19.6.20

O POEMA ENSINA A CAIR

O poema ensina a cair
sobre os vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede

até à queda vinda
da lenta volúpia de cair,
quando a face atinge o solo
numa curva delgada subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós uma homenagem
póstuma.

Luiza Neto Jorge

poesia 1960-1989, organização e prefácio Fernando Cabral Martins, Assírio & Alvim, Setembro 2001




11.6.20

(Dincas, Sudão)

No tempo em que Deus criou todas as coisas,
criou o sol,
e o sol nasce, e morre, e volta a nascer;
criou a lua,
e a lua nasce, e morre, e volta a nascer;
criou as estrelas,
e as estrelas nascem, e morrem, e voltam a nascer;
criou o homem,
e o homem nasce, e morre, e não volta a nascer.

Herberto Helder

AS MAGIAS ALGUNS EXEMPLOS poemas mudados para português, Assírio & Alvim, Outubro 2010

10.6.20

[Que me quereis, perpétuas saudades?]

Que me quereis, perpétuas saudades?
Com que esperança ainda me enganais?
Que o tempo que se vai não torna mais,
E se torna, não tornam as idades.

Razão é já, ó anos!, que vos vades,
Porque estes tão ligeiros que passais,
Nem todos para um gosto são iguais,
Nem sempre são conformes as vontades.

Aquilo a que já quis é tão mudado
Que quase é outra cousa; porque os dias
Têm o primeiro gosto já danado.

Esperanças de novas alegrias
Não mas deixa a Fortuna e o Tempo errado,
Que do contentamento são espias.

Luís de Camões

Sonetos de Luís de Camões escolhidos por Eugénio de Andrade, Assírio & Alvim, Julho 2000

2.6.20

O GARFO, ANDRÉ KERTÉSZ

No espaço de uma vida
há memórias
às quais permanecemos
mais fiéis.
Vejamos: este garfo
apenas pousado na borda de
um prato vazio lembra
o gesto reparador da mãe
quando chegavas a casa.
Lembra o repouso do guerreiro
a palavra do filósofo
o silêncio do pastor.

Jorge Gomes Miranda

O Caçador de Tempestades, &etc, Abril de 2004

1.6.20

QUADRA

A erudita fala dos poemas lentos
A escura idade dos olhares perversos
A clara noite dos santos eruditos
O eco obscuro dos preclaros versos

Armando Silva Carvalho

SOL A SOL, Assírio & Alvim, Lisboa, Março 2005

20.5.20

EGOÍSMO

Que me importa
amor
que seja dia
ou que seja a noite iluminada

Que me importa
amor
que seja a chuva
ou um novelo de paz a madrugada

Que me importa
amor
que seja o vento
ou a flor o fogo mais aceso

Que me importa
amor
que seja a raiva

Que me importa
amor
que seja o medo

Maria Teresa Horta

MINHA SENHORA DE MIM, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Abril de 1971

PARA FAZER UMA PRADARIA

Para fazer uma pradaria
É preciso um trevo e uma abelha
Uma abelha e um trevo
E fantasia
A fantasia se a houver
fará
O que a abelha não fizer

Emily Dickinson

Tradução de Jorge Sousa Braga

 Emily Dickinson (1830-1886), USA, in Facebook, página de Jorge Sousa Braga, 16 de maio de 2020, às 18:53

18.5.20

AVISOS

É proibido rezar, espirrar
Cuspir, elogiar, ajoelhar-se
Venerar, uivar, expectorar.

Neste recinto é proibido dormir
Inocular, falar, excomungar
Harmonizar, fugir, interceptar.

É estritamente proibido correr.

É proibido fumar e fornicar.

Nicanor Parrra

ACHO QUE VOU MORRER DE POESIA [de Obra Gruesa (1969)], Selecção, tradução, prólogo e notas Miguel Filipe Mochila, Língua Morta, Outubro de 2019

12.5.20

Descalço

Só o descalço deixa marcas no caminho.
De lés a lés percorre a cidade, e ninguém o vê.
A todo o instante atravessa o medo, e ninguém o segue.
Em cada esquina estende a mão, e ninguém o louva.
Só o descalço deixa marcas no caminho.

Só o descalço deixa marcas no caminho.
Diante do sol inventa a manhã, e ninguém o ajuda.
À sombra da árvore abraça a tarde, e ninguém o entende.
Sem eira nem beira edifica a cidade, e ninguém o copia.
Só o descalço deixa marcas no caminho.

Só o descalço deixa marcas no caminho.
Até à loucura conhece as pedras, e ninguém o escuta.
À volta da cidade desdobra o canto, e ninguém o acolhe.
No fundo da noite rasga uma ferida, e veste-se de luz.
Só o descalço deixa marcas no caminho.

Mário Cláudio

Doze Mapas: Poesia Reunida, 1969-2019, prefácio António Carlos Cortez, Edição Glaciar, Lisboa, Outubro de 2019

10.5.20

MULHERES E ÁRVORES

Quando as árvores começam a vestir-se
as mulheres começam a despir-se
Quando as árvores começam a despir-se
as mulheres começam a vestir-se

Jorge Sousa Braga

A Matéria Escura e Outros Poemas, Assírio & Alvim, Porto Editora, Março  de 2020

9.5.20

Outras Viagens

*

aproxima-te do fundo. Da enxada a bater na pedra.
Ou da lama pastosa onde se enterram os pés.
No que não encontrares estará a verdade:
quanto mais fundo, mais nada: uma descida completa.
O fundo é o sítio que os mortos não frequentam com a sua
exactidão.
É a exactidão de um sítio.
Um sítio exacto nem os mortos acolhe.

Rui Nunes

Nocturno Europeu, Relógio D'Água Editores, Novembro de 2014

7.5.20

[Nem uso relógio]

Nem uso relógio.
Há tanta forma de contar o tempo:
Um cigarro dura
cinco minutos,
uma noite de sono oito
horas,
um amor,
um amor,
uma vida,
uma vida.

André Tecedeiro

O Boletim da Pauta, Edição/transcrição: Hélder Teixeira, Abril 2020 #5

3.5.20

ANTÍGONA

Dirão talvez que a
morte não recusa a indulgência.
Às vezes apetece desistir a
meio da corrida
e entregar o corpo à tempestade.

Outros se levantam na vertente declivosa.
De novo se levantam sem
contar as sílabas,
sem medir o lucro.

A cerveja, a juventude, as esplanadas,
o amor: podia
ser tudo tão simples.

José Carlos Barros

O Uso dos Venenos, Língua Morta, Outubro de 2018

29.4.20

NO MESMO LUGAR

(1929)


Casas, cafés e bairro que me rodeais;
que vejo e por onde, há anos e anos, me passeio.

Criei-vos na alegria e nos pesares:
com tantas circunstâncias, com tantas coisas.

E sois-me agora sensação pura e inteira.

Konstantinos Kaváfis

KONSTANTINOS KAVÁFIS 145 POEMAS, Tradução e apresentação de Manuel Resende, FLOP, Outubro de 2017

25.4.20

«QUEM A TEM...»

Não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.

Eu não posso senão ser
desta terra em que nasci.
Embora ao mundo pertença
e sempre a verdade vença,
qual será ser livre aqui,
não hei-de morrer sem saber.

Trocaram tudo em maldade.
É quase um crime viver.
Mas, embora escondam tudo
e me queiram cego e mudo,
não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.

Jorge de Sena

ÀS VEZES SÃO PRECISAS RIMAS DESTAS MANCHMAL BRAUCHT MAN SOLCHE REIME/POESIA POLÍTICA PORTUGUESA E DE EXPRESSÃO ALEMÃ POLITISCHE POESIE IN PORTUGAL UND IM DEUTSCHSPRACHIGEN RAUM (1914-2014) [Obras de Jorge de Sena, Poesia II, Edições 70, Lisboa 1988], Org. Goethe-Institut Portugal, Selecção de Poemas Joachim Sartorius, Fernando J. B. Martinho, João Barrento, Helena Topa, Tinta-da-China edições, Agosto de 2017

20.4.20

Mundo

MUNDO
a tactear-te: interroga
os seus pontos duros,

a amêndoa cercada de pregos: junto dele
assegura-te
que voltas a ti, pelas tuas
margens sensíveis à luz.


Paul Celan

A Morte É Uma Flor, Poemas do Espólio, Tradução, posfácio e notas de João Barrento, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, 1998


19.4.20

[Uma paralela gritou-lhe de longe:]

Uma paralela gritou-lhe de longe:
Não nos podemos encontrar.
Não quero que nos confundam.

Francisco José Craveiro de Carvalho

As sapatilhas de Usain Bolt e outros tercetos, Companhia das Ilhas, Junho de 2015

12.4.20

PÁSSARO EM QUEDA NUM LUGAR SAGRADO

Naqueles dias
vimos o pássaro em queda
num lugar sagrado
Voou com asas todas brancas
e uma cauda como leque de sol
Vimos o remoto relâmpago
o susto do baque
nos vidros mais comuns
a morte, ilusão de transparências
Abandonou outras imagens
idênticas asas perdidas
a glória fulminada
o risco do sangue

E vimos a inspiração do quadro
os homens e as mulheres
num canto do mundo
respirando a luz
como se fosse o silêncio inteiro
Contemplavam depois a própria cegueira
prisioneiros de um pó dourado
com os pés enleados em raízes
do mesmo vermelho vivo

Ficava ao largo
o sacro pescador
absorto na troca das marés
um sifão turvo de peixes
espelhos de espelhos
Prende nas suas redes
o ar da tempestade
lança-as sobre o vazio
o mais submerso mar

José Manuel Teixeira da Silva

Música de Anónimo [poesia, 2001-2009], Companhia das Ilhas, Lajes do Pico, Janeiro de 2015

7.4.20

[A flor tem linguagem de que a sua semente não fala]

A flor tem linguagem de que a sua semente não fala.
A raiz não parece dar aquele fruto.
Não parece que a flor e a semente sejam da mesma linguagem.
Retirada a linguagem
a semente é igual a flor
a flor igual a fruto
fruto igual a semente
destino igual a devir.
E era o que se pedia: igual.

José de Almada Negreiros

Poemas Escolhidos, Assírio & Alvim, Novembro de 2016

O AR APENAS

Donde
te vem
o sono
carne
de febre
ainda
não contida
febre
funesta
que ultrapassa
o som
avião vivo
que voa
sob
o peito
das aves
que no vento
dispersam
todo
o pranto?
O ar
apenas
rarefaz
as lágrimas
bebe
o ácido
feroz
que nem
as nuvens
vivas
o algodão
das penas
retém
no tempo
na rigidez
dum corpo.

Armando da Silva Carvalho

OS OVOS D'OIRO, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Setembro de 1969