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20.4.22

SOB UM QUADRO

Onda de trigo por bandos de corvos invadida.
Azul de que céu? Do de baixo? De cima?
Flecha tardia, desde a alma despedida.
Zumbido mais forte. Ardor mais próximo. Dois mundos.

Paul Celan

Não Sabemos mesmo O Que Importa - Cem Poemas
, Tradução e Posfácio de Gilda Lopes Encarnação, Relógio D'Água Editores, Outubro de 2014

20.4.21

Nos rios / In den Flüssen

NOS RIOS a norte do futuro
lanço a rede, que tu
hesitante carregas com
sombras
escritas por pedras.

*

IN DEN FLÜSSEN nördlich der Zukunft
werf ich das Netz aus, das du
zögernd beschwerst
mit von Steinen geschriebenen
Schatten.



Paul Celan

Não Sabemos mesmo O Que Importa - Cem Poemas
, Tradução e Posfácio de Gilda Lopes Encarnação, Relógio D'Água Editores, Outubro de 2014

27.1.21

Paisagem

PAISAGEM com seres-urna.
Conversas
de boca de fumo para boca de fumo.

Eles comem:
a trufa-demente, um pedaço
de poesia não soterrada,
encontrou língua e dente.

Uma lágrima corre de volta para o seu olho.

A metade esquerda, órfã
da vieira -
ofereceram-ta,
depois ataram-te -
ilumina o espaço à escuta:

o jogo de tijolos contra a morte
pode começar.

Paul Celan

Não Sabemos mesmo O Que Importa - Cem Poemas, Tradução e Posfácio de Gilda Lopes Encarnação, Relógio D'Água Editores, Outubro de 2014

20.4.20

Mundo

MUNDO
a tactear-te: interroga
os seus pontos duros,

a amêndoa cercada de pregos: junto dele
assegura-te
que voltas a ti, pelas tuas
margens sensíveis à luz.


Paul Celan

A Morte É Uma Flor, Poemas do Espólio, Tradução, posfácio e notas de João Barrento, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, 1998


7.1.17

O OUTRO

Feridas mais fundas do que em mim
abriu em ti o silêncio,
estrelas maiores
enredam-te na rede dos seus olhares,
cinza mais branca
repousa sobra a palavra em que acreditaste.

Paul Celan

A MORTE É UMA FLOR, POEMAS DO ESPÓLIO, Tradução, posfácio e notas de João Barrento, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, 1998

20.4.16

RETRATO DE UMA SOMBRA

Os teus olhos, rasto de luz dos meus passos;
a tua testa, lavrada pelo brilho dos punhais;
as tuas sobrancelhas, orla do caminho da tragédia;
as tuas pestanas, mensageiros de longas cartas;
os teus cabelos, corvos, corvos, corvos;
as tuas faces, campo de armas da madrugada;
os teus lábios, hóspedes tardios;
os teus ombros, estátua do esquecimento;
os teus seios, amigos das minhas serpentes;
os teus braços, álamos à porta do castelo;
as tuas mãos, tábuas de juras mortas;
as tuas ancas, pão e esperança;
o teu sexo, lei do fogo na floresta;
as tuas coxas, asas no abismo;
os teus joelhos, máscaras da tua altivez;
os teus pés, campo de batalha dos pensamentos;
as tuas solas, criptas em chamas;
as tuas pegadas, olho da nossa despedida.

Paul Celan

A MORTE É UMA FLOR, Poemas do Espólio, Tradução, posfácio e notas de João Barrento, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, 1998

21.8.14

SALMO

Ninguém nos moldará de novo em terra e barro,
ninguém animará pela palavra o nosso pó.
Ninguém.

Louvado sejas, Ninguém.
Por amor de ti queremos
florir.
Em direcção
a ti.

Um Nada
fomos, somos, continuaremos
a ser, florescendo:
a rosa do Nada, a
de Ninguém.

Com 
o estilete claro-de-alma,
o estame ermo-de-céu,
a corola vermelha
da purpúrea palavra que cantámos
sobre, oh sobre
o espinho.

Paul Celan

SETE ROSAS MAIS TARDE, Antologia Poética, Edição Bilingue, Selecção, tradução e introdução de João Barrento e Y. K. Centeno, Edições Cotovia Lda., Lisboa, 1996