28.4.24
recado para paulo silenciário
do insecto assim votivo
e mudo?
história, se a há, é do inexacto,
do regresso impossível aos silêncios
da quente vizinhança;
e talvez seja
irrespirável a beleza:
a cigarra de eunomo ao atalhar
com seu murmúrio doce
a corda que na cítara partira.
a cigarra de bronze repetiu-a?
Vasco Graça Moura
Os Rostos Comunicantes, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1984
26.4.24
AVENIDA DA LIBERDADE
a pé a Avenida da Liberdade
no dia 25 de Abril
todos os anos desço a pé
a Avenida da Liberdade
no dia 25 de Abril
segurando um cartaz que
só os cegos conseguem ler
gritando palavras de ordem
que só os surdos conseguem ouvir
Embora nunca tenha descido
a pé a Avenida da Liberdade
no dia 25 de Abril
todos os anos desço a pé
a Avenida da Liberdade
no dia 25 de Abril
ou é a avenida que desce em mim
ou a liberdade que desce a avenida
que há em mim
Continuarei a descer a pé
todos os anos
a Avenida da Liberdade
no dia 25 de Abril
mesmo que não haja avenida
mesmo que eu já não esteja
nesta vida
in https://facebook.com/jorge.s.braga - 25 de Abril de 2024
20.4.24
NUMA FRONTE AUSENTE
Terra e noite,
as mãos escavam.
Insistem e desfazem-se
numa fronte ausente.
Na cabeça subsistem
algumas palavras inúteis.
A mão devagar traça
- vai traçar -
uma rede de sinais de que dependo.
A luz descobre o corpo.
Algumas palavras a mais desaparecem.
Neste instante
a pedra é nua.
António Ramos Rosa
A MÃO DE ÁGUA E A MÃO DE FOGO, Antologia Poética, Selecção e Organização de António Ramos Rosa, Posfácio de Maria Irene Ramalho Sousa Santos, «Fora de Texto», Coop. Editorial de Coimbra, CRL, Coimbra, 1987
9.4.24
VAN GOGH
Devora-me a sede de infinito.
Que vou fazer? Como resolvê-la?
Decido: saio para a noite e fito
o espaço nu, a luz duma estrela.
Eugénio Lisboa
O Ilimitável Oceano (Algumas Observações), Quasi Edições, Vila Nova de Famalicão, Março de 2001
8.4.24
2.
aligeira as palavras.
De quando em vez
dá-lhes sol e água.
Julgas-te para durar?
Ninguém ganha a vida
senão gastando
o que dela sobra.
O mais que fica
são passados em catadupa
sem nome nem morada.
Henrique Manuel Bento Fialho
De Má Condição, Pinturas: Maria João Lopes Fernandes, Composição: Pedro Serpa, Março de 2024:59
4.4.24
POETA JÁ NÃO SOU
Tornei-me opaco, agreste, perdi norte.
O verbo estaca. Mexe, mas não flui
Como fluía dantes, nédio e forte.
Eu sei que não devia assim queixar-me.
O tempo vai e volta, e acaso um dia,
Buscando devaneio e algum charme,
O verbo ganhe frémito e folia.
É isto: tão queridos, sem vergonha,
Os poetas mentem, troçam, manipulam,
Não há lei que bom senso lhes imponha.
Prometo não voltar a inquietar-vos.
E enquanto o sangue e a linfa em mim circulam,
Impedirei que façam de vós parvos.
(colhido, com a devida autorização, na sua página do Facebook)
31.3.24
[Cerejeiras em flor]
E no entanto
Sofrimento e corrupção
PRIMEIRA NEVE [haikus], versões de Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim, Lisboa, Novembro de 2002
23.3.24
Pegada de carbono
Sei que não hão de restar
sequer os dentes
nas cinzas do futuro.
Talvez este poema
faça eco
num beco sem saída.
Nem todos os fantasmas
são entidades translúcidas.
Alguns são antes de tudo
a matéria escura da linguagem.
Nuno F. Silva
Sol Subterrâneo, Edição Húmus, Vila Nova de Famalicão, Fevereiro de 2024
17.3.24
FRAGMENTOS
1
Aceita o transitório; nada do que
é definitivo, e dura, te pode atingir.
2
Algo de visível perpassa
3
De noite, o vento partiu
um dos vidros das traseiras.
4
Só o ruído da noite sobrevive
à luz e ao furor matinais.
5
(Se aquelas nuvens, no horizonte,
chegassem até mim...)
6
O fragmento, porém, exprime
o estilhaçar da intensidade.
7
No último fragmento, fixa
o efémero, e repousa.
Nuno Júdice
50 Anos de Poesia - Antologia Pessoal (1972-2022), Publicações Dom Quixote, Março de 2022
16.3.24
DO SENTIMENTO TRÁGICO DA VIDA
que se revolta calçado.
O que nele se revolta
é apenas um bocado
que dentro fica agarrado
à tábua da teoria.
Aquilo que nele mente
e parte em filosofia
é porventura a semente
do fruto que nele nasce
e a sede não lhe alivia.
Revolta é ter-se nascido
sem descobrir o sentido
do que nos há-de matar.
Rebeldia é o que põe
na nossa mão um punhal
para vibrar naquela morte
que nos mata devagar.
E só depois de informado
só depois de esclarecido
rebelde nu e deitado
ironia de saber
o que só então se sabe
e não se pode contar.
Natália Correia
Antologia Poética [in Poemas] Organização e Prefácio de Fernando Pinto do Amaral, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Julho de 2002
5.3.24
RAIZ SEMPRE PRESENTE
Raiz sempre presente, e do futuro
mistério aventurado mal ou bem
e sopro imaculado p'la manhã,
da árvore pendido um doce fruto
que derramado embora a ela puro
volta de novo, e que é voz e silêncio
dum canto renovado permanente
que para ser existirá sem música,
zumbido duma brisa acolhedora,
corrente d'água límpida a fluir
até ser a miragem do meu sonho,
princípio da beleza mavioso,
luz radiante em raios onde põe
a certeza de nunca ela o cobrir.
António Salvado
Ecos do Trajecto seguido de Passo a Passo, Edição Ricardo Neves Produção Lda., - A.23 Edições, 2014
28.2.24
sátira de John Kaspar a um poeta de mau porte
a flauta do cego
o brilho da bota
o piano de cauda
o ás da batota
um galo a fingir
de crista de prata
e o pombo a grunhir
sem selo na carta
fugi dos poetas
de patas de chumbo
fugi da má rima
um morto é defunto
o Silva das lérias
no bairro galante
é um porco em férias,
um significante
da casta devassa
um pulha tratante
que na greve dos bardos
vestiu de amarelo
e roubou um pedinte
de foice e martelo
de chave encravada
faz soneto frouxo
de sapata rota
é peixe sem lota
é o prego da bota
fugi dos poetas
de patas de chumbo
fugi da má rima
um morto é defunto
António Ferra
lengas e narrativas, Edição Húmus, Vila Nova de Famalicão, Junho de 2022
12.2.24
POEMAS QUOTIDIANOS
81
Onde vamos livres
Onde vamos presos
correr como rios
durar
como pedras
e lançar raízes
4.2.24
INSULTO AO POEMA
como tantas vezes acham alguns ingénuos
e maus leitores. Pode ser dúvida dor ou disfarce
e tantas outras coisas começadas por d como
devastação desistência despedida ou
por r como raiva rasura ressurreição. Lembro
sempre os versos de Ana Hatherly
E quando o poema é bom
não te aperta a mão:
aperta-te a garganta.
in Inês Lourenço, As Palavras Beijam Sem Carga Viral, pág. 6,
e Andreia C. Faria, Este Fresco Sanatório para o Sangue,
Editor Câmara Municipal do Porto, Porto, agosto de 2021
19.1.24
VER CLARO
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.
Os Sulcos da Sede, Edição 1.ª, Setembro, 2001, Editora Fundação Eugénio de Andrade, Porto
17.1.24
PARAÍSO E INFERNO
de todos os Santos
Padres, seja Tomás
seja Agostinho, seja
qual for, ganhar o
Paraíso obrigará a
perder tudo o mais,
inclusive raspadinhas...
ganhar o paraíso...
mas como é ele?
não tem nómadas,
só residentes fixos,
como os beatos e santos
e recém-canonizados,
impedidos de alugar
e pior mesmo subalugar,
porque assim é perfeito,
perfeito, para alguns
papas até, e com razão,
mais que perfeito,
ou seja, já foi, era,
não recebe mais, para
já ele acabou, ganhá-lo
é pois ganhar o que na
santa teoria existiu,
mas deu-se-lhe fim:
na prática, teve fim,
eramos tantos a dizer
in eo spero, acabou,
está cheio, mais nada,
acabou, foi, não há.
calma!
os matemáticos
ainda
não concluíram
todos os cálculos.
consegue-se?
do inferno
já conseguiram.
in NERVO / 20 Janeiro a Abril de 2024, Editora: Maria F Roldão
12.12.23
os poemas políticos não mudam o mundo
dizem os eruditos da palavra
sentados em confortáveis cadeirões
na real academia de letras de lisboa
fazendo horas para o repasto
para ser franco pouco valor dou aos eruditos
não escrevo para o presente
ouso ter a esperança de não ser lido na posteridade
e por outro lado não sei a que se referem
quando falam de poemas políticos
será talvez a noite dos lírios
que os preocupa
refastelados nos doutos cadeirões.
Manuel Maria Aboim
28.11.23
PALESTINA
Que no chão projectam ao passar.
Tudo ou quase tudo lhes foi tirado
A terra, os ribeiros, as ovelhas dispersas pela terra
Os títulos de posse das pequenas quintas.
Tudo ou quase tudo
Menos o futuro amarrotado num bolso
Menos a esperança, menos o olhar.
INVENTÁRIO DAS TRAVESSIAS, Antologia Poética, Organização Pedro Miguel Salvado, António Lourenço Marques, Moana Soto, Stefania di Leo, Carlos Serrão, Editora Labirinto, 2023, Fafe
14.11.23
A pedra
que é flor do espírito.
Quem,
cercado em terra própria,
não deixará na mão
florir a pedra?
Junho, 2017
João Pedro Mésseder
A QUEM PERTENCE A LINHA DO HORIZONTE?, Edição Página a Página - Divulgação do Livro, SA, Maio de 2020
9.11.23
[Decai co'a tarde a luz]
quando o mundo declina o anoitecer
em que adormece.
Caem co' a calma as colinas breves
sobre as planícies azuis; Caem as folhas
como caíam aquelas aves que até hoje
caem, de poema em poema
e nem o seu corpo se destece
quando já na página de água navegam
Manuel Gusmão
Pequeno Tratado das Figuras, Assírio & Alvim, Fevereiro de 2013