I
De que te vestes, corpo
a bando nado
da luz no teu país. De que te cobres?
Esquecido na água e sem
leitura. De que lado
passarás a viver
(ou, transigindo,
de que lado
passarás a morrer, a clarear)?
Nuno Guimarães
OS CAMPOS VISUAIS, Iniciativas Editoriais, Lisboa, Maio de 1973
27.11.16
26.11.16
exercício espiritual
É preciso dizer rosa em vez de dizer ideia
é preciso dizer azul em vez de dizer pantera
é preciso dizer febre em vez de dizer inocência
é preciso dizer o mundo em vez de dizer um homem
É preciso dizer candelabro em vez de dizer arcano
é preciso dizer Para sempre em vez de dizer Agora
é preciso dizer O Dia em vez de dizer Um ano
é preciso dizer Maria em vez de dizer aurora
Mário Cesariny
CESARINY UMA GRANDE RAZÃO, Assírio & Alvim, Lisboa, Março de 2007
é preciso dizer azul em vez de dizer pantera
é preciso dizer febre em vez de dizer inocência
é preciso dizer o mundo em vez de dizer um homem
É preciso dizer candelabro em vez de dizer arcano
é preciso dizer Para sempre em vez de dizer Agora
é preciso dizer O Dia em vez de dizer Um ano
é preciso dizer Maria em vez de dizer aurora
Mário Cesariny
CESARINY UMA GRANDE RAZÃO, Assírio & Alvim, Lisboa, Março de 2007
24.11.16
A um ti que eu inventei
Pensar em ti é coisa delicada.
É um diluir de tinta espessa e farta
e o passá-la em finíssima aguada
com um pincel de marta.
Um pesar grãos de nada em mínima balança,
um armar de arames cauteloso e atento,
um proteger a chama contra o vento,
pentear cabelinhos de criança.
Um desembaraçar de linhas de costura,
um correr sobre lã que ninguém saiba e oiça,
um planar de gaivota como um lábio a sorrir.
Penso em ti com tamanha ternura
como se fosses vidro ou película de loiça
que apenas com o pensar te pudesse partir.
António Gedeão
POEMAS ESCOLHIDOS, Antologia Organizada pelo Autor, Edições João Sá da Costa, Lisboa, Novembro de 1999
É um diluir de tinta espessa e farta
e o passá-la em finíssima aguada
com um pincel de marta.
Um pesar grãos de nada em mínima balança,
um armar de arames cauteloso e atento,
um proteger a chama contra o vento,
pentear cabelinhos de criança.
Um desembaraçar de linhas de costura,
um correr sobre lã que ninguém saiba e oiça,
um planar de gaivota como um lábio a sorrir.
Penso em ti com tamanha ternura
como se fosses vidro ou película de loiça
que apenas com o pensar te pudesse partir.
António Gedeão
POEMAS ESCOLHIDOS, Antologia Organizada pelo Autor, Edições João Sá da Costa, Lisboa, Novembro de 1999
20.11.16
[Divido o fruto, a palavra dióspiro:]
Divido o fruto, a palavra dióspiro:
deus, na outra metade, o fogo. Sustém
a navalha, o gesto de talhar o garfo.
Observa os dióspiros, espantado: deus,
deus e o fogo, sabedoria dos gregos,
diante dos olhos em transitória nave.
Francisco Duarte Mangas
A FOME APÁTRIDA DAS AVES, Edição Modo de Ler
deus, na outra metade, o fogo. Sustém
a navalha, o gesto de talhar o garfo.
Observa os dióspiros, espantado: deus,
deus e o fogo, sabedoria dos gregos,
diante dos olhos em transitória nave.
Francisco Duarte Mangas
A FOME APÁTRIDA DAS AVES, Edição Modo de Ler
16.11.16
Os inquiridores
Está o mundo coberto de piolhos:
Não há palmo de terra onde não suguem,
Não há segredo de alma que não espreitem
Nem sonho que não mordam ou pervertam.
Nos seus lombos peludos se divertem
Todas as cores que, neles, são ameaças:
Há-os castanhos, verdes, amarelos,
Há-os negros, vermelhos e cinzentos.
E todos se encarniçam, comem todos,
Concertados, vorazes, no seu tento
De deixar, como restos de banquete,
No deserto da terra ossos esburgados.
José Saramago
Os Poemas Possíveis, Editorial Caminho, Outubro de 1998
Não há palmo de terra onde não suguem,
Não há segredo de alma que não espreitem
Nem sonho que não mordam ou pervertam.
Nos seus lombos peludos se divertem
Todas as cores que, neles, são ameaças:
Há-os castanhos, verdes, amarelos,
Há-os negros, vermelhos e cinzentos.
E todos se encarniçam, comem todos,
Concertados, vorazes, no seu tento
De deixar, como restos de banquete,
No deserto da terra ossos esburgados.
José Saramago
Os Poemas Possíveis, Editorial Caminho, Outubro de 1998
13.11.16
OS DOIS
Eu sou dois seres.
O primeiro é fruto do amor de João e Alice.
O segundo é letral:
É fruto de uma natureza que pensa por imagens,
Como diria Paul Valéry.
O primeiro está aqui de unha, roupa, chapéu
e vaidades.
O segundo está aqui em letras, sílabas, vaidades
frases.
E aceitamos que você empregue o seu amor em nós.
Manoel de Barros
POEMAS RUPESTRES, Editora Record, Rio de Janeiro . São Paulo, 2004
O primeiro é fruto do amor de João e Alice.
O segundo é letral:
É fruto de uma natureza que pensa por imagens,
Como diria Paul Valéry.
O primeiro está aqui de unha, roupa, chapéu
e vaidades.
O segundo está aqui em letras, sílabas, vaidades
frases.
E aceitamos que você empregue o seu amor em nós.
Manoel de Barros
POEMAS RUPESTRES, Editora Record, Rio de Janeiro . São Paulo, 2004
9.11.16
[o ódio sopra uma bolha de desespero na]
o ódio sopra uma bolha de desespero na
vastidão do sistema do mundo do universo e explode
-- o medo enterra um amanhã sob o desgosto
e o ontem chega mais verde e jovem
o prazer e a dor são apenas aparências
(um a si se mostrando, a si se escondendo outro)
o único e verdadeiro valor da vida nenhum é
o amor faz a pequena diferença das coisas
e se aqui vier um homem para receber da senhora morte
o agora sem nunca e a primavera sem inverno?
ela tecerá esse espírito com os seus próprios dedos
e dar-lhe-á nada (se ele não cantar)
como há tanto mais do que o suficiente para nós os dois
querida E se eu cantar tu és a minha voz,
E.E. Cummings
livrodepoemas, tradução, introdução e notas Cecília Rego Pinheiro, Assírio & Alvim, Lisboa, Junho 1999
vastidão do sistema do mundo do universo e explode
-- o medo enterra um amanhã sob o desgosto
e o ontem chega mais verde e jovem
o prazer e a dor são apenas aparências
(um a si se mostrando, a si se escondendo outro)
o único e verdadeiro valor da vida nenhum é
o amor faz a pequena diferença das coisas
e se aqui vier um homem para receber da senhora morte
o agora sem nunca e a primavera sem inverno?
ela tecerá esse espírito com os seus próprios dedos
e dar-lhe-á nada (se ele não cantar)
como há tanto mais do que o suficiente para nós os dois
querida E se eu cantar tu és a minha voz,
E.E. Cummings
livrodepoemas, tradução, introdução e notas Cecília Rego Pinheiro, Assírio & Alvim, Lisboa, Junho 1999
7.11.16
Avidez
Anda ver o deus banqueiro
Que engana à hora e que rouba ao mês
Há milhões no mundo inteiro
O galinheiro é de dois ou três
José Afonso
Esta camisa-de-forças,
Chicote de sete varas,
Não é coceira que possas
Aliviar sem escaras
Pois são tantas as feridas
Abertas, vendo o vergão
Nas costas submetidas
Debaixo da servidão,
Que mesmo que te revoltes
E com tal rebelião
Se atrofie entrementes
O olho do furacão,
A avidez, de olhar agudo,
Olhos de lince mordaz,
Afia as garras e tudo
Esfola, deixando atrás
Da sua voracidade,
De tanta sofreguidão
E perversa opacidade,
A cruel devastação.
Basta ver os dois ou três
Galos deste galinheiro,
Para ouvir cantar os donos
Que mandam no mundo inteiro.
© Domingos da Mota
2.11.16
OS OLHOS DAS CRIANÇAS
Estes olhos vazios e brilhantes
que na criança se abrem para o mundo,
não amam,
não temem,
não odeiam,
não sabem como a morte existe.
São terríveis.
Porque a vida é isto.
O amor, o medo, o ódio, a mesma morte,
e este desejo de possuir alguém,
os aprendemos. Nunca mais olhamos
com tal vazio dentro das pupilas.
São terríveis.
Porque a vida é isto.
1963.
Jorge de Sena
PEREGRINATIO AD LOCA INFECTA, 70 POEMAS E UM EPÍLOGO, Portugália Editora, Lisboa, Setembro de 1969
que na criança se abrem para o mundo,
não amam,
não temem,
não odeiam,
não sabem como a morte existe.
São terríveis.
Porque a vida é isto.
O amor, o medo, o ódio, a mesma morte,
e este desejo de possuir alguém,
os aprendemos. Nunca mais olhamos
com tal vazio dentro das pupilas.
São terríveis.
Porque a vida é isto.
1963.
Jorge de Sena
PEREGRINATIO AD LOCA INFECTA, 70 POEMAS E UM EPÍLOGO, Portugália Editora, Lisboa, Setembro de 1969
28.10.16
OS DOIS POETAS
Na cidade branca
Entre as migalhas de pão
Habitam dois poetas
O primeiro é negro -- lua quebrada
De que as baleias procuram os restos
O outro é branco -- tal uma criança
Dorme todas as noites
Com uma serpente negra
Adonis
O Arco-Íris do Instante, Antologia Poética, Introdução, selecção e tradução de Nuno Júdice, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Outubro de 2016
Entre as migalhas de pão
Habitam dois poetas
O primeiro é negro -- lua quebrada
De que as baleias procuram os restos
O outro é branco -- tal uma criança
Dorme todas as noites
Com uma serpente negra
Adonis
O Arco-Íris do Instante, Antologia Poética, Introdução, selecção e tradução de Nuno Júdice, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Outubro de 2016
27.10.16
CARTA A ADONIS, POETA SÍRIO-LIBANÊS
5.
Querido Adonis, trouxeram-me um retrato
teu, pescado na Internet.
Não há um corte --
entre a tua poesia e o que promete
a tua imagem é palavra cortada
à feição, como a fruta
que incita ao roubo.
Um borrifo de Deus --
e o mais desassombro.
António Cabrita
Combate de Flautas, &etc, Lisboa, Setembro de 2003
Querido Adonis, trouxeram-me um retrato
teu, pescado na Internet.
Não há um corte --
entre a tua poesia e o que promete
a tua imagem é palavra cortada
à feição, como a fruta
que incita ao roubo.
Um borrifo de Deus --
e o mais desassombro.
António Cabrita
Combate de Flautas, &etc, Lisboa, Setembro de 2003
19.10.16
A avó
Tinha ao colo o gato velho
cansadamente passando
a sua branca mão pelo
pêlo dele preto e brando
Sentada ao pé da janela
olhando a rua ou sonhando-a
todo o passado passando
a passos lentos por ela
Dormiam ambos enquanto
a tarde se ia acabando
o gato dormindo por fora
a avó dormindo por dentro
Manuel António Pina
OS LIVROS, Assírio & Alvim, Lisboa, Novembro 2003
cansadamente passando
a sua branca mão pelo
pêlo dele preto e brando
Sentada ao pé da janela
olhando a rua ou sonhando-a
todo o passado passando
a passos lentos por ela
Dormiam ambos enquanto
a tarde se ia acabando
o gato dormindo por fora
a avó dormindo por dentro
Manuel António Pina
OS LIVROS, Assírio & Alvim, Lisboa, Novembro 2003
28.9.16
Síntese e remorso
Acerca da fragilidade
De uma criança
Nada diremos.
Acerca da sua força e das imagens
Nocturnas que se espelham
Como o adversário se espelha
Na polida solidez do escudo,
Sobre isso talvez nos seja dado
Dizer o que não merece mais
Do que síntese e remorso.
Luís Quintais
Eufeme, magazine de poesia, n.º 0 (julho/setembro de 2016) Edição e coordenação: Sérgio Ninguém
De uma criança
Nada diremos.
Acerca da sua força e das imagens
Nocturnas que se espelham
Como o adversário se espelha
Na polida solidez do escudo,
Sobre isso talvez nos seja dado
Dizer o que não merece mais
Do que síntese e remorso.
Luís Quintais
Eufeme, magazine de poesia, n.º 0 (julho/setembro de 2016) Edição e coordenação: Sérgio Ninguém
22.9.16
AO CONTRÁRIO DE ULISSES
Infeliz quem, ao contrário
de Ulisses, volte a casa
e nem sequer um cão, nem
um cão morto sequer, ladre.
Pedro Mexia
Menos por Menos, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Abril de 2011
21.9.16
O CÃO DE ULISSES
(glosa ou quase)
Como pode um Poeta ser cego
(perguntava Lêdo Ivo)
se a Poesia é a arte de ver? Ele soube-o dormindo
ou acordado, e transpondo as pontes por Sevilha.
Árgus, o cão de Ulisses, confirmá-lo-ia
como fez com seu dono. Lêdo sabia-o.
E qualquer um dos seus vinte e dois cachorros
cuja privacidade sempre respeitou.
Como pode um Poeta ser cego
(perguntava Lêdo Ivo)
e Homero existido? Lêdo sabia-o. Como Borges
sempre soube, porém, não há notícia se o portenho
alguma vez teve cão. Por essa razão,
Lêdo escutou os latidos de todos os cachorros,
não fosse o caso de um (entre eles) ser o mito
-- O cão de Ulisses, o verdadeiro.
Ivo Machado
A CIDADE DESGOVERNADA, Insubmisso Rumor, Porto, Fevereiro de 2016
a Lêdo Ivo,
in memoriam
in memoriam
Como pode um Poeta ser cego
(perguntava Lêdo Ivo)
se a Poesia é a arte de ver? Ele soube-o dormindo
ou acordado, e transpondo as pontes por Sevilha.
Árgus, o cão de Ulisses, confirmá-lo-ia
como fez com seu dono. Lêdo sabia-o.
E qualquer um dos seus vinte e dois cachorros
cuja privacidade sempre respeitou.
Como pode um Poeta ser cego
(perguntava Lêdo Ivo)
e Homero existido? Lêdo sabia-o. Como Borges
sempre soube, porém, não há notícia se o portenho
alguma vez teve cão. Por essa razão,
Lêdo escutou os latidos de todos os cachorros,
não fosse o caso de um (entre eles) ser o mito
-- O cão de Ulisses, o verdadeiro.
Ivo Machado
A CIDADE DESGOVERNADA, Insubmisso Rumor, Porto, Fevereiro de 2016
20.9.16
O CÃO DE POMPEIA
O cão que vi prostrado na ferrugem do pêlo eriçado,
Não era osso a fugir, calcinado.
Mordiam-lhe as pulgas e o flash, mas estava vivo.
(Pelo menos a respiração tumefaz-se empoeirada.)
O chão seco em que caia o seu repouso.
Nada se parecia com a lava.
<Este cão, a vida que continua em Pompeia, que sempre continua.>
José Emílio-Nelson
BELEZA TOCADA OBRA POÉTICA 1979-2015, Abysmo, Lisboa, Setembro de 2016
Não era osso a fugir, calcinado.
Mordiam-lhe as pulgas e o flash, mas estava vivo.
(Pelo menos a respiração tumefaz-se empoeirada.)
O chão seco em que caia o seu repouso.
Nada se parecia com a lava.
<Este cão, a vida que continua em Pompeia, que sempre continua.>
José Emílio-Nelson
BELEZA TOCADA OBRA POÉTICA 1979-2015, Abysmo, Lisboa, Setembro de 2016
7.9.16
MADRIGAL
Aquela enorme frieza
Não entristeça ninguém...
Ela estende o seu desdém
À sua própria beleza:
Quando, solta do vestido,
Sai da frescura do banho,
O seu cabelo castanho,
Esse cabelo comprido,
(Que frio, que desconsolo!)
Deixa ficar-se pendente,
Em vez de, feito serpente,
Ir enroscar-se-lhe ao colo!
Camilo Pessanha
CLEPSIDRA E OUTROS POEMAS, Círculo de Leitores, Lda., Setembro de 1987
Não entristeça ninguém...
Ela estende o seu desdém
À sua própria beleza:
Quando, solta do vestido,
Sai da frescura do banho,
O seu cabelo castanho,
Esse cabelo comprido,
(Que frio, que desconsolo!)
Deixa ficar-se pendente,
Em vez de, feito serpente,
Ir enroscar-se-lhe ao colo!
Camilo Pessanha
CLEPSIDRA E OUTROS POEMAS, Círculo de Leitores, Lda., Setembro de 1987
2.9.16
CANHÃO DA NAZARÉ
topose cúpulaszimbóriospináculos
cumese jáculosde ondastitânicas:
picose arroubose pasmos
e ápicesna cristada onda
de vagassemânticas
© Domingos da Mota
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