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5.10.21

Fernando Echevarría (1929-2021)

Abstraído. Mas todo, corpo de si no pulso,
campeia além de si e a si estranho.
A luz, à volta, cumpre só vir do susto
de ver-se, de repente, separado
do outro corpo de jacência, mudo,
e onde ainda reinaria o espaço.
Que aqui tudo é primeiro. Ou tudo último.
Porque o tempo ficou naquele lado
em que se conta o percurso
por pontos sucessivos do seu trânsito.
Agora, somos prumo.
Vultos duríssimos durando,
com todo o corpo fora de nós. No pulso
que descobre outros em sua luz de espanto.


Fernando Echevarría

Sobre os Mortos, Edições Afrontamento, Porto, 1991

26.2.20

A NOITE NOS ACENDE MOVIMENTOS

A noite nos acende movimentos
luminosos. E ampla se diria
ou paz, se não mover-nos
abrisse dentro da brisa.
Mas mesmo que o silêncio
nos alongue a memória e as axilas
respirem o que vemos,
a custo vemos crescerem às pupilas
os vasos de irem vendo
a inclinação das coisas esquecidas.

Fernando Echevarría

POESIA, 1956-1979, Edições Afrontamento, 1989

8.1.17

Chamaremos umbral

Chamaremos umbral o lugar de onde,
inteiramente nus enfim, partimos.
Sendo partir ir gravitar, conforme
o núcleo poderoso de vazio
acenda, desde longe,
o apelo de destino.
Que tudo canta, ou sofre,
desde essa densidão de corpo antigo
que chega a ciência quando se eleva um nome
do nome que o havia precedido.
E, assim, amarmos, sobe da lei. Comove
o peso de substância e o do olvido
com que a sombra persegue e intensifica a fome
de corpos violentos e sombrios.
Até encostarmos o ouvido à morte.
E ver seu nome de si, enfim, despido.

Fernando Echevarría

SOBRE OS MORTOS, Edições Afrontamento, Porto, 1991

26.2.15

DESCOBRIREMOS O NOSSO MOVIMENTO

Descobriremos o nosso movimento
quase uma folha,
ou quase uma pupila
que se inclinasse e só nos desse o tempo
de uma sombra passar e entrar no olvido.
Mas, sobretudo, veremos
pensar-se um ar antigo
que vem ao movimento
quando mover-se nem sequer é escrito.

Fernando Echevarría

POESIA, 1956-1979 - SOBRE AS HORAS [1963], Edições Afrontamento, Porto, 1989

1.10.14

[Invisível flor. Mas quase]

Invisível flor. Mas quase
que à tona de vir de dentro,
a apetência mental abre
seu espaço de silêncio.
Que um curto perfume, ou árvore
se turbem, o pensamento
pode, torrencial, espraiar-se
sobre a língua. Um halo esplêndido
ficará brilhando, quase
que flor íntima de texto.
Flor invisível que sabe
ser feliz no seu silêncio. 

Paris, 1985

Fernando Echevarría

Olhos de Orfeu, DOZE POETAS DO PORTO, Associação dos Jornalistas  e Homens de Letras do Porto, organização e prefácio de António Roberval Miketen, Dezembro de 1985