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29.1.15

EUGÉNIO

Trouxe para as névoas da cidade
o ouro dos trigais, a brancura 
da cal que os mouros deixaram
por herança, como a nora
que sempre deu água ao seu moinho.
Percorreu as ilhas da história para
britar a pedra, esmiuçar os alicerces,
começando a amar as maresias,
a areia suave, as luzes das arribas,
e quando o coração se lhe partia
escrevia um poema onde o sol
entrava pelos ossos, dourava a saudade
e punha as aves negras a voarem
para longe, estrelas do desgosto
que as nuvens arrastavam para fora
do horizonte. As cintilações
de Setembro reverdecem
o que a memória decantou, o mar
a que a errância da memória
sempre volta. Folhas secas
aparentes formam um tornado
luminoso que bate à sua porta.
E a porta abre-se: O mar está ali.

Egito Gonçalves

Entre mim e a minha morte há um copo de crepúsculo, Campo das Letras - Editores, S. A., Porto, Fevereiro de 2006

14.9.12

[Não crispes o desespero]

Não crispes o desespero
com os dedos,
nada crepite
à flor da pele.

És um burguês altivo,
dominador, seguro;
mantém o retrato
bem iluminado.

Guarda o que sentes
entre as costelas,
nem o hálito enrugue
o vinco das calças,
os álgidos rebuços.

Se tudo cai ao lado
reforça a couraça...
peneiradas as dúvidas
fragmenta-as na cinza.

Que ninguém pressinta
que os escombros são teus.

Egito Gonçalves

O FÓSFORO NA PALHA, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Abril de 1970