23.10.13

Pois eu gosto de tripas

Pois eu gosto de tripas, oh, se gosto,
em boa companhia ou sozinho,
mas à moda do Porto. Não desgosto
do arroz de sarrabulho que no Minho

acompanha os rojões para prazer

de quem  quer degustar o que mastiga;
o leitão à Bairrada pode ser
uma óptima escolha; há quem diga

que gosta do cozido à portuguesa

ou da vitela assada de Lafões
ou de peixe fresquíssimo na mesa
ou doutras saborosas opções.

Também digo que sim, que nisso alinho:

só falta escolhermos o tal vinho.

Domingos da Mota


[inédito]

a partir da leitura dos sonetos, respectivamente, de Vinicius de Moraes [Não comerei da alface a verde pétala], e de Vasco Graça Moura [pois eu gosto de lombo e feijoada], no mural da Prof. Doutora Maria Alzira Seixo, no Facebook

6.10.13

Meditação íntima do Infante D. Fernando sobre Ceuta e a sua vida

"De honra e fé atapetaram
os verdugos meus passos. As razões
de estado me pedem santidade;
a burocracia espera apenas a data
para me erguer altar.
A tudo assisto
com ironia e distância enquanto
minha vida lentamente passa.

Que Deus me dê paciência e raios
levem esta maldita praça!"

Alberto Soares

(Arquivo Mortal, 2013)

colhido no blogue Arpose, em Notas de Leitura VI: Sobre a poesia de Alberto Soares, de HN)

2.10.13

Filosofia Política

Estou farto da poesia
como se renda de bilros:
tricotada bonitinha
a alancear a vidinha
com porosos atavios

e mesuras timoratas
amarrotadas sem viço
cabisbaixa de alpargatas
e de olhos sempre de gatas
entre a dor e o derriço.

Ai do lirismo que arrima
e nem é carne nem peixe
pois um poema sem espinha(s)
virgulado picuinhas
é bem melhor que se deixe

de mergulhar no mar alto
no abismo dos sentidos
de atravessar o asfalto
de voar de ir a salto
pra mundos desconhecidos.

O poema deve ser
uma pedra no caminho
com as sílabas a arder -
língua de fogo a crescer
e a morder até ao imo.

Mas se a mão o largar
numa toada vazia
desenfreada frenética
há que suster a poética -
e soltar a poesia.

Poetas abaixo a rima
(se ela for a prisão
onde o poema definha).
Estou farto de poesia
que não é libertação.

Domingos da Mota

(revisto)

a partir de poemas: de Carlos Drummond de Andrade e de Manuel Bandeira