7.7.12

PRELÚDIO

Ressoam nas colinas do silêncio
as palavras paradas, por dizer:
sustidas, refreadas, frias, tensas
apetece libertá-las, a saber,
avivar a língua, silabá-las,
atear-lhes a voz, pô-las a arder,
despertar-lhes os sentidos - e afagá-las
comprazidas num corpo de mulher.

Apetece acolher, pegar em duas
ou três das palavras soltas, nuas
e com elas longamente conversar,
e manter a mais rouca, mais bravia
- prelúdio matinal da rebeldia -
sobre as dunas do tempo a galopar.


Domingos da Mota

publicado inicialmente com o título de Arte Poética, e algumas variações, na revista Palavra em Mutação, N.º 0, Novembro 2001/Abril 2002; e posteriormente em Bolsa de Valores e Outros Poemas, Edição Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010

2 comentários:

  1. Você trabalha muito bem as palavras. A segunda estrofe deste poema é de imensa poeticidade.

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  2. Que bom apetecer avivar a voz de palavras refreadas. Que bom saber dar-lhes o calor com que chegam ao leitor.

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