A astronomia do morto é um grito
sem resposta. Necessita de um computador
que lhe diga como descer da constelação:
alfabetos escadas da dor. Os olhos entendem sem ouvir
as suas equações do movimento: cinemáticas!
Quanto a mim bastava-lhe a tristeza: peso
cadente das estrelas e os hieroglifos eternos
das esquinas da história e da histeria.
Rancor enxertado por decretos e votos e hinos.
É terrível ser homem moribundo. A morte
levanta a sua constelação para que eu morra.
Nem há mesmo outra astronomia.
Alexandre Pinheiro Torres
A Flor Evaporada, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1984
27.12.17
16.12.17
TRESPASSE
1.
Ainda corri à janela. Já só lhe apanhei a saia
plissada a entrar no autocarro,
fechava-se-lhe a porta
hidráulica nas costas.
E o telemóvel sem bateria,
como avisá-la de que se enganou
e levou a minha pele?
Revisto-me da dela, aguardo.
A sua nudez retempera-me.
Ponho um cd do John Surman,
não há-de ser grave e de alergia
provámos esta noite estarmos vacinados.
Qual dos corações me pulsa
no céu da boca?
António Cabrita
Anatomia Comparada dos Animais Selvagens, Coisas de Ler Edições, Lda., Setembro de 2017
Ainda corri à janela. Já só lhe apanhei a saia
plissada a entrar no autocarro,
fechava-se-lhe a porta
hidráulica nas costas.
E o telemóvel sem bateria,
como avisá-la de que se enganou
e levou a minha pele?
Revisto-me da dela, aguardo.
A sua nudez retempera-me.
Ponho um cd do John Surman,
não há-de ser grave e de alergia
provámos esta noite estarmos vacinados.
Qual dos corações me pulsa
no céu da boca?
António Cabrita
Anatomia Comparada dos Animais Selvagens, Coisas de Ler Edições, Lda., Setembro de 2017
2.12.17
AUSÊNCIA
Uma semana depois,
chego a casa, conto
os gatos, o número
confere. Não mais
dispéptico, nem com
bílis menos escura,
retomo o ritmo de arrotear
a vida; alguém com maior
convicção poderia castigar
aquilo por que espero --
a mesma dança, a mesma
música, na esperança
inglória de ignorar a morte.
José Alberto Oliveira
Telhados de Vidro, N.º 21 . Averno, Lisboa, Agosto. 2016
chego a casa, conto
os gatos, o número
confere. Não mais
dispéptico, nem com
bílis menos escura,
retomo o ritmo de arrotear
a vida; alguém com maior
convicção poderia castigar
aquilo por que espero --
a mesma dança, a mesma
música, na esperança
inglória de ignorar a morte.
José Alberto Oliveira
Telhados de Vidro, N.º 21 . Averno, Lisboa, Agosto. 2016
30.11.17
[Tem o cheiro do pão]
Tem o cheiro do pão
acabado de cozer
no forno de lenha
Sobre a mesa
aninhados
os frutos acabados de colher
Em silêncio
as mãos
seguem essa luz
Manuel Silva-Terra
SER CASA, Editora Licorne
acabado de cozer
no forno de lenha
Sobre a mesa
aninhados
os frutos acabados de colher
Em silêncio
as mãos
seguem essa luz
Manuel Silva-Terra
SER CASA, Editora Licorne
29.11.17
OS BÁRBAROS
Nós é que éramos os bárbaros.
Pensando em nós é que vocês tremiam nos vossos palácios.
Era por estarem à nossa espera que o vosso coração batia desordenadamente.
Das nossas línguas é que vocês diziam:
talvez se componham só de consoantes,
de frufus, sussurros e folhas secas.
Nós é que vivíamos nas florestas negras.
De nós é que tinha medo Ovídio em Tomi,
Nós é que adorávamos deuses com nomes
que vocês não conseguiam pronunciar.
Mas também nós conhecemos a solidão
e a angústia, e desejámos a poesia.
Adam Zagajewski
Sombras de Sombras, Selecção e tradução, Marco Bruno, revisão, Jorge Sousa Braga, prefácio, Adam Kirsch, Edições Tinta-da-china, Lda., Lisboa, Novembro de 2017
Pensando em nós é que vocês tremiam nos vossos palácios.
Era por estarem à nossa espera que o vosso coração batia desordenadamente.
Das nossas línguas é que vocês diziam:
talvez se componham só de consoantes,
de frufus, sussurros e folhas secas.
Nós é que vivíamos nas florestas negras.
De nós é que tinha medo Ovídio em Tomi,
Nós é que adorávamos deuses com nomes
que vocês não conseguiam pronunciar.
Mas também nós conhecemos a solidão
e a angústia, e desejámos a poesia.
Adam Zagajewski
Sombras de Sombras, Selecção e tradução, Marco Bruno, revisão, Jorge Sousa Braga, prefácio, Adam Kirsch, Edições Tinta-da-china, Lda., Lisboa, Novembro de 2017
18.11.17
As coisas
Há em todas as coisas uma mais-que-coisa
fitando-nos como se dissesse: "Sou eu",
algo que já lá não está ou se perdeu
antes da coisa, e essa perda é que é a coisa.
Em certas tardes altas, absolutas,
quando o mundo por fim nos recebe
como se também nós fôssemos mundo,
a nossa própria ausência é uma coisa.
Então acorda a casa e os livros imaginam-nos
do tamanho da sua solidão.
Também nós tivemos um nome
mas, se alguma vez o ouvimos, não o reconhecemos.
Manuel António Pina
COMO SE DESENHA UMA CASA, Assírio & Alvim, Outubro 2011
fitando-nos como se dissesse: "Sou eu",
algo que já lá não está ou se perdeu
antes da coisa, e essa perda é que é a coisa.
Em certas tardes altas, absolutas,
quando o mundo por fim nos recebe
como se também nós fôssemos mundo,
a nossa própria ausência é uma coisa.
Então acorda a casa e os livros imaginam-nos
do tamanho da sua solidão.
Também nós tivemos um nome
mas, se alguma vez o ouvimos, não o reconhecemos.
Manuel António Pina
COMO SE DESENHA UMA CASA, Assírio & Alvim, Outubro 2011
6.11.17
A FONTE
Com voz nascente a fonte nos convida
A renascermos incessantemente
Na luz do antigo Sol nu e recente
E no sussurro da noite primitiva
Sophia de Mello Breyner
11 POEMAS, movimento poesia, distribuições movimento, lda., Lisboa, Maio de 1971
A renascermos incessantemente
Na luz do antigo Sol nu e recente
E no sussurro da noite primitiva
Sophia de Mello Breyner
11 POEMAS, movimento poesia, distribuições movimento, lda., Lisboa, Maio de 1971
29.10.17
24. Agarrámos o tempo
24. Agarrámos o tempo
Com cordas
De esticar memórias
Solavanco branco
Na retina de uma idade
Insubmissa
Tenho por bússola
A inquieta sede
Vapor de cinzas
Na claridade transparente
De águas límpidas
Leonora Rosado
A FENDA NO SANGUE, Editora Licorne
Com cordas
De esticar memórias
Solavanco branco
Na retina de uma idade
Insubmissa
Tenho por bússola
A inquieta sede
Vapor de cinzas
Na claridade transparente
De águas límpidas
Leonora Rosado
A FENDA NO SANGUE, Editora Licorne
12.10.17
[Deu por si]
Deu por si
(arranjar um adjectivo para aqui)
no fundo da vida.
Francisco José Craveiro de Carvalho
Quatro Garrafas de Água, Ilustrações de João Sobral, Companhia das Ilhas, Setembro de 2017
(arranjar um adjectivo para aqui)
no fundo da vida.
Francisco José Craveiro de Carvalho
Quatro Garrafas de Água, Ilustrações de João Sobral, Companhia das Ilhas, Setembro de 2017
4.10.17
VARIAÇÃO
Depois da morte que realidade
é a de termos existido? Há
porventura um passado para a morte?
O que é ter existido quando o real
se moveu para o mundo seu contrário?
Vive ainda a linguagem
quando os órgãos da fala que produzem
o canto se perderam e os lábios
vivem só na memória de por eles
passarem as palavras?
Gastão Cruz
EXISTÊNCIA, Assírio & Alvim, Setembro 2017
é a de termos existido? Há
porventura um passado para a morte?
O que é ter existido quando o real
se moveu para o mundo seu contrário?
Vive ainda a linguagem
quando os órgãos da fala que produzem
o canto se perderam e os lábios
vivem só na memória de por eles
passarem as palavras?
Gastão Cruz
EXISTÊNCIA, Assírio & Alvim, Setembro 2017
30.9.17
A estação impossível
O poema exprime-se em frases entrecortadas
linhas da corrente, irrisórias explosões
mas espera qualquer coisa
suficientemente brilhante
qualquer coisa
para lá dos caudais escoados
que no alto erga
a estação impossível
esse momento em que a língua dos homens
não possa mais mentir
José Tolentino Mendonça
Teoria da Fronteira, Assírio & Alvim, Maio de 2017
linhas da corrente, irrisórias explosões
mas espera qualquer coisa
suficientemente brilhante
qualquer coisa
para lá dos caudais escoados
que no alto erga
a estação impossível
esse momento em que a língua dos homens
não possa mais mentir
José Tolentino Mendonça
Teoria da Fronteira, Assírio & Alvim, Maio de 2017
15.9.17
SEGUNDO RETRATO
De cerúleo gabão, não bem coberto,
Passeia em Santarém chuchado moço,
Mantido às vezes de sucinto almoço,
De ceia casual, jantar incerto:
Dos esburgados peitos quase aberto,
Versos impinge por miúdo e grosso;
E do que em frase vil chamam caroço,
Se o quer, é vox clamantis in deserto:
Pede às moças ternura, e dão-lhe motes!
Que tendo um coração como estalage,
Vão nele acomodando a mil pexotes:
Sabes, leitor, quem sofre tanto ultraje,
Cercado de um tropel de franchinotes?
É o autor do soneto -- é o Bocage!
Bocage
POESIAS, Os Grandes Clássicos da Literatura Portuguesa, Colecção dirigida por Vasco Graça Moura, Editora Planeta DeAgostini, S.A., Lisboa, 2003
Passeia em Santarém chuchado moço,
Mantido às vezes de sucinto almoço,
De ceia casual, jantar incerto:
Dos esburgados peitos quase aberto,
Versos impinge por miúdo e grosso;
E do que em frase vil chamam caroço,
Se o quer, é vox clamantis in deserto:
Pede às moças ternura, e dão-lhe motes!
Que tendo um coração como estalage,
Vão nele acomodando a mil pexotes:
Sabes, leitor, quem sofre tanto ultraje,
Cercado de um tropel de franchinotes?
É o autor do soneto -- é o Bocage!
Bocage
POESIAS, Os Grandes Clássicos da Literatura Portuguesa, Colecção dirigida por Vasco Graça Moura, Editora Planeta DeAgostini, S.A., Lisboa, 2003
14.9.17
a escrita - Paulo da Costa Domingos
MEDIDAS TOMADAS
A fina película que aparta
da Igreja o Estado, propícia
aos líquidos conteúdos, ao alívio
do tenso músculo, às
ideias feitas, rompeu
e o verbo se fez carne
e a carne, apetecível, encheu-se
de um pó e friccionou-se com
os santos óleos, e...
a Humanidade é aquilo
que hoje bem sabemos.
Paulo da Costa Domingos
a escrita, &etc, Lisboa, Março de 2010
A fina película que aparta
da Igreja o Estado, propícia
aos líquidos conteúdos, ao alívio
do tenso músculo, às
ideias feitas, rompeu
e o verbo se fez carne
e a carne, apetecível, encheu-se
de um pó e friccionou-se com
os santos óleos, e...
a Humanidade é aquilo
que hoje bem sabemos.
Paulo da Costa Domingos
a escrita, &etc, Lisboa, Março de 2010
12.9.17
DE LONGE
Vêm de longe.
Sobre as mãos, sobre o chão caem.
Nada pode detê-las.
Entram pelo sono: redondas
grossas amargas.
E cintilantes.
Estrelas. Ou lágrimas.
Eugénio de Andrade
PEQUENO FORMATO, edição fora do mercado destinada aos amigos da Fundação Eugénio de Andrade, Porto, Fevereiro de 1997
Sobre as mãos, sobre o chão caem.
Nada pode detê-las.
Entram pelo sono: redondas
grossas amargas.
E cintilantes.
Estrelas. Ou lágrimas.
Eugénio de Andrade
PEQUENO FORMATO, edição fora do mercado destinada aos amigos da Fundação Eugénio de Andrade, Porto, Fevereiro de 1997
1.9.17
POSTERIDADE
Um dia eu, que passei metade
da vida voando como passageiro,
tomarei lugar na carlinga
de um monomotor ligeiro
e subirei alto, bem alto,
até desaparecer para além
da última nuvem. Os jornais dirão:
Cansado da terra poeta
fugiu para o céu. E não
voltarei de facto. Serei lembrado
instantes por minha família,
meus amigos, alguma mulher
que amei verdadeiramente
e meus trinta leitores. Então
meu nome começará aparecendo
nas selectas e, para tédio
de mestres e meninos, far-se-ão
edições escolares de meus livros.
Nessa altura estarei esquecido.
Rui Knopfli
USO PARTICULAR (POEMAS ESCOLHIDOS DE RUI KNOPFLI) com prefácio de António Cabrita, do lado esquerdo, Coimbra / Fundão, Julho de 2017
27.8.17
GÊNESE II
no princípio era o verbo
uma vaga voz sem dono
vagando pela via láctea.
depois veio o sujeito
e junto com ele todos
os erros de concordância.
Gregorio Duvivier
É AGORA COMO NUNCA ANTOLOGIA INCOMPLETA DA POESIA CONTEMPORÂNEA BRASILEIRA, Organização e apresentação de Adriana Calcanhotto, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, Abril de 2017
uma vaga voz sem dono
vagando pela via láctea.
depois veio o sujeito
e junto com ele todos
os erros de concordância.
Gregorio Duvivier
É AGORA COMO NUNCA ANTOLOGIA INCOMPLETA DA POESIA CONTEMPORÂNEA BRASILEIRA, Organização e apresentação de Adriana Calcanhotto, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, Abril de 2017
20.8.17
HISTÓRIA
A história, que vem a ser?
mera lembrança esgarçada
algo entre ser e não-ser:
noite névoa nuvem nada.
Entre as palavras que a gravam
e os desacertos dos homens
tudo o que há no mundo some:
Babilônia Tebas Acra.
Que o mais impecável verso
breve afunda feito o resto
(embora mais lentamente
que o bronze, porque mais leve)
sabe o poeta e não o ignora
ao querê-lo eterno agora.
Antonio Cicero
A Cidade e os Livros, prefácio de José Miguel Wisnik, QUASI EDIÇÕES, Fevereiro de 2006
mera lembrança esgarçada
algo entre ser e não-ser:
noite névoa nuvem nada.
Entre as palavras que a gravam
e os desacertos dos homens
tudo o que há no mundo some:
Babilônia Tebas Acra.
Que o mais impecável verso
breve afunda feito o resto
(embora mais lentamente
que o bronze, porque mais leve)
sabe o poeta e não o ignora
ao querê-lo eterno agora.
Antonio Cicero
A Cidade e os Livros, prefácio de José Miguel Wisnik, QUASI EDIÇÕES, Fevereiro de 2006
17.8.17
SUGESTÃO PARA MAIS TARDE
nem licor de figo
nem amaretto
chá de capim santo
com cianureto
Júlio Saraiva
Germina - revista de literatura & arte
nem amaretto
chá de capim santo
com cianureto
Júlio Saraiva
Germina - revista de literatura & arte
8.8.17
MANIA DO SUICÍDIO
Às vezes tenho desejos
de me aproximar serenamente
da linha dos eléctricos
e me estender sobre o asfalto
com a garganta pousada no carril polido.
Estamos cansados
e inquietam-nos trinta e um
problemas desencontrados.
Não tenho coragem de pedir emprestados
os duzentos escudos
e suportar o peso de todas as outras cangas.
Também não quero morrer
definitivamente.
Só queria estar morto até que isto tudo
passasse.
Morrer periodicamente.
Acabarei por pedir os duzentos escudos
e suportar todas as cangas.
De resto, na minha terra
não há eléctricos.
Rui Knopfli
USO PARTICULAR (POEMAS ESCOLHIDOS DE RUI KNOPFLI) com prefácio de António Cabrita, do lado esquerdo, Coimbra / Fundão, Julho de 2017
de me aproximar serenamente
da linha dos eléctricos
e me estender sobre o asfalto
com a garganta pousada no carril polido.
Estamos cansados
e inquietam-nos trinta e um
problemas desencontrados.
Não tenho coragem de pedir emprestados
os duzentos escudos
e suportar o peso de todas as outras cangas.
Também não quero morrer
definitivamente.
Só queria estar morto até que isto tudo
passasse.
Morrer periodicamente.
Acabarei por pedir os duzentos escudos
e suportar todas as cangas.
De resto, na minha terra
não há eléctricos.
Rui Knopfli
USO PARTICULAR (POEMAS ESCOLHIDOS DE RUI KNOPFLI) com prefácio de António Cabrita, do lado esquerdo, Coimbra / Fundão, Julho de 2017
Subscrever:
Mensagens (Atom)