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16.12.17

TRESPASSE

1.


Ainda corri à janela. Já só lhe apanhei a saia
plissada a entrar no autocarro,
fechava-se-lhe a porta
hidráulica nas costas.
E o telemóvel sem bateria,
como avisá-la de que se enganou
e levou a minha pele?
Revisto-me da dela, aguardo.
A sua nudez retempera-me.
Ponho um cd do John Surman,
não há-de ser grave e de alergia
provámos esta noite estarmos vacinados.
Qual dos corações me pulsa
no céu da boca?

António Cabrita

Anatomia Comparada dos Animais Selvagens, Coisas de Ler Edições, Lda., Setembro de 2017

27.10.16

CARTA A ADONIS, POETA SÍRIO-LIBANÊS

5.

Querido Adonis, trouxeram-me um retrato
              teu, pescado na Internet.
Não há um corte --
entre a tua poesia e o que promete
              a tua imagem é palavra cortada
à feição, como a fruta
              que incita ao roubo.
Um borrifo de Deus  --
               e o mais desassombro.

António Cabrita

Combate de Flautas, &etc, Lisboa, Setembro de 2003

21.9.15

CARTA A ADONIS, POETA SÍRIO-LIBANÊS

7.

Adonis: são remos os ciprestes?
            Ou os pulmões de um louco?
O "barbeiro" que me içou a vela
             no mastro das dores,
e me encheu a boca
de forragem destinada a animais,
não voltou a aparecer. Mas é
diabo a quem devo, tatuado
              no sangue,
o genoma
destes versos de Hakim Sanai:
«Toda a existência é simplesmente 
               o vento a teu favor!»

António Cabrita

COMBATE DE FLAUTAS, & etc, Lisboa, Setembro de 2003