20.2.14

Coronariografia

Fosse matéria de amor
o que aperta as coronárias,

soma d'ódio com angor,
mas as causas tantas, várias,

serão outras, mais perversas
(e pior que o espessamento

é ver o tempo às avessas
a tracejar o destempo):

se depois do angiotac,
dos ateromas profusos,

da lipotimia, do baque
e dos sintomas difusos,

após o cateterismo,
a longa prova de esforço,

o eco-doppler preciso,
te penduram ao pescoço

a ameaça de enfarte
(como se fora obra de arte):

será matéria de amor
ou de excesso de rigor?

Domingos da Mota

[revisto]

18.2.14

Soneto da tentação

Alude à fibra da sua.
Se for assim, corresponde
ao sinal que acentua
a tentação, quando e onde

o desejo acomete
e o perfume irradia
de tal modo que promete
uma agitada porfia.

Gostava de a abordar,
ou melhor, ir mais além,
ir mais fundo, mergulhar

lá onde a sua também
é capaz de sublevar
o delírio que sustém.

Domingos da Mota

[inédito]

9.2.14

E dás sobre o azul outra demão

Pintas de azul o sangue que circula
vermelho como o sol no coração;
pintas de azul o verde que acidula
e dás sobre o azul outra demão;

pintas de azul o tom da tua voz,
e sempre que te ouço divagar,
apetece pintar os que estão sós
com o vermelho vivo a rutilar;

pintas de azul segundos e minutos,
as horas e os dias: uma cor;
dos grandes aos miúdos, diminutos,

pintas de anil o júbilo e a dor;
pintas de azul as aves e os frutos;
pintas de azul o viço e o vigor.

Domingos da Mota

(inédito,
a partir da leitura do SONETO DO DESMANTELO AZUL, de Carlos Pena Filho)

2.2.14

Quatro elementos

Água, terra, fogo, ar,
água mole em pedra dura,
terra à vista diz no mar
quem enxerga o que procura,

o porto onde atracar
e fundear a barcaça:
água, terra, fogo, ar,
porto de abrigo que abraça

quem estiver, ou quem chegar
dos mundos que perseguiu
e, sem pressa, reparar
no que olhou, mas nunca viu.

Domingos da Mota

[inédito]

1.2.14

Epigrama

Quando dizes
que sim, que não,
que talvez,

não sentes
a língua a dobrar-se,
não vês?

Domingos da Mota

[inédito]