ganhei
ao muito que busquei e persegui
para atingir o pouco que apurei;
não vou patentear, mostrar aqui
o mapa dos caminhos que sonhei,
de tantos, tantos sítios que não vi
e que excedem de longe os que trilhei;
não vou apascentar os desenganos,
por muito defraudado que me sinta,
sequer ajoelhar perante os danos;
e mesmo que o tempo me desminta,
apesar do disfórico ferrete,
bem-vindos sejam os meus sessenta e sete

Domingos da Mota

[Inédito]

10.12.13

PUNHAL EXCELENTE

Já quase não há, o punhal excelente
com que a mim próprio me esventrei algumas vezes
para melhor me desentranhar em versos --

-- esses lícitos salpicos de lama,
essas coisas à toa, hossanas, ambições,
promessas, juras, astutas
ingenuidades: toda essa merda que há
dentro do poeta e com que ele gosta
de borrifar os outros. Para que
não se fiquem a rir.

E eis que agoniza: o gume rombo,
manchas inamovíveis de ferrugem,
incapaz de incisões, definitivamente
inoperacional o punhal excelente.

Paz ao seu aço.

A. M. Pires Cabral

gaveta do fundo, Edições Tinta-da-China, Lda., Lisboa, Novembro de 2013

5.12.13

Douta ignorância

Não sou dado a sermões nem a conselhos
nem à douta ignorância dos pastores:
alvitres, sugestões, por muitos velhos
que sejam ou pareçam os temores,

não deixam de pesar nas decisões
que tomo quando tenho de optar,
e ainda que me esqueça das razões,
não param mesmo assim de levedar.

Não vou aconselhar, pois não me cabe,
embora desaprove quando alguém
decreta sobre o muito que não sabe
e norteia o caminho para quem

terá de superar, transpor o muro
que separa o presente do futuro.

Domingos da Mota

[Inédito]

18.11.13

Relatório

É um  mundo pequeno,
habitado por animais pequenos
- a dúvida, a possibilidade da morte -
e iluminado pela luz hesitante de

pequenos astros - o rumor dos livros,
os teus passos subindo as escadas,
o gato perseguindo pela sala
o último raio de sol da tarde.

Dir-se-ia antes uma casa,
um pouco mais alta que um império
e um pouco mais indecifrável
que a palavra casa; não fulge.

Em certas noites, porém,
sai de si e de mim
e fica suspensa lá fora
entre a memória e o remorso de outra vida.

Então, com as luzes apagadas,
ouço vozes chamando,
palavras mortas nunca pronunciadas
e a agonia interminável das coisas acabadas.

Manuel António Pina

COMO SE DESENHA UMA CASA, Assírio & Alvim, Lisboa, Outubro 2011

13.11.13

Amargo de boca

Indago sobre a perda dos amigos,
se estes sem a mínima alusão
a quaisquer desenganos ou perigos,
abalam simplesmente, e lá se vão,

partindo sem dizer se vão sentidos
comigo, com o gato ou com o cão
(que mesmo sem miados e latidos,
reagem à menor perturbação).

Sendo assim com amigos virtuais,
bem pior quando alguns foram reais
e deixaram de o ser, subitamente,

por razões obscuras, ilegíveis
para quem sonda as causas plausíveis
do amargo de boca, tão presente.

Domingos da Mota

[Inédito]

11.11.13

Soneto omnívoro

Pois eu gosto do bucho e da fressura,
dos ossos da suã, da focinheira,
do redanho, do lombo e da assadura,
da morcela de sangue à farinheira;

saboreio o arroz de sarrabulho
e celebro uma quente cabidela,
se o reco for cevado a cascabulho
e de pica no chão se fizer ela;

gosto da burzigada, e da fartança
à mesa duma boa rojoada
(algumas bem me acodem à lembrança,
quando enfrento uma posta de pescada);

omnívoro que sou, de boa boca,
gostava de gostar de mandioca.

Domingos da Mota

[Inédito]

6.11.13

Filhos da época

Somos filhos da época
e a época é política.

Todos os teus, nossos, vossos
problemas diurnos e nocturnos
são problemas políticos.

Quer queiras quer não,
os teus genes têm passado político,
a pele um tom político,
os olhos um aspecto político.

O que dizes tem ressonância,
o que calas tem expressão,
seja como for, política.

Mesmo passeando pelo campo,
dás passos políticos
em solo político.

Poemas apolíticos são também políticos
e lá em cima brilha a lua,
unidade que deixou de ser lunar.
Ser ou não ser, eis a questão.
Que questão, diz, querido.
A questão política.

Nem é preciso ser humano
para ganhar importância política.
Chega que sejas petróleo,
ração composta ou matéria reciclável.

Ou a mesa de debate,
cuja forma foi discutida meses a fio:
em que mesa se negoceiam a vida e a morte?
Redonda ou quadrada?

Entretanto pereciam homens,
morriam animais,
ardiam casas,
tornavam-se os campos bravios
como nos tempos antigos
e menos políticos.

Wislawa Szymborska

Alguns gostam de poesia (Gente na ponte), Antologia, Czeslaw Milosz e Wislawa Szymborska, Cavalo de Ferro Editores, Lda., Lisboa, Março de 2004

23.10.13

Pois eu gosto de tripas

Pois eu gosto de tripas, oh se gosto,
em boa companhia ou sozinho,
mas à moda do Porto. Não desgosto
do arroz de sarrabulho que no Minho

acompanha os rojões para prazer

de quem  quer degustar o que mastiga;
o leitão à Bairrada pode ser
uma óptima escolha; há quem diga

que gosta do cozido à portuguesa

ou da vitela assada de Lafões
ou de peixe fresquíssimo na mesa
ou doutras saborosas opções.

Também digo que sim, que nisso alinho:

só falta escolhermos o tal vinho.

Domingos da Mota


[inédito]

a partir da leitura dos sonetos, respectivamente, de Vinicius de Moraes [Não comerei da alface a verde pétala], e de Vasco Graça Moura [pois eu gosto de lombo e feijoada], no mural da Prof. Doutora Maria Alzira Seixo, no Facebook

6.10.13

Meditação íntima do Infante D. Fernando sobre Ceuta e a sua vida

"De honra e fé atapetaram
os verdugos meus passos. As razões
de estado me pedem santidade;
a burocracia espera apenas a data
para me erguer altar.
A tudo assisto
com ironia e distância enquanto
minha vida lentamente passa.

Que Deus me dê paciência e raios
levem esta maldita praça!"

Alberto Soares

(Arquivo Mortal, 2013)

colhido no blogue Arpose, em Notas de Leitura VI: Sobre a poesia de Alberto Soares, de HN)

24.9.13

Não vou forçar a nota

Não vou pedir que fiques ou que vás,
não vou propor que votes ou não votes;
e mesmo que não olhes para trás,
não vou persuadir, dizer que anotes

o sítio onde deves pôr a cruz,
pois sabes muito bem a que te pesa;
e ainda que não queiras fazer jus
e aguardes novas cartas sobre a mesa,

não vou rogar que mudes de atitude,
e menos conduzir a tua mão,
sequer perante tal vicissitude,
sobrepor a melhor opinião;

não vou forçar a nota. Quanto ao voto,
espero que não caia em saco roto.

Domingos da Mota

[inédito]

23.9.13

António Ramos Rosa (1924-2013)

[Em qualquer parte um homem]


Em qualquer parte um homem
discretamente morre.

Ergueu uma flor.
Levantou uma cidade.

Enquanto o sol perdura
ou uma nuvem passa
surge uma nova imagem.

Em qualquer parte um homem
abre o seu punho e ri.

António Ramos Rosa

O GRITO CLARO, (selecção de poemas) [Primeira Parte], Colecção «A Palavra», n.º 1, Faro, 1958

13.9.13

UMA LARANJA PARA ALBERTO CAEIRO

Venho simplesmente dizer
que uma laranja é uma laranja
e comove saber que não é ave

se o fosse não seriam ambas
uma só coisa volátil e doce
de que a ave é o impulso de partir
e a laranja o instinto de ficar.

Não sei de nada mais eterno
do que haver sempre uma só coisa
e ela ser muitas e diferentes
e cada coisa ternamente ocupar
só o espaço que pode rodeada
pelo espaço que a pode rodear.

Sei que depois de laranja
a laranja poderá ser até 
mesmo laranja se necessária
mas cada vez que o for
sê-lo-á rigorosamente
como se de laranja fosse
a exacta fome inadiável.

De ser laranja gomo a gomo
o íntimo pomo se enternece
e não cabe em si de amor
embriagada de saber
que a sua morte nos será doce.

Natália Correia

O VINHO E A LIRA, Edição de Fernando Ribeiro de Mello, Lisboa

11.9.13

A ferro e fogo

Se um Nobel da Paz apela à guerra,
levado pelo quero, posso e mando,
se um Nobel da Paz lança e desferra
a máquina de guerra, onde e quando

o tráfico de armas exaspera,
pois há que renovar os arsenais,
se um Nobel da Paz declara a guerra,
como cabo-de-guerra e muito mais,

esse Nobel da Paz beligerante,
o comandante-em-chefe do mais forte,
é um Nobel da Paz que doravante
aumenta o pânico, o terror e a morte,

lá onde se propaga tanto ódio,
numa guerra cruel, a ferro e fogo.

Domingos da Mota

[Inédito]

8.9.13

Tríptico

I

Por muito que conjectures
sobre o sentido dos passos,
importa que não descures
quando se abrem os braços:

se somas ou subtrais
à causa que nos juntou
os arremessos verbais
(que a memória apagou),

algumas ideias loucas,
pequenos gestos ferozes,
por vezes orelhas moucas
para a frieza das vozes,

eu retenho, sobretudo,
mais que a forma, o conteúdo.


II

Mas vale a pena dizer
que a forma é importante,
sobretudo se abranger
um conteúdo bastante,

pois nisto de conteúdos,
sem falar nos aparentes,
além dos graves e agudos
e com traços divergentes,

vê os que trazem também
uma carga de trabalhos
(para atingi-los há quem
persiga tantos atalhos),

que depois de tudo isso
o que perdura é um esquisso.

III

O esquisso, o traço, o bosquejo,
o borrão, um simples esboço,
o debuxo do desejo
que irradia até ao osso,

talvez sejam tão concretos
para a pintura abstracta
como a expressão dos afectos
através da cor exacta,

quando o pintor, com apuro,
molha o pincel na paleta
com as tintas do futuro
(refina a forma secreta),

e deixa na sua tela
muito mais que uma aguarela.

Domingos da Mota

(de Tríptico e outros poemas, no Triplov)

4.9.13

"Aquisição fabulosa"

     Para João Cabral de Melo Neto


Lapidar o poema.
Lançá-lo limpo à língua,
Sem o peso do vácuo.
Palavra por palavra,

Sem prematura pressa.
Palavra por palavra,
Sem proezas supérfluas.
Palavra por palavra,

Sem pretensões precárias.
Para depois de pronto,
Aos deuses, devolvê-lo,
Sem o peso do véu.

Adriano Nunes

(Publicado com a autorização do poeta. Mais poemas do autor, entre outros sítios, em Que Faço Como Que Não Faço).

1.9.13

Deus Abençoe a América

Lá vão eles outra vez,
Os Ianques e as suas blindadas paradas
Entoando as suas baladas de alegria
A galope pelo vasto mundo
Louvando o Deus da América.

As sarjetas estão entupidas de mortos
Dos que não puderam alistar-se
Dos outros que se recusam a cantar
Dos que estão a perder a voz
Dos que esqueceram a música.

Os cavaleiros têm chicotes que ferem.
A tua cabeça rola para a areia
A tua cabeça é uma poça no lixo
A tua cabeça é uma nódoa no pó
Os teus olhos apagaram-se e o teu nariz
Fareja apenas o fedor dos mortos
E todo o ar morto está vivo
Com o cheiro do Deus da América.

Janeiro 2003

Harold Pinter

GUERRA, Tradução de Pedro Marques, Jorge Silva Melo e Francisco Frazão, Quasi Edições, Junho 2003

30.8.13

Num tempo póstumo

Por vontade dela, todos os poetas 
Iam parar ao nono círculo, mordendo-se
No crânio, sôfregos de cérebro, num nexo
De egoísmo e raiva, inferno dos maldizentes.

Inflexíveis, ambiciosos, acirrados,
Presos das maxilas, ferozes como bestas
Disputando-se o lugar, cravados, montados
Como Ugolino no arcebispo Rogério.

E quando ela fizesse o percurso gelado, 
Guiada e apoiada pela mulher de Virgílio,
Eu gritava: "Meu amor, quem é o laureado
No nosso país verde lá em cima, qual a vida

Mais dedicada e exemplar?". Diria ela:
"Os meus ouvidos de viúva não atendem
Às notícias sulfurosas de poetas
E poesia. Não podias, no nosso tempo,

Libertar-te mais vezes, descer risonho
Do teu quarto, e passear comigo ao sol-pôr,
E com os teus filhos - como naquele serão 
De feno e flores, as rosas bravas já a murchar?"

E ainda (outro autor ferrando-me já a nuca):
"Não eras o pior. Ansiavas por um tacto
Afável e indiferente, tipo 'todos têm culpa'.
Primeiro nós, depois os livros, abandonaste."

Seamus Heaney

DA TERRA À LUZ poemas 1966 - 1987, Tradução, prefácio e notas de Rui Carvalho Homem, Relógio D'Água Editores, Janeiro de 1997

25.8.13

Soneto da pouquidão

São poucos os que lutam contra o medo
sem medo de perder seja o que for,
que ousam cutucar o arremedo,
esse modo maligno de temor

que sofreia a coragem ante o susto
e que a tantos concita mais pavor
e os deixa tolhidos, dado o custo
da luta contra o medo ou o que for.

São poucos os que lutam, e a escassez
aumenta com tamanha pouquidão
que faz acumular, por sua vez,
o medo, com razão ou sem razão,

naqueles que se escondem, dia a dia,
por detrás do receio ou da apatia.

Domingos da Mota

[inédito]

23.8.13

Ode aos Amigos

Canto
os amigos:
bem poucos,
amigos do seu
amigo.
Não os amigos 
fortuitos.
Mas os que enfrentam
perigos, e cada um
com seu jeito,
contados e recontados
pelos dedos da mão,
são valiosos achados
no lado esquerdo
do peito.
Dos amigos
dessa lavra,
tão singulares, incomuns,
amigos, numa palavra,
couberam-me em sorte
alguns.
Canto
os amigos
de modo a não cair mais
no erro de tomar a parte
pelo todo, ou de esquecer
quem não devo.

não falo dos da infância,
das escolas, dos liceus,
de armas, de muita 
errância, de tertúlias,
de saraus, dos amigos
de trabalho que labutam
por aí, ou que perdi
nos atalhos da vida
que percorri.
Canto 
os amigos,
e a voz que sobe
num canto assim,
abraça alguns de vós.
Quem dera
que pouse em mim.

Domingos da Mota

[inédito]

17.8.13

Fleuma

Quantas vezes tantas vozes,
tanto ruído de fundo,
quantos dentes sem as nozes
tantas vezes, quanto mundo,

não direi o mundo todo,
pois se o dissesse mentia,
mas digo de qualquer modo
tantas vezes quanta azia,

e muito mais que a azia
que se agrava com a afronta
quantas vezes, quem diria,
apesar da língua pronta,

a melhor resposta acode
quando a fleuma implode

Domingos da Mota

[inédito]

9.8.13

Desconstrução da luz

Chovia sobre a sombra
das ruas pobres
penteadas para o turismo
Era uma chuva silenciosa
rala
pobre ela também de luz
E o amigo
que já não via as palmeiras
navegantes do seu sonhar
deslizava para a morte
numa poeira dourada de sons
cansados da própria beleza
Sentimos o primeiro sopro
do luto que chegava
a branco e negro
                                                           2007

Urbano Tavares Rodrigues

Horas de Vidro [Poemas do Novo Século], Publicações Dom Quixote, Lda., Lisboa, Fevereiro de 2011

20.7.13

Contra a depressão

De cachafundos

na fossa
das Marianas
de Tonga
das Curilas
das Filipinas
de Kermadec
de Izu-Bonin
do Japão
de Porto Rico
de Atacama
de Java
de Sandwich do Sul
de Litke Deep
...

de Berlim
de Frankfurt
de Bruxelas
de Washington
de Estrasburgo
...

de São Caetano à Lapa
do Largo do Caldas
do Largo do Rato
...

do Terreiro do Paço
de São Bento
...

de Belém

Libera nos, Domine!


Domingos da Mota

[inédito]

17.7.13

de nada - 12

oh
se os tivessem 
assassinado na juventude
oh
mas o passado
sabe 
proteger-se

não sei já
de qual deles falávamos
se era de todos
de todos os que tiveram
os seus incêndios do Reichstag
Bush
o seu 11 de Setembro
Pinochet
as suas panelas das domésticas
já não sei

mas que adiantava 
neste mundo
onde os criminosos se instalaram
com a sua conhecida lei
dos 3 magos do Ocidente

Elias
Melias
Melambes

Alberto Pimenta

de nada, Edição Boca - palavras que alimentam, Lda., Novembro de 2012

13.7.13

[Eu tenho de nação ideias desmembradas]

Eu tenho de nação ideias desmembradas,
comungo  do ranger de dentes
com os vizinhos,
comungo de açularem
os perros uns contra os outros,

mas não eu contra todos,
só contra alguns,
e mesmo assim
isolo-me no bosque do silêncio,
fujo para esta folha,
os cães ficam lá fora.

No entanto, eu que empunhei o fogo
sem Deus se ter lembrado
de chamar a águia,

quando os sinos e as sirenes
soarem a rebate, terei de ir,
o fígado desfeito por cirroses
somadas de desgosto,

embora aos meus vizinhos
pouco falte para se armarem
nos conflitos de bairro,
em defesa do quarto e da cozinha.

No fundo, sei que sou o tempo,
as minhas coordenadas e as alheias,
e daí que haja tempo para tudo,

um tempo para a paz,
um tempo para a vida,
um tempo para a guerra e para a morte,
um tempo para ser-se tudo e nada
ao mesmo tempo, a pele dos outros
que desvisto com suma falta de piedade.

Daí que não acredite em maiorias.
As maiorias são volúveis,
fácil é comprar-lhes
a consciência e o nome da rua,

e agora os estrangeiros chegam,
estendem as metástases,
ocultam lentamente o sol,
e os olhos de tal gente
tornam-se mortiços e cegam.

Somente um genocídio podia convencê-la
de que havia um reduto aqui

e não sei se acreditava,

tantas formas há de se confiscarem
as cidades, os campos, os mosteiros,
os palácios, a Língua,
um longo rol de fábricas,
a energia dos rios e do vento,
milhões de vozes
que constroem o amor
a partir de satélites,

e ninguém se interessa:
é pouco provável
que os estrangeiros entrem numa aldeia
ou assolem as ruas suburbanas
e sejam invisíveis,
embora não se vejam.

Nuno Dempster

UMA PAISAGEM NA WEB, &etc, 2013

10.7.13

Irrevogável questão

Dado o dito por não dito
(irrevogável questão),
que pensar do sobredito
e do seu golpe de mão?
E do coro inaudito
que perante a podridão
do cadáver esquisito,
faz do dito a solução?
Que pensar de gente assim 
e da sua hipocrisia,
e de quem assim-assim
aguenta a vilania
dum embuste surreal,
em nome de Portugal?

Domingos da Mota

[inédito]

24.6.13

CAVA

Livros que suportam tudo, até a estante.
O gozo da poesia como uma faca
afiando os dedos.
Uma mão que segura pelas pontas
a possibilidade de alguns gestos.
Folhas que num tempo adiantado
impõem o silêncio e outra vez
a vénia, a veia, a cova.

Marta Chaves

Telhados de Vidro, N.º 18 . Maio . 2013, Averno, Lisboa

20.6.13

DISCURSO TARDIO À MEMÓRIA DE JOSÉ DIAS COELHO

Éramos jovens: falávamos do âmbar
ou dos minúsculos veios de sol espesso
onde começa o verão; e sabíamos 
como a música sobe às torres do trigo.

Sem vocação para a morte, víamos passar os
          barcos,
desatando um a um os nós do silêncio.
Pegavas num fruto: eis o espaço ardente
do ventre, espaço denso, redondo, maduro,

dizias: espaço diurno onde o rumor
do sangue é um rumor de ave --
repara como voa, e pousa nos ombros
da Catarina que não cessam de matar.

Sem vocação para a morte, dizíamos. Também
ela, também ela a não tinha. Na planície
branca era uma fonte: em si trazia
um coração inclinado para a semente do fogo.

Morre-se de ter uns olhos de cristal,
morre-se de ter um corpo, quando subitamente
uma bala descobre a juventude
da nossa carne acesa até aos lábios.

Catarina ou José -- o que é um nome?
Que nome nos impede de morrer,
quando se beija a terra devagar
ou uma criança trazida bela brisa?

1972

Eugénio de Andrade

Homenagens e Outros Epitáfios, Editora Fundação Eugénio de Andrade, Porto, Edição 8.ª, Setembro, 1993

17.6.13

Testa-de-ferro

Altipotente, arrogante,
testa-de-ferro feroz,
manda-chuva sibilante,
capacíssimo, pedante,
rotundo de viva voz,

cão de fila - capataz
enfatuado, abelhudo,
egocêntrico, mordaz,
caviloso, contumaz
e sem freio - sobretudo

troca-tintas, arrivista,
coisa-à-toa tão enfático;
nem-sei-que-diga, sofista,
sicofanta, moralista,
em pose de catedrático.

Domingos da Mota

13.6.13

[Pobre velha música!]

Pobre velha música!
Não sei por que agrado,
Enche-se de lágrimas
Meu olhar parado.

Recordo outro ouvir-te.
Não sei se te ouvi
Nessa minha infância
Que me lembra em ti.

Com que ânsia tão raiva
Quero aquele outrora!
E eu era feliz? Não sei:
Fui-o outrora agora.

Fernando Pessoa

POEMAS DE FERNANDO PESSOA, Selecção, prefácio o posfácio de Eduardo Lourenço, revista Visão e JL, Fevereiro de 2006

11.6.13

- O coração - (Stephen Crane)

No deserto,
vi uma criatura nua, brutal,
que de cócoras na terra
tinha o seu próprio coração
nas mãos, e comia...
Disse-lhe: «É bom, amigo?»
«É amargo - respondeu -,
amargo, mas gosto
porque é amargo
e porque é o meu coração.»

AS MAGIAS  ALGUNS EXEMPLOS poemas mudados para português por Herberto Helder, Assírio & Alvim, Lisboa, 2010

7.6.13

Duas de conversa

Andei muito, passei mais,
andarilhei por aí,
por caminhos bem reais,
deparei e dividi

a atenção com os demais
que seguiam o seu rumo
(as andanças virtuais
fazem parte do resumo).

Mesmo parado, viajo
através do pensamento,
e se demoras, reajo,
e precipito o momento

(devagar, que tenho pressa),
para duas de conversa.

Domingos da Mota

[inédito]

2.6.13

[nada pode ser mais complexo que um poema,]

nada pode ser mais complexo que um poema,
organismo superlativo absoluto vivo,
apenas com palavras,
apenas com palavras despropositadas,
movimentos milagrosos de míseras vogais e consoantes,
nada mais que isso,
música,
e o silêncio por ela fora

Herberto Helder

SERVIDÕES, Assírio & Alvim, Porto, Maio de 2013

22.5.13

Quiproquó

Quando perguntas por alhos
e recebes em resposta
meia dúzia de bugalhos
ou outra coisa que arrosta
uma carga de trabalhos
para opores que a questão
não tem a ver com bugalhos,
mas com os alhos, então,
por muito que possa haver
acuidade e cortesia,
suportas, é bom de ver,
juntamente com a azia,
um sério aperto do nó
que agudiza o quiproquó.

Domingos da Mota

[inédito]

8.5.13

Cismas

Não quero cisma grisalho,
diz o ministro que não
vai seguir por esse atalho
onde passa a procissão.

Mas o ministro, reparo,
leva o turíbulo na mão,
segue debaixo do pálio
e aperta o passo. Então,

quem será que neste caldo
de cultura de opressão
contra os velhos busca um saldo
positivo de antemão?

Quem será que marca o risco,
a fronteira inexcedível,
a margem para o confisco,
a linha intransponível?

Seremos nós, serão eles,
serão os tais mandatários
ou os mandantes daqueles
que não passam de sicários?

Não sei quem é, quem não é.
Sei apenas que a avidez
reforça o finca-pé
que nos pisará de vez,

e que depois de esmagados,
maltratados, combalidos,
seremos armazenados,
e de seguida, morridos.

Domingos da Mota

[inédito]