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12.4.26

ESTRATÉGIAS

1.


Água
pedras (sem arestas)
artefactos de cerâmica
espátulas de madeira

tersórios
esponjas marinhas

folhas de couve
conchas
pescoços de ganso
(os preferidos de Rabelais)
rolos de papel


2.

Na falta de papel
até um poema serve


Jorge Sousa Braga


A Flor Cadáver e Outros Poemas, Assírio & Alvim, Setembro de 2024

7.10.24

O GUARDADOR DE RETRETES

É uma profissão em desuso
Fornecia as chaves do WC

e papel higiénico (por uma moeda)
e assegurava a limpeza

das instalações sanitárias
O mais humilde dos ofícios

Não conheço outro
de que tanto se aproxime

o ofício de poeta


Jorge Sousa Braga

A Flor Cadáver e Outros Poemas, Assírio & Alvim, Setembro de 2024:42

26.4.24

AVENIDA DA LIBERDADE

Embora nunca tenha descido
a pé a Avenida da Liberdade
no dia 25 de Abril
todos os anos desço a pé
a Avenida da Liberdade
no dia 25 de Abril
segurando um cartaz que
só os cegos conseguem ler
gritando palavras de ordem
que só os surdos conseguem ouvir
Embora nunca tenha descido
a pé a Avenida da Liberdade
no dia 25 de Abril
todos os anos desço a pé
a Avenida da Liberdade
no dia 25 de Abril
ou é a avenida que desce em mim
ou a liberdade que desce a avenida
que há em mim
Continuarei a descer a pé
todos os anos
a Avenida da Liberdade
no dia 25 de Abril
mesmo que não haja avenida
mesmo que eu já não esteja
nesta vida


Jorge Sousa Braga

in https://facebook.com/jorge.s.braga - 25 de Abril de 2024

10.5.20

MULHERES E ÁRVORES

Quando as árvores começam a vestir-se
as mulheres começam a despir-se
Quando as árvores começam a despir-se
as mulheres começam a vestir-se

Jorge Sousa Braga

A Matéria Escura e Outros Poemas, Assírio & Alvim, Porto Editora, Março  de 2020

8.10.19

ESPANTA-ESPÍRITOS

Neve sândalo ranúnculo
porcela madrepérola
bambu
eis as palavras de que se precisa

Depois
é só deixar correr a brisa

Jorge Sousa Braga

O POETA NU [poesia reunida], Assírio & Alvim, Junho 2007

5.7.14

COMPRIMIDO VI

Erva daninha


Não tiveste ainda tempo de
comemorar a vitória sobre
a corriola e já estás de novo
em guerra agora com o escalracho
Preocupado com as beringelas
os tomates os pepinos de conserva
é uma luta inglória a que se
prenuncia A essa erva
outra se seguirá nem que seja
a mais daninha das ervas
- a poesia

Jorge Sousa Braga

A BULA, Correio do Porto, Julho de 2014

23.5.12

SALMO

Não foi por mim que deixaste que te  pendurassem na cruz
não foi por mim
que te deixaste matar
Não foi por mim que deixaste que te insultassem e cuspissem
não foi por mim
que morreste
Ninguém se deixa matar assim
para cumprir a vontade do pai
- Pai Pai faça-te a tua vontade! -
Ninguém se deixa matar assim
porque um dia alguém se lembrou de oferecer uma maçã...
Não sei quantas maçãs já me ofereceste
sem que um anjo com uma espada de fogo viesse para nos expulsar
do nosso apartamento de três assoalhadas
Não foi por mim que tu morreste
e ressuscitaste ao terceiro dia
É uma herança demasiada pesada
para se deixar a alguém
que só viria a nascer dois mil anos depois
e cujo único pecado foi nascer
Não foi por mim nem por ti nem por ninguém
que tu morreste
e continuas a morrer todos os dias
Há quem não saiba fazer outra coisa senão morrer
e voltar a morrer
Nem a vontade do Pai te serve de alibi
Não foi por mim que tu morreste
embora eu seja capaz de morrer por ti

Jorge Sousa Braga

O NOVÍSSIMO TESTAMENTO e outros poemas, Assírio & Alvim, Lisboa, Abril de 2012

2.5.12

NOCTURNO DO PORTO

Rosas amarelas e vermelhas
e sem cheiro
vagueiam no nevoeiro

Jorge de Sousa Braga

FOGO SOBRE FOGO, Fenda Edições, Lda., Lisboa, Fevereiro de 1998

14.4.12

LADAINHA

Concha perfumada
Pórtico real
Princesa das flores
Porta misteriosa
Pérola vermelha
Coração de peónia
Pegada de gazela
Pórtico de jade
Palácio de púrpura
Delta negro
Pote de mel
Botão de lótus
Gruta de canela
Porta alada
Flor da lua

Rogai por nós

Jorge Sousa Braga

A FERIDA ABERTA, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio 2001

8.3.12

MULHER

Metade mulher  metade pássaro
Metade anémona  metade névoa

Metade água  metade mágoa
Metade silêncio  metade búzio

Metade manhã  metade fogo
Metade jade  metade tarde

Metade mulher  metade sonho

Jorge Sousa Braga

A FERIDA ABERTA, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio 2001

28.12.11

BOLETIM METEREOLÓGICO

Céu muito nublado  vento
fraco moderado de sudoeste

soprando forte nas terras
altas  aguaceiros em especial

nas regiões do Norte e Centro
e que serão de neve nos

pontos mais altos da Serra
da Estrela  e no teu coração.

Jorge Sousa Braga

PORTO DE ABRIGO, Assírio & Alvim, Lisboa, Novembro 2005

8.10.11

DIÓSPIROS

Há frutos que é preciso
acariciar
com os dedos com
a língua

e só depois
muito depois

se deixam morder

Jorge Sousa Braga

O POETA NU [poesia reunida], Assírio & Alvim, Lisboa, Junho de 2007