21.1.12

Retrato

No alto do pedestal,
o sr. S. é um sátrapa -
um mandarim feroz,
facundo, impositivo.
Cheio de mandamentos
quadrados e de
discursos cúbicos,
o sr. S. agita imperativos
categóricos. Com o dedo
espetado, o sr. S. ameaça.
De nariz apodíctico,
o sr. S. fareja.

O sr. S. é um crânio.
Um rato (fugaz)
de biblioteca:
Esgravata. Pesquisa.
Computa. Sopesa
números e adjectivos.
E traça percentagens.
E mói a paciência.
E dói-lhe o fígado.
E tem más digestões.

O sr. S. é um mocho
com penas de pavão.
O sr. S. é um aranhão
com patas de tarântula.

O sr. S. é um verme.
O sr. S. é um vírus.
O sr. S. infecta.
O sr. S. infesta.
E replica-se.

Alta figura
de estilo, capataz
dos capatazes,
o sr. S. é o ponto final,

parágrafo.

Domingos da Mota

(a partir da leitura do poema Os talentos do sr. Lopes, de João Luís Barreto Guimarães)

de revista DI VERSOS - Poesia e Tradução: N.º 15 - Junho de 2009, Edições Sempre-em-Pé

3 comentários:

  1. Caro Domingos,

    Muito bom!


    Abraço fraterno,
    Adriano Nunes

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  2. Caro Adriano Nunes,

    Obrigado pela visita.
    Este poema já tem uns anos, mas o sr. S. replica-se como os vírus, tem cada vez mais filhotes, daí a publicação do poema no blogue.

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  3. Boa tarde amigo,
    Há alguns escritos que se perpetuam no tempo e se mantém muito atualizados.
    Um abraço

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