7.11.16

Avidez

Anda ver o deus banqueiro
Que engana à hora e que rouba ao mês
Há milhões no mundo inteiro
O galinheiro é de dois ou três

José Afonso


Esta camisa-de-forças,
Chicote de sete varas,
Não é coceira que possas
Aliviar sem escaras

Pois são tantas as feridas
Abertas, vendo o vergão
Nas costas submetidas
Debaixo da servidão,

Que mesmo que te revoltes
E com tal rebelião
Se atrofie entrementes
O olho do furacão,

A avidez, de olhar agudo,
Olhos de lince mordaz,
Afia as garras e tudo
Esfola, deixando atrás

Da sua voracidade,
De tanta sofreguidão
E perversa opacidade,
A cruel devastação.

Basta ver os dois ou três
Galos deste galinheiro,
Para ouvir cantar os donos
Que mandam no mundo inteiro.

Domingos da Mota

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