1.11.15

Soneto familiar

    Minhas duas irmãs éramos três,
     minha mãe e meu pai éramos cinco.

     Armando Pinheiro


Os meus catorze irmãos éramos quinze,
dezassete juntando a mãe e o pai.
Haverá quem aprove e quem ranzinze
e torça o nariz e até vaie

e vitupere a prole numerosa
e à medida que o tempo for passando
nem repare na via dolorosa
dos idos ao que vai continuando.

Meu pai e minha mãe já nos deixaram;
dos irmãos que me restam, conto cinco
e todos, a seu modo, porfiaram
e persistem ligados pelo vínculo

que alarga ou aperta - ajusta os laços
consoante a premência dos seus passos.

Domingos da Mota

[inédito]

2 comentários:

  1. Não sei porque lhe achei ecos bocageanos, e se não gosta: desculpe-me!
    Mas gostei muito deste seu soneto em forma inglesa.
    Uma boa semana, cordialmente,

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    1. Um bom leitor encontrará ecos da sua vasta cultura; e num poema, como melhor que eu sabe, há sempre algumas reverberações, mesmo que subliminares, de outros poemas e poetas. Neste poema, a haver ecos, ou até mais do que ecos, confesso, é do excelente soneto, Aritmética emotiva, de Armando Pinheiro, aliás publicado neste blogue.
      Bocage, a haver ecos, também seria muito bem-vindo.
      Agradeço e retribuo os votos de uma boa semana.

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