01/11/2014

FERIDA

Quebra-se o corpo em dois como se
estilhaços de tão puro cristal iniciassem
o alvoroço das terras,
hoje e sempre,
onde o arado não sepulta a espiga e à
espreita do outono
os melros recolhem o seu canto e as suas
asas,
onde os dedos afagam o gelo ou a
chama e o litoral chora os seus mortos
sacrificados
e a ferida não cicatriza e o dia nos
conduz à orla dos túmulos.

José Agostinho Baptista

AGORA E NA HORA DA NOSSA MORTE, Assírio & Alvim, Lisboa, Outubro 1998

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