07/03/2012

ANIMAIS DOMÉSTICOS

Deixas os sapatos pelo chão
e eu tropeço neles
como se duas serpentes
trocassem de olhar entre si
para me puxarem o corpo
para o vazio soerguido dos tempos

abertos na carpete os livros
a lareira a várias vozes
indiferente ao mar
como resina branda e atenta
suspensa da garganta muda

o mel da luz passada
exagera o meu lado fora de mim
qual cigarra arremessando sedimentos
domésticos e alheios

os sapatos mordem a canela dos meus nervos
improváveis, penetrantes
tilintam nesta memória
de quem respira sempre no escuro

José Manuel de Vasconcelos

A MÃO NA ÁGUA QUE CORRE, Assírio & Alvim, Lisboa, Março 2011

2 comentários:

  1. José Manuel Vasconcelos, Animais Domésticos - encaixou perfeitamente na qualidade deste blogue.
    Parabéns!

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  2. Rita Carrapato,

    Agradeço a visita e o comentário.
    Espero que o poeta se possa sentir bem neste espaço dedicado à poesia.

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