(para Domingos da Mota)
Não irei para o céu. Digo demasiados
palavrões, levanto tempestades em copos
d'água, tenho a maior dificuldade em perdoar
o mal que me fizeram, rasteiras insidiosas
que ao longo das estradas, invariavelmente,
me fazem cair e esfolar os joelhos.
Não irei para o céu, peço a cabeça
dos meus adversários e vejo-me a partir
cada um dos ossos dos meus inimigos,
em vez de ser benigno e lhes dar a outra face.
Não irei para o céu, a uns olho-os de lado
e em certas ocasiões até lhes rosno. Não irei para o céu.
Irei para outro lado, onde a hipocrisia não valha nada
e a verdade doa como espada a retalhar o espírito.
26.2.2026
Amadeu Baptista
colhido no perfil de Amadeu Baptista, no Facebook
27.2.26
23.2.26
Confissão
Usarei a palavra que me resta,
por muito que indicie algum desgaste,
a palavra que luta, que protesta,
a palavra que brilha por contraste
com os dias pejados de negrume
que tendem a fazer da depressão
o lugar ideal para o queixume
desdobrar a penosa confissão.
Usarei a palavra que persigo,
que não digo apenas por dizer,
a palavra vital como o presigo,
que pode resistir se a mantiver
a salvo dos ardis do inimigo
ou dalgum salvador que aparecer.
© Domingos da Mota
(poema publicado, com uma leve alteração, na Antologia Confissões, Lua de Marfim Editora, 2014)
por muito que indicie algum desgaste,
a palavra que luta, que protesta,
a palavra que brilha por contraste
com os dias pejados de negrume
que tendem a fazer da depressão
o lugar ideal para o queixume
desdobrar a penosa confissão.
Usarei a palavra que persigo,
que não digo apenas por dizer,
a palavra vital como o presigo,
que pode resistir se a mantiver
a salvo dos ardis do inimigo
ou dalgum salvador que aparecer.
© Domingos da Mota
(poema publicado, com uma leve alteração, na Antologia Confissões, Lua de Marfim Editora, 2014)
20.2.26
NEM O FIO DA ESPADA
Nem o fio da espada o atravessa,
o fogo não o queima mesmo forte,
a água embora muita não o molha,
o vento violento não o seca
o fogo não o queima mesmo forte,
a água embora muita não o molha,
o vento violento não o seca
e poderão trocar-se o sul e o norte,
destruírem-se enfim o este o oeste,
uma forma qualquer ficar disforme,
terra tornar-se mar e mar a terra,
tudo o que é ser e faz parte do mundo
saber que vai viver breves segundos,
que os polos andarão enlouquecidos -
perene sobre mim não vou esquecer
o teu olhar: sinal de uma certeza
que a morte ignora e para sempre existe.
António Salvado
Ecos do Trajecto seguido de Passo a Passo, Edição Ricardo Neves Produção Lda. - A.23 Edições, 2014: 114
destruírem-se enfim o este o oeste,
uma forma qualquer ficar disforme,
terra tornar-se mar e mar a terra,
tudo o que é ser e faz parte do mundo
saber que vai viver breves segundos,
que os polos andarão enlouquecidos -
perene sobre mim não vou esquecer
o teu olhar: sinal de uma certeza
que a morte ignora e para sempre existe.
António Salvado
Ecos do Trajecto seguido de Passo a Passo, Edição Ricardo Neves Produção Lda. - A.23 Edições, 2014: 114
18.2.26
Quarta-feira de cinzas
É quarta-feira de cinzas
e o sol mostra-se avaro,
mas por muito que ranzinzes,
o tempo, se bem reparo,
não se deixa impressionar
com desgraças ou prenúncios
e tende a continuar
impassível aos anúncios.
O tempo é mesmo assim,
e prossegue o seu caminho
sem cuidar de qualquer fim,
pois quem expira é sozinho
que o faz, mesmo que tenha
a quem dar o santo-e-senha.
© Domingos da Mota
e o sol mostra-se avaro,
mas por muito que ranzinzes,
o tempo, se bem reparo,
não se deixa impressionar
com desgraças ou prenúncios
e tende a continuar
impassível aos anúncios.
O tempo é mesmo assim,
e prossegue o seu caminho
sem cuidar de qualquer fim,
pois quem expira é sozinho
que o faz, mesmo que tenha
a quem dar o santo-e-senha.
© Domingos da Mota
15.2.26
ciática
esta dor aguda, fina
que vai da anca ao pé
e que mói e que amofina,
esta dor danada é
bem pior que a dor de dentes
insuportável, somática
ou não fosse, secamente
a lanceta da ciática.
que vai da anca ao pé
e que mói e que amofina,
esta dor danada é
bem pior que a dor de dentes
insuportável, somática
ou não fosse, secamente
a lanceta da ciática.
Domingos da Mota
12.2.26
'malware'
no nosso computador
o fado é o software
Vasco Graça Moura
sendo o fado o software,
que fazer quando um pirata
dissemina o malware,
bem pior que uma barata
no disco, no disco rígido
de qualquer computador,
e o disco fica frígido,
carregado de estupor?
limpar o vírus? pagar
o resgate em bitcoins,
como decreta o hacker
autoritário, esquizóide
no espaço cibernético,
será útil? será ético?
© Domingos da Mota
7.2.26
Os corvos
Cria corvos e eles te comerão os olhos.
Provérbio espanhol
negrejar os campos
onde espantalhos
serviçais
se agitam?
Pousam.
Crocitam.
© Domingos da Mota
6.2.26
Tu que dás colo ao mostrengo
Tu que dás colo ao mostrengo
sempre que ele aparece,
e o apoias sabendo
que é pior do que parece,
sem cuidar que a natureza
do mostrengo é ser letal
(e que o sonho de grandeza
poderá ser-te fatal);
tu que chocas e embalas
o ovo do escorpião
(e da peçonha não falas,
e ofereces-lhe a mão),
não te agarres ao remorso
quando um dia, esburgado,
for apenas pele e osso
o que sobrar do sonhado.
sempre que ele aparece,
e o apoias sabendo
que é pior do que parece,
sem cuidar que a natureza
do mostrengo é ser letal
(e que o sonho de grandeza
poderá ser-te fatal);
tu que chocas e embalas
o ovo do escorpião
(e da peçonha não falas,
e ofereces-lhe a mão),
não te agarres ao remorso
quando um dia, esburgado,
for apenas pele e osso
o que sobrar do sonhado.
Domingos da Mota
1.2.26
Ad nauseam
Dão-lhe espaço, tempo, corda,
propalam a verborreia
com que o chefe da horda
tece o canto de sereia,
e matraqueiam até
à náusea os soundbites,
dando vazão à má-fé
com que arrebanha os incautos.
propalam a verborreia
com que o chefe da horda
tece o canto de sereia,
e matraqueiam até
à náusea os soundbites,
dando vazão à má-fé
com que arrebanha os incautos.
© Domingos da Mota
25.1.26
Peregrinatio ad loca abjecta
Estão podres as palavras - de passarem
por sórdidas mentiras de canalhas
que as usam ao revés como o carácter deles.
Jorge de Sena
Quem aclama e dá palco
a tanta velhacaria?
Quem no fundo, lá no alto
da tocada soberbia,
incentiva o insulto,
acicata a picardia,
porventura de teúda
e manteúda perfídia?
Mas que polvo financia
as mentiras e trapaças,
e engorda enquanto cria
uma teia de ameaças?
© Domingos da Mota
22.1.26
Tubo de ensaio
Um galo de crista
airada de ódio,
o fogo de vista
de um facho serôdio
num tubo de ensaio
de laboratório?
Não sigo nem caio
no seu relambório.
airada de ódio,
o fogo de vista
de um facho serôdio
num tubo de ensaio
de laboratório?
Não sigo nem caio
no seu relambório.
© Domingos da Mota
1.1.26
Um de Janeiro
Não me mostres nenhum norte
nem estradas para lá
A. M. Pires Cabral
Não venhas com directrizes,
azimutes, direcções:
o tempo, como as raízes,
não precisa de sermões,
de decretos e alvitres
e nem sequer de parábolas,
de conselhos e palpites,
mnemónicas ou cábulas.
Não me indiques qualquer ponto
cardeal, como destino:
encontros e desencontros
farão parte do caminho
sinuoso, porventura
bem pior do que se augura.
Domingos da Mota
Domingos da Mota
[revisto]
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