06/08/2018

SONETO / SONETO

Poeta sou, se é isto ser poeta.
Distante, oculto, sibilino. Duro
pedaço de corindo, indício obscuro,
gota abissal de música secreta.

Amor apercebida já a seta.

Dor em riste, uma lança de amargura.
Espírito absorto, na sua clausura.
Imóvel, quieto, coração cata-vento.

Poeta sou se ser poeta é isto.

Angústia lancinante. Pavor surdo.
Velada melodia em contraponto.

Calado enigma atrás de intacto selo.

Meu sonho em fuga. Farto e carrancudo.
Na minha nau fantasma único a bordo.

13 de Abril, 1944


*


Poeta soy, si es ello ser poeta.

Lontano, absconto, sibilino. Dura
lasca de corindón, vislumbre obscura,
gota abisal de música secreta.

Amor apercebida da saeta.

Dolor en ristre lanza de amargura.
El espíritu absorto, en su clausura.
Inmóvil, quieto, el corazón veleta.

Poeta soy, si ser poeta es ello.

Angustia lancinante. Pavor sordo.
Vela melodía en contrapunto.

Callado enigma tras intacto sello.

Mi ensueño en fuga. Hastiado y cejijunto.
Y en mi nao fantasma único a bordo.

13 de abril, 1944


León de Greiff


TROCO A MINHA VIDA POR CANDEEIROS VELHOS / CAMBIO MI VIDA POR LÁMPARAS VIEJAS, Antologia Bilingue, Selecção|Hjalmar Greiff, Prefácio Jerónimo Pizarro, Tradução Gastão Cruz, Edição abysmo, Lisboa, Novembro 2014

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