29.12.16

[O verdadeiro poema]

O verdadeiro poema
não se pode ler
É um tiro no escuro
inaudito e cego

Ana Hatherly

FIBRILAÇÕES, Quimera Editores, 2005

28.12.16

A hora

Há-de chegar a hora: como, quando,
aguardada, brutal, de supetão?
Ou dolorosamente prolongando
a vida sem sentido e sem razão
por mais uns dias, vegetal ou quase,
na expectativa de que algo surja,
medicamento ou não, olhando a fase
em que o tempo acelera e garatuja
a hora exacta, mesmo sem ponteiros,
do fim do prazo, não havendo nada
que possa suspender os derradeiros
momentos duma vida que se apaga,
mal atravessa a porta desse cais
de embarque, para sempre e nunca mais?

Domingos da Mota

[inédito]

27.12.16

noção

a noção do tempo
a visão do espaço
a noção do vento
a visão do traço
a noção do ar
a visão do fogo
a noção de par
a noção de logro

a visão da terra
a visão da água
a visão da guerra
a noção de mágoa
a ambição de querer
a ambição de haver
a ambição de ter
a noção de ser

Domingos da Mota

[inédito]

26.12.16

IA NO BATALHA

      [sessões matinalmente dominicais
promovidas pelo CineClube do Porto]


saías
p'la crueldade
maior

o Inverno ferrando-te
nos olhos
uma luz metálica
por mera opção cromática
fixavas
as pombas

Ana Paula Inácio

ANÓNIMOS DO SÉCULO XXI, Averno | 2016

23.12.16

Dezembro

Era Dezembro. O natal esperado
(não havia então ecografia),
poderia ser dum rapaz
ou duma rapariga

(por meninos e meninas eram 
tratadas as crianças que nasciam
em berços de oiro).
E nasceu um rapaz. Gritou,

chorou, foi parido numa casa
humílima, que não era um presépio,
mas ouvia-se o cantar dos galos,
o ladrar dos cães, o mugir

das vacas nos currais.
Era Dezembro, mês propício
a partos difíceis,
naturais.

Domingos da Mota

[inédito]

22.12.16

Segundo Poema de Natal

Pudesse do Natal dizer que é mais
que o corre-corre, que a lufa-lufa,
que a passada célere demais,
que a mole humana que se adensa e arrufa
e satura nos amplos corredores,
nas ruas e nas lojas, nos mercados
(valendo-se da casa de penhores,
como outrora do livro de fiados);
pudesse do Natal dizer que é muito,
muito mais que o bulício que se sente
atraído pelo larvar intuito
da febre consumista, futilmente,
que faz da pretensão de ter e haver
o santo-e-senha contra o próprio ser.

Domingos da Mota

[inédito]

21.12.16

Aleppo, Homs, Palmira

Inumeráveis lágrimas
de sangue empastam
os escombros, as ruínas
de cidades inteiras, quase
exangues, devastadas
por bombas assassinas.

Inumeráveis lágrimas
também de crocodilo brotam
sem disfarces dos olhos
dos senhores da guerra
cujas faces espelham
o cinismo e o desdém.

Domingos da Mota

[inédito]

19.12.16

ENTREVISTA

diz-lhe que estás ocupado
a entrevistar-te a ti mesmo
mesmo porque se não
o pões desde já porta 
fora tás quilhado vai
espiolhar-te apalpar-te
meter-te o dedo no cu
querer saber a quantas
quais mulheres ofereceste
teu recortado coração (pelo picotado)
em quantos quais sonetos meteste
o catorze e quantas quecas
te saíram pela ejaculatra
e ainda que livros levarias
para uma ilha deserta
se lá tivesses de empinar
o talo e fazê-lo florir sem a ajuda de ninguém
sequer de sexta-feira
apenas com os cinco dedos
que deus te deu para isso mesmo
mesmo porque tens de o pôr
já porta fora

Alexandre O'Neill

POESIAS COMPLETAS, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio 2007

17.12.16

O tempo exacto

Dia após dia, mais um passo em frente,
um passo que se dá, mesmo parado,
e o tempo continua indiferente
a quem vai devagar ou apressado:
se o tempo, para alguns, passa depressa
e para outros é muito demorado,
com tempo para duas de conversa
e até para olhar para o passado,
sendo a noção do tempo variável
em função do espaço que o circunda,
do acaso que surde, imponderável,
ou da necessidade mais profunda,
soubesse eu apurar o tempo exacto
que separa o concreto do abstracto

Domingos da Mota

[inédito]

15.12.16

Prosa para 2016

Transtornos e delírios e vesânias,
a miopia à esquerda e à direita,
e as dores agudas, subitâneas,
e a porta do futuro que se estreita
e o pé de atleta que se coça
e a hérnia discal que mais comprime
e o modo de dizer, de fazer mossa,
e o motivo banal por que se esgrime
e o passo em falso e, depois da queda,
o 112 que demora tanto
e alguém a sugerir (quase segreda:
está na hora de invocar um santo)
e, apesar de quantos desenganos,
bem-vindos sejam os meus setenta anos

Domingos da Mota

[inédito]

12.12.16

Previsão Do Tempo

O dia vai nascer nublado.
Vai estar bastante frio
Mas à medida que o dia avançar
O sol abrirá
E a tarde será seca e quente.

À noite a lua brilhará
E será bastante luminosa.
Haverá, é verdade,
Um vento cortante
Mas que abrandará pela meia-noite.
Nada mais acontecerá.

Esta é a última previsão.

Março 2003

Harold Pinter

GUERRA, Tradução de Pedro Marques, Jorge Silva Melo e Francisco Frazão, Quasi Edições




11.12.16

VARIAÇÕES DO BRANCO

Ergues o olhar: surpreendes por instantes essa hora
em que o mundo envelhece: ténues as variações do branco
parecem dissolvê-lo numa longínqua música, anterior à chuva

Ou será então a imagem submersa de um filme a preto e branco

Há próximo um branco vibrante: o da cal ainda recente
mas que a humidade salina já a espaços mordeu,
recortando as feridas cinza na varanda a que vens.

Não há ninguém aqui. Quem te chame, digo.

Há o branco baço na parede que em frente em vão separa
rua e praia. Tendo já transposto essa fronteira incerta
ou erguendo-se para lá dela há o branco pobre da areia:

As dunas plenárias sustentam os corpos deitados de mar e céu.

Aí é agora o grande branco: o clarão velado e difuso
que guarda e distribui a memória embaciada do azul
e do verde, do oiro e da prata -- uma lembrança vã.

Tu escreves no visível do mundo essa névoa branca e desolada

que o motor da paisagem produz. As folhas do ar são como
se fossem as levíssimas pétalas, as vagas sílabas  de uma neve --
e essa névoa engolfa, atrasa e apaga na travessia os simulacros

das coisas supostas e imaginadas que o mundo te envia
enquanto esperas por alguém que não virá

Manuel Gusmão

migrações do fogo, Editorial Caminho, SA, Lisboa, 2004

10.12.16

ESFINGE

Olha mais uma vez     Traça de cor
o mapa desse rosto   as suas linhas tortas
tatuadas no vento     À tua espera
o seu meio-sorriso iluminando
corações como o teu
esses olhos translúcidos    a boca
que também tu beijaste e que hoje ainda
floresce no teu sangue    É  outro o mesmo
rosto
refém do tempo e no entanto igual
ao da primeira noite    ao da primeira
esfinge    O seu enigma
está cada vez mais perto    cada vez
mais longe


Fernando Pinto do Amaral

Manual de Cardiologia, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Novembro de 2016

8.12.16

PEDRAS

Morar no tempo, mesmo
soterradas, coexistir no ofício durável da
neutralidade: dólmen menir pirâmide ameia
agulha gótica ou soleira
humilde, espelho duradouro
de poderes e impudores, brasão
seixo alvo fonte ou pedra de
arremesso, de jogar, de roçar à espera de
fertilidade, de esmigalhar, urinar,
sepultar. Vértebra
do mundo.

Inês Lourenço

O JOGO DAS COMPARAÇÕES, Companhia das Ilhas, Lajes do Pico, Outubro de 2016

7.12.16

Canto final

Assim será. E se não for assim,
terá por certo algumas parecenças
com muitos dos que vão chegando ao fim,

agarrados ou não às suas crenças,
pois também como eles partirás,
mais dia menos dia e, olhando bem,

se vires o fica para trás:
tanto sonho acordado; outros, além
de superarem o que não previas,

atingiram o nó do pesadelo
repleto de incontáveis aporias
e com reais espectros a tecê-lo,

como um raio fatal, de supetão,
ou o canto final
da solidão.

Domingos da Mota

[inédito]

5.12.16

exercício mental

     a partir do poema exercício espiritual, de Mário Cesariny


é preciso dizer trigo em vez de dizer joio
é preciso dizer farinha em vez de dizer farelo
é preciso dizer bicicleta em vez de dizer comboio
é preciso dizer cabeça em vez de dizer cabelo

é preciso dizer outro em vez de dizer mesmo
é preciso dizer nome em vez de dizer número
é preciso dizer caminho em vez de dizer a esmo
é preciso dizer arguto em vez de dizer energúmeno

Domingos da Mota

[inédito]

4.12.16

THEREZA

Sem apelo
               no vórtice do
dia no
abandono do chão na
lâmina da
luz feroz


             fora da vida


desfaz-se agora
a minha doída
desavinda companheira

Ferreira Gullar

Obra Poética, Quasi Edições, Outubro 2003

3.12.16

NOITE

Do chão onde ontem enterrei
a noite irrompe como um garfo,
noite de hoje que eu não conheço
e todavia já 
noite velha que sei de cor.

Como um gesto premeditado,
nasce assim devagar,
tão nacional e tão leve,
tão primaveril pelas esquinas,
tão cheia de gatos nos telhados,
tão sem sono por ela adiante,
pequena noite habitual e casta
ligada ao dia por minúsculos grãos de café,
cores, vidros e frágeis cordões de fumo,
mas no entanto e sempre
tão principalmente noite.

José Manuel Simões

SOBRAS COMPLETAS, Prefácios de Helder Macedo e José de Sá Caetano, abysmo, Lisboa, Outubro 2016

1.12.16

[Um homem duplo cego]

Um homem duplo cego
aposta o limite. Um homem que se preze
presume uns degraus abaixo
do limiar de pobreza. Um homem
a ver gente vencida pelo silêncio,
a morrer aos bocados.
Um homem à beira
do fim.

Rui Baião

LADRADOR, Averno / 2012

30.11.16

MAL DE PÁTRIA

Se temos nove dez poetas
à escala europeia
ou só quatro ou mesmo  talvez
com muito boa vontade três

aflige-me bastante menos
que o problema do Serra:

quantas queijeiras restam
fiéis à rude bordaleira?
para onde vai Portugal?

                                                1985

Fernando Assis Pacheco

A MUSA IRREGULAR, Assírio & Alvim, Lisboa, Novembro 2006

28.11.16

a mesmíssima rua

a mesmíssima rua
a mesmíssima esquina
a velhíssima lua
a novíssima menina

a mesmíssima atmosfera
a mesmíssima aragem
a novíssima espera
a velhíssima abordagem

Domingos da Mota

[inédito]

27.11.16

fragmento primeiro

I


De que te vestes, corpo
a bando nado
da luz no teu país. De que te cobres?
Esquecido na água e sem
leitura. De que lado
passarás a viver
(ou, transigindo,
de que lado 
passarás a morrer, a clarear)?

Nuno Guimarães

OS CAMPOS VISUAIS, Iniciativas Editoriais, Lisboa, Maio de 1973

26.11.16

exercício espiritual

É preciso dizer rosa em vez de dizer ideia
é preciso dizer azul em vez de dizer pantera
é preciso dizer febre em vez de dizer inocência
é preciso dizer o mundo em vez de dizer um homem

É preciso dizer candelabro em vez de dizer arcano
é preciso dizer Para sempre em vez de dizer Agora
é preciso dizer O Dia em vez de dizer Um ano
é preciso dizer Maria em vez de dizer aurora

Mário Cesariny

CESARINY  UMA GRANDE RAZÃO, Assírio & Alvim, Lisboa, Março de 2007

24.11.16

A um ti que eu inventei

Pensar em ti é coisa delicada.
É um diluir de tinta espessa e farta
e o passá-la em finíssima aguada
com um pincel de marta.

Um pesar grãos de nada em mínima balança,
um armar de arames cauteloso e atento,
um proteger a chama contra o vento,
pentear cabelinhos de criança.

Um desembaraçar de linhas de costura,
um correr sobre lã que ninguém saiba e oiça,
um planar de gaivota como um lábio a sorrir.

Penso em ti com tamanha ternura
como se fosses vidro ou película de loiça
que apenas com o pensar te pudesse partir.

António Gedeão

POEMAS ESCOLHIDOS, Antologia Organizada pelo Autor, Edições João Sá da Costa, Lisboa, Novembro de 1999

23.11.16

por entre os pingos da chuva/2

há quem tente passar, sem se molhar,
entre os pingos da chuva, sorrateiro:
se acaso a tentativa resultar,
bem que pode mostrar-se prazenteiro
no meio da borrasca, e gabar-se
de sol na eira e chuva no nabal,
e mesmo, que sei eu, vangloriar-se
debaixo do intenso temporal;
mas se for uma queda de granizo,
as pedras do tamanho dalguns ovos,
se quem tenta passar tiver juízo,
abriga-se, qual seja sob um toldo
até que a graúda saraivada
se transforme nuns pingos, e mais nada.

Domingos da Mota

[inédito]

22.11.16

motete sobre comentários

não te beijo o coração
(no coração não dou beijos)
e nem mesmo a tua mão
oscularei; nos ensejos

para beijar, beijarei
os teus lábios, o teu rosto
e onde quer que eu sei
que tu gostas e eu gosto.

imagina só abrires
o teu peito no bloco
operatório e fruíres
do meu beijo aí, in loco,

no coração: que diriam
desse beijo arriscado
o próprio cirurgião
e o anestesista ao lado?

Domingos da Mota

[inédito]

21.11.16

por entre os pingos da chuva

por entre os pingos da chuva, há quem tente
passar sem se molhar, e arriscar-se
a ficar encharcado, totalmente,
mormente quando ousa associar-se
a deus e ao diabo, feitos gente,
e cutucando a fúria dos contrários,
exiba o sorriso, astutamente --
a máscara ideal durante os vários
momentos de esquivar-se, porque sim,
ensejos de eximir-se, porque não,
alturas de manter-se assim-assim,
passando como se camaleão
no meio da borrasca: (enxuto?, plácido?),
por muito que os pingos sejam ácidos

Domingos da Mota

[inédito]

20.11.16

[Divido o fruto, a palavra dióspiro:]

Divido o fruto, a palavra dióspiro:
deus, na outra metade, o fogo. Sustém
a navalha, o gesto de talhar o garfo.
Observa os dióspiros, espantado: deus,
deus e o fogo, sabedoria dos gregos,
diante dos olhos em transitória nave.

Francisco Duarte Mangas

A FOME APÁTRIDA DAS AVES, Edição Modo de Ler

16.11.16

Os inquiridores

Está o mundo coberto de piolhos:
Não há palmo de terra onde não suguem,
Não há segredo de alma que não espreitem
Nem sonho que não mordam ou pervertam.

Nos seus lombos peludos se divertem
Todas as cores que, neles, são ameaças:
Há-os castanhos, verdes, amarelos,
Há-os negros, vermelhos e cinzentos.

E todos se encarniçam, comem todos,
Concertados, vorazes, no seu tento
De deixar, como restos de banquete,
No deserto da terra ossos esburgados.

José Saramago

Os Poemas Possíveis, Editorial Caminho, Outubro de 1998

13.11.16

OS DOIS

Eu sou dois seres. 
O primeiro é fruto do amor de João e Alice.
O segundo é letral:
É fruto de uma natureza que pensa por imagens,
Como diria Paul Valéry.
O primeiro está aqui de unha, roupa, chapéu
e vaidades.
O segundo está aqui em letras, sílabas, vaidades
frases.
E aceitamos que você empregue o seu amor em nós.

Manoel de Barros

POEMAS RUPESTRES, Editora Record, Rio de Janeiro . São Paulo, 2004

12.11.16

Atrás da sombra outra sombra

Atrás da sombra outra sombra
segue a sombra que indicia
o lusco-fusco, a penumbra
que se abatem sobre o dia
pardacento, agora escuro,

pois com a noite a surgir,
a levantar outro muro,
que também há-de cair,
apesar da sombra espessa
e do arame farpado

que se vinca na cabeça
do horizonte empolado
pelos ares que ora sopram
de vento em popa
e galopam

Domingos da Mota

[inédito]

10.11.16

Onfaloscopia

O seu umbigo é o centro
do mundo    do universo
visto por fora ou por dentro
do direito       ou do avesso:

e sendo o centro do mundo
sempre que gira    rodando
soberbamente            rotundo
onde quer que esteja e quando

é sem dúvida        o maior
dos umbigos e  tão grande
que o universo    em redor
do seu umbigo se expande

Domingos da Mota

[inédito]

9.11.16

Transtorno delirante

Agora que o transtorno delirante
ameaça o presente e o futuro,
sendo o peso pesado do instante,
no prato da balança, um sinal duro,
mais denso que o ósmio e o irídio,
quando cisma e pondera percorrer
o percurso fatal do suicídio,
sem que ninguém suspeite ou possa ter
qualquer interferência no seu acto
de pura lucidez ou de loucura,
que transforme em concreto o abstracto
duma ideia maligna, turva, escura,
que dizer ou fazer, fazer de facto
que ouse demover o que se augura?

Domingos da Mota

[inédito]

[o ódio sopra uma bolha de desespero na]

o ódio sopra uma bolha de desespero na
vastidão do sistema do mundo do universo e explode
-- o medo enterra um amanhã sob o desgosto
e o ontem chega mais verde e jovem

o prazer e a dor são apenas aparências
(um a si se mostrando, a si se escondendo outro)
o único e verdadeiro valor da vida nenhum é
o amor faz a pequena diferença das coisas

e se aqui vier um homem para receber da senhora morte
o agora sem nunca e a primavera sem inverno?
ela tecerá esse espírito com os seus próprios dedos
e dar-lhe-á nada (se ele não cantar)

como há tanto mais do que o suficiente para nós os dois
querida          E se eu cantar tu és a minha voz,

E.E. Cummings

livrodepoemas, tradução, introdução e notas Cecília Rego Pinheiro, Assírio & Alvim, Lisboa, Junho 1999

7.11.16

Avidez

Anda ver o deus banqueiro
Que engana à hora e que rouba ao mês
Há milhões no mundo inteiro
O galinheiro é de dois ou três

José Afonso


Esta camisa-de-forças,
Chicote de sete varas,
Não é coceira que possas
Aliviar sem escaras

Pois são tantas as feridas
Abertas, vendo o vergão
Nas costas submetidas
Debaixo da servidão,

Que mesmo que te revoltes
E com tal rebelião
Se atrofie entrementes
O olho do furacão,

A avidez, de olhar agudo,
Olhos de lince mordaz,
Afia as garras e tudo
Esfola, deixando atrás

Da sua voracidade,
De tanta sofreguidão
E perversa opacidade,
A cruel devastação.

Basta ver os dois ou três
Galos deste galinheiro,
Para ouvir cantar os donos
Que mandam no mundo inteiro.

Domingos da Mota

5.11.16

Se pelo menos

Se pelo menos falasse
com algum dos seus botões;
e o botão perguntasse
por que razão ou razões
esse rosto sorumbático,
melancólico, soturno
e o sobrolho cismático
e o olhar taciturno?
Qual a causa do mutismo?
Apatia? Pavor? Medo?
Lucidez ou pessimismo?
Nem sequer, tão-pouco um dedo
levanta, ou vice-versa,
para início de conversa.

Domingos da Mota

[inédito]

3.11.16

Quando a bunda

     Esferas harmoniosas sobre o caos.

       Carlos Drummond de Andrade


Quando a bunda bamboleia,
balanceia devagar,
uma doce melopeia,
como canto de sereia,
não pára de estimular;

e sendo a bunda abundante
em requebros e meneios,
redonda e palpitante,
excitada e provocante
com os seus saracoteios,

uma bunda que desbunda
e rebola de prazer,
sabidamente rotunda,
numa cadência jucunda,
essa bunda a bem dizer

alardeia como um espelho
onde podes ver o mundo
a girar, mesmo que velho,
numa avenida ou num quelho,
visivelmente rotundo.

Domingos da Mota

[inédito]

2.11.16

OS OLHOS DAS CRIANÇAS

Estes olhos vazios e brilhantes
que na criança se abrem para o mundo,
não amam,
não temem,
não odeiam,
não sabem como a morte existe.

São terríveis.
Porque a vida é isto.

O amor, o medo, o ódio, a mesma morte,
e este desejo de possuir alguém,
os aprendemos. Nunca mais olhamos
com tal vazio dentro das pupilas.

São terríveis.
Porque a vida é isto.

1963.

Jorge de Sena

PEREGRINATIO AD LOCA INFECTA, 70 POEMAS E UM EPÍLOGO, Portugália Editora, Lisboa, Setembro de 1969

1.11.16

O sobrolho

Quando olho para ti, 
e tu olhas para aquele
que vagamente sorri,

se me sentisse na pele
dessoutro que nunca vi
antes da tua atenção

ser presa por quem de ti
quererá (ou talvez não),
mais que a troca de olhares,

uma troca de favores
e quefazeres invulgares,
sem cuidar dos dissabores,

quando olho para ti
e pelo canto do olho
observo o teu olhar,

vejo o muito que perdi.
Quanto a franzir o sobrolho,
fá-lo-ei noutro lugar.

Domingos da Mota

[inédito]

30.10.16

Olhar

Olhar redondo:
e o seu olhar
vai decompondo
o que abarcar

redondo e meigo
afectuoso
sempre que o leigo
for amoroso

mas se não for
for um malvado
tanto ou pior
que um cão danado

irrompe a ira
cresce o rancor
olhar que vira
ameaçador

como um fuzil
ou um relâmpago:
olhar hostil
feroz e quanto

Domingos da Mota

[inédito]

29.10.16

Tentativa e erro

Tentativa e erro: quantos passos
em falso sobre o fio da navalha?
E o percurso a seguir que não atalha
dúvidas, incertezas, embaraços;
e novas tentativas e mais erros
em busca da razão dos descaminhos
que provocam e conduzem a severos
deslizes, contratempos, desalinhos:
se durante a pesquisa o resultado
aparecer de súbito, um acaso
onde não se previa, mas ao lado,
bendito seja o erro que der azo
a nova descoberta ou nova busca,
que por muito que brilhe, não ofusca.

Domingos da Mota

[inédito]

28.10.16

OS DOIS POETAS

Na cidade branca
Entre as migalhas de pão
Habitam dois poetas
O primeiro é negro -- lua quebrada
De que as baleias procuram os restos

O outro é branco -- tal uma criança
Dorme todas as noites
Com uma serpente negra

Adonis

O Arco-Íris do Instante, Antologia Poética, Introdução, selecção e tradução de Nuno Júdice, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Outubro de 2016

27.10.16

CARTA A ADONIS, POETA SÍRIO-LIBANÊS

5.

Querido Adonis, trouxeram-me um retrato
              teu, pescado na Internet.
Não há um corte --
entre a tua poesia e o que promete
              a tua imagem é palavra cortada
à feição, como a fruta
              que incita ao roubo.
Um borrifo de Deus  --
               e o mais desassombro.

António Cabrita

Combate de Flautas, &etc, Lisboa, Setembro de 2003

23.10.16

olho

olho que olha
e que desolha
e que malmolha
não me antolha:

olho de lince
de olhar arguto
olho de águia
veloz e agudo

olho que límpido
olho que lúcido
olho que lírico
olho que lúbrico

olho que é
astigmático
de olhar concreto
de olhar abstracto

Domingos da Mota

[inédito]


21.10.16

NATUREZA VIVA COM CEREJAS

Vou morder as cerejas dos teus lábios,
carnudas como o sangue das amoras,
degusto-as sumarentas, são os bagos
dos beijos que te dou, mesmo a desoras

Com a pele ofegante dos teus poros
inebrio de mosto as minhas uvas
e o fogo crescente dos dióspiros
(e as línguas maduras, de tão rubras)

e as laranjas e as nozes, todo o fruto
que eu possa colher no teu pomar,
corpo aceso do tempo que desfruto
(apesar de jamais me saciar):

e devoro por fim tua maçã,
meu amor, minha estrela da manhã

Domingos da Mota

Bolsa de Valores e Outros Poemas, Temas Originais, Coimbra, 2010

19.10.16

A avó

Tinha ao colo o gato velho
cansadamente passando
a sua branca mão pelo
pêlo dele preto e brando

Sentada ao pé da janela
olhando a rua ou sonhando-a
todo o passado passando
a passos lentos por ela

Dormiam ambos enquanto
a tarde se ia acabando
o gato dormindo por fora
a avó dormindo por dentro

Manuel António Pina

OS LIVROS, Assírio & Alvim, Lisboa, Novembro 2003