Não é fácil ser poeta o tempo inteiro.
Eu, por exemplo, nem cinco minutos
por dia, pois levanto-me tarde e primeiro
há que lavar os dentes, suportar os incisivos
à face do espelho, pentear a cabeça e depois,
a poeira que caminha, o massacre dos culpados,
assistir de olhos frios à refrega dos centauros.
E chegar à noite a casa para a prosa do jantar,
o estrondo das notícias, a louça por lavar.
Concluindo, só pelas duas da manhã
começo a despir o fato de macaco, a deixar
as imagens correr, simulacro do desastre.
Mas entretanto já é hora de dormir.
Mais um dia de estrume para roseira nenhuma.
José Miguel Silva
ÚLTIMOS POEMAS, Averno, Junho de 2017
29.7.17
19.7.17
Poemas Quotidianos
10
Depois das 7
as montras são mais íntimas
A vergonha de não comprar
não existe
e a tristeza de não ter
é só nossa
E a luz
torna mais belo
e mais útil
cada objecto
António Reis
Poemas Quotidianos, Prefácio Fernando J. B. Martinho, Posfácio Joaquim Sapinho, Lisboa, Tinta-da-China, Julho de 2017
12.7.17
A vida de cada um
A vida de cada um
tem duas eras:
antes
e depois
da morte da Mãe
Teresa Rita Lopes
CICATRIZ, Editorial Presença, Lisboa, 1996
tem duas eras:
antes
e depois
da morte da Mãe
Teresa Rita Lopes
CICATRIZ, Editorial Presença, Lisboa, 1996
6.7.17
Quarto de hotel
a partir do poema diana no banho, de Vasco Graça Moura
O chape-chape
bem que se ouvia:
alvoroçado,
descompassado,
era, seria
talvez o banho
de quem no quarto
de banho ao lado
estivesse a arder
e se acalmasse
com água fria;
arrepiado,
sobreexcitado,
não era um baque,
era, diria,
banho gelado,
ao fim do dia.
Fosse Diana,
Sara ou Inês,
pelo ouvido,
um grito agudo
ou dois ou três,
digo, diria
que se banhava,
molhava tudo:
(como gemia).
Quem dera vê-la
nessa banheira.
Mas só podia
imaginá-la
em pêlo, nua,
branca ou trigueira,
em carne viva,
como se fosse
brasa contígua
do fogo erecto
que exasperado
subia ao tecto.
Domingos da Mota
PIOLHO 021 [REVISTA DE POESIA], Edições Mortas, Black Sun editores, Abril 2017
O chape-chape
bem que se ouvia:
alvoroçado,
descompassado,
era, seria
talvez o banho
de quem no quarto
de banho ao lado
estivesse a arder
e se acalmasse
com água fria;
arrepiado,
sobreexcitado,
não era um baque,
era, diria,
banho gelado,
ao fim do dia.
Fosse Diana,
Sara ou Inês,
pelo ouvido,
um grito agudo
ou dois ou três,
digo, diria
que se banhava,
molhava tudo:
(como gemia).
Quem dera vê-la
nessa banheira.
Mas só podia
imaginá-la
em pêlo, nua,
branca ou trigueira,
em carne viva,
como se fosse
brasa contígua
do fogo erecto
que exasperado
subia ao tecto.
Domingos da Mota
PIOLHO 021 [REVISTA DE POESIA], Edições Mortas, Black Sun editores, Abril 2017
3.7.17
MIOPIA
São a janela para a alma, tu disseste, esses olhos;
e que dizes agora, quando a luz os esculpe,
células se dispersam, e a miopia parece sonho,
cortina, sombra de sombra, velo que a luz
fez violentar, lembrado apenas?
Eu atravesso a estrada sem óculos;
da ciência, a sua crença recuperada.
Tu acenas, nitidamente.
Luís Quintais
A NOITE IMÓVEL, Assírio & Alvim, Março de 2017
e que dizes agora, quando a luz os esculpe,
células se dispersam, e a miopia parece sonho,
cortina, sombra de sombra, velo que a luz
fez violentar, lembrado apenas?
Eu atravesso a estrada sem óculos;
da ciência, a sua crença recuperada.
Tu acenas, nitidamente.
Luís Quintais
A NOITE IMÓVEL, Assírio & Alvim, Março de 2017
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