24.11.18

DESENCONTRO

Que língua estrangeira é esta
que me roça a flor do ouvido,
um vozear sem sentido
que nenhum sentido empresta?
Sussurro de vago tom,
reminiscência de esfinge,
voz que se julga, ou se finge
sentido, e é apenas som.
Contracenamos por gestos,
por sorrisos, por olhares,
rodeios protocolares,
cumprimentos indigestos,
firmes apertos de mão,
passeios de braço dado,
mas por som articulado,
por palavras, isso não.
Antes morrer atolado
na mais negra solidão.

António Gedeão

POESIAS COMPLETAS (1956 - 1967), Portugália Editora, 3.ª edição, Lisboa, Janeiro de 1971

11.11.18

[Tanto pássaro à minha beira a meter-se]

Tanto pássaro à minha beira a meter-se
para entrar nos tercetos.
Já me irritei. Mandei-os tentar os sonetos.

Francisco José Craveiro de Carvalho

Quatro Garrafas de Água, Ilustrações de João Sobral, Companhia das Ilhas, Setembro de 2017

24.10.18

«NÃO FORA O GRITO...»

Não fora o grito         a faca
de súbito rasgando
a fronteira possível
Não fora o rosto         o riso
a serena postura
do cadáver na praia

Não fora a flor     a pétala
recortada em vermelho
o longínquo pregão
o retrato esquecido
o aroma da pólvora
a grade na janela

Não fora o cais        a posse
do nocturno segredo
a víbora     o polícia
o tiro     o passaporte
a carta de Paris
a saudade da amante

Não fora o dente agudo
de nenhum crocodilo

Não fora o mar tão perto
Não fora haver traição

Daniel Filipe


        (A Invenção do Amor e outros poemas)

LÍRICAS PORTUGUESAS II VOLUME, Selecção e Apresentação de Jorge de Sena, Edições 70, Lisboa - Dezembro 83

8.10.18

DUPLICIDADE DO TEMPO

O níquel, o alumínio, o estanho,
e outros assépticos elementos,
ao fim se corrompem: o tempo
injecta em cada um seu veneno.

A merda, o lixo, o corpo podre,
os humores, vivos dejectos
não se corrompem mais: o tempo
seca-os ao fim, com mil cautérios.

João Cabral de Melo Neto

POESIA COMPLETA 1940-1980, Prefácio de Óscar Lopes, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Maio de 1986

29.9.18

IMPROMPTU

E assim te foste, luz de vaga-lume,
feita de segredo e brevidade.
Impossível definir aquele perfume
que o teu surgir me trouxe nessa tarde.

Alberto de Lacerda


Labareda - Poemas escolhidos, Selecção e prefácio: Luís Amorim de Sousa, Edições Tinta-da-china, Lda., Lisboa, Junho de 2018

22.9.18

CARÊNCIA

Eu não sei de pássaros
não conheço a história do fogo.
Mas julgo que a minha solidão deveria ter asas.

*

LA CARENCIA


Yo  no sé de pájaros,
no conozco la historia del fuego.
Pero creo que mi soledad debería tener alas.

Alejandra Pizarnik


Antologia Poética (edição bilingue), Tradução de Alberto Augusto Miranda, Selecção de Poemas de Alberto Augusto Miranda, António Sá Moura, Carlos Saraiva Pinto, o correio dos navios | estratégias criativas, Porto

19.9.18

FILMITALUS

1.

Quando se apagavam as luzes no Sonoro Cine
e no ecrã aparecia a palavra Filmitalus
a tremer como se estivesse à superfície
dum líquido sobre o qual fossem pingando
finas gotas de som (de cítara, parecia),

nós, que com quinze anos tínhamos entrado
(porque o polícia compincha fechou os olhos)
para um filme para maiores de dezoito,
já sabíamos que o filme que aí vinha
era dos 'tais' -- quero dizer, dos que mostravam
beijos que escaldam, alguma coisa
das coxas de uma mulher, alguma coisa
duma cena de alcova,

não demasiado, mas o suficiente
para mais tarde, já entre lençóis,
ajustarmos contas com a actriz, mediante
os manejos solitários do costume --
aquilo a que, por riso e não por pudor,
dávamos o pitoresco nome de gaiola.

2.

E isto no tempo em que Deus não era mais
que uma desajeitada
distorção de si mesmo e, pela severa
boca dos seu vigários, proibia
masturbações e manobras afins --

-- o que, uma vez apaziguadas as hormonas,
nos trazia ressacas contritas, arrependimentos,
juras de que aquela tinha sido a última vez.

Mas agora pergunto eu:
se nos queria castos, arredados do corpo,
porque permitia Deus que se fizessem filmes assim
e houvesse mulheres como Anna Magnani
-- que nos abrasavam e tão facilmente
forçavam as muralhas da nossa castidade?

A. M.Pires Cabral

Trade Mark, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, Agosto de 2018

17.9.18

Guerra

O dedo a tremer de uma mulher
Percorre a lista de vítimas
Na noite da primeira neve.

A casa está gelada e a lista é longa.

Estão lá os nossos nomes todos.

*

War


The trembling finger of a woman
Goes down the list of casualties
On the evening of the first snow.

The house is cold and the list is long.

All our names are included.


Charles Simic

o último soldado de napoleão, tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho, edição Sérgio Ninguém/Eufeme, Setembro de 2018

16.9.18

LOBOS? SÃO MUITOS

Lobos? São muitos.
Mas tu podes ainda
A palavra na língua
Aquietá-los.

Mortos? O mundo.
Mas podes acordá-lo
Sortilégio de vida
Na palavra escrita.

Lúcidos? São poucos.
Mas se farão milhares
Se à lucidez dos poucos
Te juntares.

Raros? Teus preclaros amigos.
E tu mesmo, raro.
Se nas coisas que digo
Acreditares.

Hilda Hist


[Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão, Ed. Massao Ohno, S. Paulo, 1974]

O POVO, MEU POEMA, TE ATRAVESSA, Antologia poética de língua portuguesa nos cem anos da revolução de outubro, Selecção e Prefácio, Francisco Duarte Mangas, Modo de Ler - Centro Literário Marinho, Lda., Porto

5.9.18

POESIA AMERICANA

Embora o nome deles
Não deva ser revelado,
Muddy Waters chamava-se
Mckinley Morganfield,
Howlin' Wolf chamava-se
Chester Burnett,
Bo Diddley chamava-se
Elias Mc Daniels,
Sonny Boy Williamson chamava-se
Aleck Miller,
Slim Harpo chamava-se
James Moore,
E Bob Dylan chama-se
Robert Allen Zimmermann.

José Pascoal

NERVO / 3 colectivo de poesia setembro-dezembro 2018

1.9.18

cançoneta para um ausente

não sei se ainda bolinas
e se te é farta a colheita
dos apêndices
se trabucas ou petiscas
donzelas do intendente

não sei nem o ar de tua
tumba sequer desmente
se ainda inoculas
a rubros golpes de tinto
as musas dos sonetos

não sei sadino irmão
se há ainda eficaz
remédio
pois nesta bela choldra
muita lírica se assemelha
a putrefacto excremento

João Rios

Não é grave ser português, capa Pedro Pousada, Abysmo, Lisboa, Abril 2018

24.8.18

LEGENDA

Quero o silêncio perfeito
onde minha lembrança não abra rios de sangue.

Luís Amaro


DIÁRIO ÍNTIMO 
____________________

DÁDIVA E OUTROS POEMAS, 2.ª Ed., com prefácio de Albano Nogueira & testemunhos epistolares inéditos, &etc 2006

22.8.18

CRIA-SE A MORTE NO TEU LEITO ABERTO

Cria-se a morte no teu leito aberto
entre a rosa deleite e a buganvília
que em mim tinge-se o peito de vermelho
Sei que fazia sempre o meu nó cego

Na vaga cintilante dorme um monstro
marinho que se esconde nos desertos
Apenas se apercebem as doninhas
do rodar deste tempo noites frias

A cal viva lacrado um sobrescrito
existe algures no reino da Moirama
oscila o templo o pêndulo vazio
Cai nos espaços mortos do sigilo

José Afonso

Textos e canções, 3.ª edição revista, Organização Elfriede Engelmayer (1.ª edição, Organização J. H. Santos Barros), Relógio D'Água Editores, Outubro de 2000

15.8.18

Pintura

O céu não clareou completamente, depois da morrinha
No retiro secreto, a meio da jornada, demasiado preguiçoso
                                                                             para sair
Sentado observo a cor verde do musgo
Ele começa a trepar pela minha roupa.

Wang Wei

HABITAR O VAZIO, Versões e Notas de Manuel Silva-Terra, Editora Licorne

14.8.18

Do lado dos abrunheiros

Os frutos alternam entre o vermelho maduro e o verde,
Como se flores de novo desabrochassem
Na montanha, se queremos reter um convidado,
Oferecemos-lhe um copo de aguardente de abrunho.

Wang Wei

HABITAR O VAZIO, Versões e Notas de Manuel Silva-Terra, Editora Licorne

6.8.18

SONETO / SONETO

Poeta sou, se é isto ser poeta.
Distante, oculto, sibilino. Duro
pedaço de corindo, indício obscuro,
gota abissal de música secreta.

Amor apercebida já a seta.

Dor em riste, uma lança de amargura.
Espírito absorto, na sua clausura.
Imóvel, quieto, coração cata-vento.

Poeta sou se ser poeta é isto.

Angústia lancinante. Pavor surdo.
Velada melodia em contraponto.

Calado enigma atrás de intacto selo.

Meu sonho em fuga. Farto e carrancudo.
Na minha nau fantasma único a bordo.

13 de Abril, 1944


*


Poeta soy, si es ello ser poeta.

Lontano, absconto, sibilino. Dura
lasca de corindón, vislumbre obscura,
gota abisal de música secreta.

Amor apercebida da saeta.

Dolor en ristre lanza de amargura.
El espíritu absorto, en su clausura.
Inmóvil, quieto, el corazón veleta.

Poeta soy, si ser poeta es ello.

Angustia lancinante. Pavor sordo.
Vela melodía en contrapunto.

Callado enigma tras intacto sello.

Mi ensueño en fuga. Hastiado y cejijunto.
Y en mi nao fantasma único a bordo.

13 de abril, 1944


León de Greiff


TROCO A MINHA VIDA POR CANDEEIROS VELHOS / CAMBIO MI VIDA POR LÁMPARAS VIEJAS, Antologia Bilingue, Selecção|Hjalmar Greiff, Prefácio Jerónimo Pizarro, Tradução Gastão Cruz, Edição abysmo, Lisboa, Novembro 2014

4.8.18

POESIA

Insectos de lirismo,
Filamentos no ar,
Na hora obscura e verde,
No céu crepuscular.

Vibráveis e eu não via

Nem ouvia vibrar,
Mas a noite crescia,
Mas a tarde ficava...

Enxofre, febre, sono,

Roxas dálias paradas...
Fins de tarde que em mim
Dia e noite não morrem...

Seria o mar tão verde

Ou a tarde cenário?...
Zumbiam frágeis, frágeis
Insectos de lirismo...

Cristovam Pavia


35+15 Poemas, Prefácio de Carlos Poças Falcão, OPERA OMNIA - Edição, Distribuição e Comercialização de Livros, Guimarães, Julho 2018

2.8.18

Verão

Depósitos de cinzas por toda a terra.
Em alguns, as fogueiras do Holi*
ainda ardem lentamente.
Até a lua começou
a proteger-se do sol.


*Holi, também conhecida como festival of colours ou festival of love, é uma celebração 

hindu da primavera.


Summer

Ash pits all across the land,/In some, teh fires of Holi/still smoulder./
Even the moon has begun/to take refuge from the sun.

Eunice de Souza


Coração de Abacate, tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho, edição do lado esquerdo, Coimbra / Fundão, Junho de 2018

1.8.18

A MULHER DE LOT / LA MUJER DE LOT

Ainda ninguém nos esclareceu
se a mulher de Lot foi transformada
em estátua de sal como castigo
pela curiosidade irreprimível
e pela desobediência apenas,
ou se ela se virou pois no meio
de todo aquele incêndio pavoroso
ardia o coração que mais amava.

*


Nadie nos ha aclarado todavía

si la mujer de Lot fue convertida
en estatua de sal como castigo
a la curiosidad irrefrenable
y a la desobediencia solamente,
o si se dio la vuelta porque en medio
de todo aquel incendio pavoroso
ardía el corazón que más amaba.

Amalia Bautista


CORAÇÃO DESABITADO, Selecção e tradução de Inês Dias, Desenhos de Débora Figueiredo, Averno | 2018