10.7.16

LUA

Mamífero metálico. Nocturno.


Vê-se-lhe 
o rosto comido por um acne.


Sputniks e sonetos.


Nicolás Guillén

O GRANDE ZOO, tradutor, Carlos Pereira, Editora Centelha - Promoção do Livro, S.A.R.L., Coimbra, Novembro de 1973

5.7.16

PASSAGEIRO

Sou um passageiro.

Isto em bom português
quer dizer: estou de passagem.
Virá um dia em que caduque
a minha validade.
Só o comboio é perene,
inextinguível.

Por isso é uma gratuita 
crueldade a voz do altifalante
dizer de vez em quando:
-- Senhores passageiros, isto.
-- Senhores passageiros, aquilo.

Passageiro.

Caramba,
não preciso que mo lembrem.

Não me enterrem mais
a coroa de espinhos:
já me está apertada,
fundida com o crânio quanto baste.

A. M. Pires Cabral

QUE COMBOIO É ESTE, Edição Teatro de Vila Real, Dezembro de 2005

28.6.16

INDÍCIOS DE OIRO

7


Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
    Pilar da ponte de tédio
    Que vai de mim para o Outro.

                  Lisboa, Fevereiro de 1914

Mário de Sá-Carneiro

INDÍCIOS DE OIRO, Guimarães Editores, Lisboa, Novembro de 2009

24.6.16

Janelas altas

Quando vejo um casal de miúdos
E percebo que ele a anda a foder e ela
Usa um diagrama ou toma a pílula
Sei que isto é o paraíso

Com que os velhos sonharam toda a vida --
Compromissos e gestos postos de lado
Que nem uma debulhadora fora de moda,
E toda a gente a descer pelo escorrega,

Interminavelmente, para a felicidade. Será
Que alguém olhou para mim, há quarenta anos,
E pensou: Isso é que vai ser boa vida;
Nada de Deus, ou de suores nocturnos,

Ou medo do inferno, ou ter de esconder
Do padre aquilo em que se pensa. Ele
E a malta dele, c'um raio, hão-de ir todos pelo escorrega
Abaixo, livres que nem pássaros? E de imediato,

Em vez de palavras, vêm-me à ideia janelas altas:
O vidro que acolhe o sol, e mais além
O ar azul e profundo, que não revela
Nada e está em lado nenhum e não tem fim.

Philip Larkin

Janelas altas, tradução e introdução de Rui Carvalho Homem, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, 2004

19.6.16

Nas cidades do sul

Nas cidades do sul
há violência e há excesso,
de semente.
Estalam os rios e foge a água.
O corpo, encortiçado, racha.


Lendas vêm de há séculos assoreando
as margens.
E quando à boca de um poço vamos
provar o nosso eco,
águas puras irrompem,
noutra língua.

Luiza Neto Jorge

A LUME, Assírio & Alvim, Maio de 1989

16.6.16

HAI-KAI

Nós temos cinco sentidos:
são dois pares e meio d'asas.

-- Como quereis o equilíbrio?

David Mourão-Ferreira

LIRA DE BOLSO, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Novembro de 1969

15.6.16

[Vozes que a noite arrasta]

Vozes que a noite arrasta
inapreensíveis passagens
para o que é alto
puro e delicado
determinando-te
a partir de outra obscuridade

Luís Falcão

Bruma Luminosíssima, Artefacto, Maio de 2016

13.6.16

Qualquer música

Qualquer música, ah, qualquer,
Logo que me tire da alma
Esta incerteza que quer
Qualquer impossível calma!

Qualquer música -- guitarra,
Viola, harmónio, realejo...
Um canto que se desgarra...
Um sonho em que nada vejo...

Qualquer coisa que não vida!
Jota, fado, a confusão
Da última dança vivida...
Que eu não sinta o coração!

Fernando Pessoa

POEMAS DE FERNANDO PESSOA, Selecção, prefácio e posfácio de Eduardo Lourenço, VISÃO JL, Lisboa, Fevereiro de 2006

11.6.16

PALATINO

3.

Toda a maldição vomita a luz
pelos dedos -- o desejo das trevas
chamando à morte a única oração.

João Rasteiro

A DIVINA PESTILÊNCIA, Assírio & Alvim, Lisboa, Março 2011


10.6.16

CAMÕES E A TENÇA

Irás ao paço. Irás pedir que a tença
Seja paga na data combinada
Este país te mata lentamente
País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce

Em tua perdição se conjuraram
Calúnia desamor inveja ardente
E sempre os inimigos sobejaram
A quem ousou mais ser que a outra gente

E aqueles que invocaste não te viram
Porque estavam curvados e dobrados
Pela paciência cuja mão de cinza
Tinha apagado os olhos no seu rosto

Irás ao paço irás pacientemente
Pois não te pedem canto mas paciência

Este país te mata lentamente

Sophia de Mello Breyner

GRADES, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Novembro de 1970

8.6.16

DENÚNCIA DE CONTRATO

foi tudo tão depressa.
nem tempo tive para lavrar as mãos
e assinar, de cruz, um empréstimo de pão.

fiquei sem dias para trocar com a morte.

Emanuel Jorge Botelho

Telhados de Vidro N.º 20 . Setembro . 2015

5.6.16

PRELÚDIO

Partem os altos choupos, 
mas deixam o seu reflexo.

Partem os altos choupos,
deixando apenas o vento.

O vento na sua mortalha
jaz debaixo do céu.

Mas não levou os seus ecos,
que flutuam sobre os rios.

O mundo dos pirilampos
invadiu minha lembrança.

E um coração pequeno
vai-me brotando nos dedos.

Federico Garcia Lorca

TRINTA E SEIS POEMAS E UMA ALELUIA ERÓTICA, Tradução de Eugénio de Andrade, Editorial Inova Limitada, Porto, Janeiro de 1970

31.5.16

NADA FALTA

Ao cair da tarde,
passa lá fora
a melancólica,
antiquíssima flauta
do amolador.

Vai-se afastando
e deixando atrás de si,
como uma cascata,
a toada 
magoada e urgente
da noite que vem
e promete ser
varrida de água
e de vento,
fatal para vagabundos
e para espíritos aflitos
ou afligidos.

Mas
entre os múltiplos golpes
executados por aí
com um cutelo de dois gumes
de fabrico euro-alemão,
esta tormenta,
no ritmo da flauta
anuncia sobretudo a queixa
de mais um trabalho
em liberdade e em gosto
prestes a morrer.

Parece
que mais ninguém a ouve,
e,
pelo silêncio que fica,
parece até
que já não há ninguém vivo na rua.
Nem os cães...
Estarão 
a ver
as inundações
na América...

-- Os cães também?

Claro, nem ladram.

A televisão
inunda-lhes a casa lá longe
e eles gostam.
Também lhes afia as facas
que trazem na cabeça
e todos gostam.
Não precisam de amolador.
Não precisam de mais nada.

Alberto Pimenta

nove fabulo, o mea voz
de novo falo, a meia voz, Pianola 12, Lisboa, Março de 2016

24.5.16

Insónia

Vira a noite
do avesso: a insónia
desalmada esmiúça

as sombras a pulsar
perdidas: despenteia
as estrelas, desgrenha,

desmesura o peso
e o pavor das horas
desmedidas.


© Domingos da Mota


19.5.16

SETE CANÇÕES DE DECLÍNIO

7


Meu alvoroço de oiro e lua
Tinha por fim que transbordar...
-- Caiu-me a Alma na rua,
E não a posso ir apanhar!

Mário de Sá-Carneiro

EDOI LELIA DOURA antologia das vozes comunicantes da poesia moderna portuguesa
organizada por HERBERTO HELDER, Assírio & Alvim, Janeiro de 1985

9.5.16

Uma Viagem no Outono

*

Imensa, esta gente reconduz
a catástrofe ao ruído de folha sobre folha,
mas a vingança dos mortos
é uma faca mergulhada na terra, o gume
iluminado da raiz.

Rui Nunes

Nocturno Europeu, Relógio D'Água Editores, Novembro de 2014 

20.4.16

RETRATO DE UMA SOMBRA

Os teus olhos, rasto de luz dos meus passos;
a tua testa, lavrada pelo brilho dos punhais;
as tuas sobrancelhas, orla do caminho da tragédia;
as tuas pestanas, mensageiros de longas cartas;
os teus cabelos, corvos, corvos, corvos;
as tuas faces, campo de armas da madrugada;
os teus lábios, hóspedes tardios;
os teus ombros, estátua do esquecimento;
os teus seios, amigos das minhas serpentes;
os teus braços, álamos à porta do castelo;
as tuas mãos, tábuas de juras mortas;
as tuas ancas, pão e esperança;
o teu sexo, lei do fogo na floresta;
as tuas coxas, asas no abismo;
os teus joelhos, máscaras da tua altivez;
os teus pés, campo de batalha dos pensamentos;
as tuas solas, criptas em chamas;
as tuas pegadas, olho da nossa despedida.

Paul Celan

A MORTE É UMA FLOR, Poemas do Espólio, Tradução, posfácio e notas de João Barrento, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, 1998

[sôbolos rios que vão desaguando nas trevas,]

sôbolos rios que vão desaguando nas trevas,
eu, sentado a este papel, escrevo
que o perdão sem piedade,
não pelos actos, mas
pelas palavras,
nunca me será dado, e rejubilo,
porque o perdão enfim veria os nomes anulados
pelo falso entendimento
coisa a coisa
-- e eu não quero mais perdões de nada

Herberto Helder

Letra Aberta, Porto Editora, Março de 2016