30/08/2013

Num tempo póstumo

Por vontade dela, todos os poetas 
Iam parar ao nono círculo, mordendo-se
No crânio, sôfregos de cérebro, num nexo
De egoísmo e raiva, inferno dos maldizentes.

Inflexíveis, ambiciosos, acirrados,
Presos das maxilas, ferozes como bestas
Disputando-se o lugar, cravados, montados
Como Ugolino no arcebispo Rogério.

E quando ela fizesse o percurso gelado, 
Guiada e apoiada pela mulher de Virgílio,
Eu gritava: "Meu amor, quem é o laureado
No nosso país verde lá em cima, qual a vida

Mais dedicada e exemplar?". Diria ela:
"Os meus ouvidos de viúva não atendem
Às notícias sulfurosas de poetas
E poesia. Não podias, no nosso tempo,

Libertar-te mais vezes, descer risonho
Do teu quarto, e passear comigo ao sol-pôr,
E com os teus filhos - como naquele serão 
De feno e flores, as rosas bravas já a murchar?"

E ainda (outro autor ferrando-me já a nuca):
"Não eras o pior. Ansiavas por um tacto
Afável e indiferente, tipo 'todos têm culpa'.
Primeiro nós, depois os livros, abandonaste."

Seamus Heaney

DA TERRA À LUZ poemas 1966 - 1987, Tradução, prefácio e notas de Rui Carvalho Homem, Relógio D'Água Editores, Janeiro de 1997

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