25.8.13

Soneto da pouquidão

São poucos os que lutam contra o medo
sem medo de perder seja o que for,
que ousam cutucar o arremedo,
esse modo maligno de temor

que sofreia a coragem ante o susto
e que a tantos concita mais pavor
e os deixa tolhidos, dado o custo
da luta contra o medo ou o que for.

São poucos os que lutam, e a escassez
aumenta com tamanha pouquidão
que faz acumular, por sua vez,
o medo, com razão ou sem razão,

naqueles que se escondem, dia a dia,
por detrás do receio ou da apatia.

Domingos da Mota

[inédito]

2 comentários:

  1. O valor económico dita leis e sentimentos.
    Se tempos existiram que a luta pela liberdade, ideias e ideais, era uma constante de um povo sofredor e que houve homens de bem que lutaram por esses ideais, mesmo correndo o risco de sofrerem penosos castigos pela prisão, na pureza do seu acreditar num mundo melhor.
    Salvo raras excepções, os que lutaram politicamente pela liberdade de um povo que era oprimido, estão nos dias de hoje francamente comprometidos com o poder económico. Os seus ideais puros de libertação foram, afinal, um compromisso com o capitalismo ou poder económico.
    O povo tem voz, é verdade. Direi: tem apenas o direito de ir às urnas Votar. Mas com base em quê?
    Em campanhas mentirosas? Em pessoas que não conhece? Em projectos que ignora?
    Em aliados à esquerda e à direita?
    Que resta afinal ao povo sofredor? O ir para a fila de votos para contribuir para os “fundos” dos partidos que mais votos têm?
    O povo está desgastado. E desiludido.
    Onde estão os homens de boa fé deste País? Os que não tiram proveitos de jogadas da bolsa? Os que não tiram proveito de negócios milionários?
    Onde?
    Acredito que os haja. Estarão escondidos... em templos ou em covis?

    Belo soneto inglês de algumas interrogações cujas respostas pouco sabem.

    Um abraço

    ResponderEliminar
  2. Concordo com muito do que diz neste seu longo comentário. Mas discordo, entre outras coisas, do segundo parágrafo: se vir bem, as excepções não são raras, são bastantes, ainda que continuem a ser excepções, mas têm socialmente, e até politicamente, um peso significativo. Já agora, a propósito de uma dessas excepções, sugiro a leitura do texto de Baptista-Bastos, no Diário de Notícias, com o título, "Urbano". Uma excelente excepção. Um belo texto.
    Grato pelo seu generoso comentário.

    ResponderEliminar