20.6.13

DISCURSO TARDIO À MEMÓRIA DE JOSÉ DIAS COELHO

Éramos jovens: falávamos do âmbar
ou dos minúsculos veios de sol espesso
onde começa o verão; e sabíamos 
como a música sobe às torres do trigo.

Sem vocação para a morte, víamos passar os
          barcos,
desatando um a um os nós do silêncio.
Pegavas num fruto: eis o espaço ardente
do ventre, espaço denso, redondo, maduro,

dizias: espaço diurno onde o rumor
do sangue é um rumor de ave --
repara como voa, e pousa nos ombros
da Catarina que não cessam de matar.

Sem vocação para a morte, dizíamos. Também
ela, também ela a não tinha. Na planície
branca era uma fonte: em si trazia
um coração inclinado para a semente do fogo.

Morre-se de ter uns olhos de cristal,
morre-se de ter um corpo, quando subitamente
uma bala descobre a juventude
da nossa carne acesa até aos lábios.

Catarina ou José -- o que é um nome?
Que nome nos impede de morrer,
quando se beija a terra devagar
ou uma criança trazida bela brisa?

1972

Eugénio de Andrade

Homenagens e Outros Epitáfios, Editora Fundação Eugénio de Andrade, Porto, Edição 8.ª, Setembro, 1993

13.6.13

[Pobre velha música!]

Pobre velha música!
Não sei por que agrado,
Enche-se de lágrimas
Meu olhar parado.

Recordo outro ouvir-te.
Não sei se te ouvi
Nessa minha infância
Que me lembra em ti.

Com que ânsia tão raiva
Quero aquele outrora!
E eu era feliz? Não sei:
Fui-o outrora agora.

Fernando Pessoa

POEMAS DE FERNANDO PESSOA, Selecção, prefácio o posfácio de Eduardo Lourenço, revista Visão e JL, Fevereiro de 2006

11.6.13

- O coração - (Stephen Crane)

No deserto,
vi uma criatura nua, brutal,
que de cócoras na terra
tinha o seu próprio coração
nas mãos, e comia...
Disse-lhe: «É bom, amigo?»
«É amargo - respondeu -,
amargo, mas gosto
porque é amargo
e porque é o meu coração.»

AS MAGIAS  ALGUNS EXEMPLOS poemas mudados para português por Herberto Helder, Assírio & Alvim, Lisboa, 2010

2.6.13

[nada pode ser mais complexo que um poema,]

nada pode ser mais complexo que um poema,
organismo superlativo absoluto vivo,
apenas com palavras,
apenas com palavras despropositadas,
movimentos milagrosos de míseras vogais e consoantes,
nada mais que isso,
música,
e o silêncio por ela fora

Herberto Helder

SERVIDÕES, Assírio & Alvim, Porto, Maio de 2013

26.4.13

[Agudas apontaste ao alvo escuro]

60.

Agudas apontaste ao alvo escuro
velhas setas azedas, já nem picam,
antes, de vício, rodam no seu furo
onde vermes e ranhos se fabricam.

Deitado assim de costas escarpadas
(costas devidas ao que adeus me deu),
cuspo calado as palavras opadas
que zurro ao ar e não chegam ao céu.

Deitado ainda, já nem sei que pé,
que força ou rasto ainda me sustente;
persisto e visto a capa que relê

as palavras antigas do presente,
as palavras, as figas: rodapé
do amor a voar, além, ausente.

Pedro Tamen

Rua de Nenhures, Publicações Dom Quixote, Lisboa,  Março de 2013

25.4.13

CIDADE DOS OUTROS

Uma terrível atroz imensa
Desonestidade
Cobre a cidade

Há um murmúrio de combinações
Uma telegrafia
Sem gestos sem sinais sem fios

O mal procura o mal e ambos se entendem
Compram e vendem

E com um sabor a coisa morta
A cidade dos outros
Bate à nossa porta

Sophia de Mello Breyner

GRADES, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Novembro de 1970

18.4.13

Genealogia

Sabia de onde vinha.
Não pretendia escondê-lo. Do pai e da mãe,
uma mesma herança de fome e de ostentação.
Causa, consequência,
agredido, agressor,
um igual legado de ignorância e de escravatura,
de poder e de impotência.
Diria de onde vinha,
e que quando confrontado com a sua própria violência
o tempo acaba sempre por se vingar.
Mais raramente a história.

Madalena de Castro Campos

O FARDO DO HOMEM BRANCO, Edição Companhia das Ilhas, Lajes do Pico, Março de 2013

6.4.13

RESPONSO



Com um  tiro no artelho,
viva o velho!

Com um tiro no abdome,
passa-te  a fome!

Com um tiro no nariz,
«Que é que ele diz?».

Com um tiro no rabo,
podes ir de rabo a cabo!

Com um tiro na cedilha,
terá de ser doutro a filha...

Com um tiro no coração,
oh que sono e que colchão!

Alexandre O'Neill


POESIAS COMPLETAS, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio de 2007





3.4.13

antigos

os amigos puros
como livros eruditos
que ao ser abertos
nos perseguem novos

abertos à faca
de rasgar caminhos
novos pois relidos
pelos passos paralelos

puros porque a faca
nunca trai cobarde
o acaso dos reencontros
e dos regressos

os velhos amigos
chegam sempre a tempo
e ao mesmo tempo
aos seus destinos

a lacre em sangue
olho lince desalmado
sempre fieis ao futuro
amigos longe ao lado

Joaquim Castro Caldas

MÁGOA DAS PEDRAS, Deriva Editores, Porto, Janeiro 2008

1.4.13

DIFÍCIL MEDICINA

Ao curar doenças é preciso usar venenos
uma palavra não quando o sim está na cama.
Pequenas concessões enfraquecem a voz toda
e se um poeta canta esperamos mais um ovo.

Bom para gemadas. Mas há que juntar veneno.
Beba-se a mistura como um álcool que nos queima
e vai matar da cura. O não é como o álcool
em verdade envenenante - o século tresanda!

Basta de alcoólicos. Queremo-nos curados
bons a olhar de novo para a esfinge interrogante.
Havemos de beber outra vez de um vinho puro
nós e as palavras - que elas amam não saber

de sins e de gemadas, de nãos e de venenos.

Carlos Poças Falcão

A NUVEM, Edição: Pedra Formosa, Guimarães, Outubro de 2000

29.3.13

Foi para isso que os poetas foram feitos

semear tempestades
e assegurar que cresçam
foi para isso que os poetas foram feitos

esgrimir com a mais idónea
das espadas: a coragem
foi para isso que os poetas foram feitos

namorar a perfeição
e às vezes alcançá-la
foi para isso que os poetas foram feitos

A. M. Pires Cabral

[A Vista Desarmada, o Tempo Largo, Lisboa, Quetzal], in RESUMO a poesia em 2012, poemas escolhidos por Armando Silva Carvalho, José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós, Manuel de Freitas , Edição Documenta, Lisboa, Março de 2013

26.3.13

[Há dias em que em ti talvez não pense]

                                  1


Há dias em que em ti talvez não pense
a morte mata um pouco a memória dos vivos
é todavia claro e fotográfico o teu rosto
caído não na terra mas no fogo
e se houver um dia em que não pense em ti
estarei contigo dentro do vazio

Gastão Cruz

FOGO, Assírio & Alvim, Porto, Março de 2013

23.3.13

SEGUNDA PESSOA

Alguém diz tu. Alguém sem nome.
É a terra e o corpo e é o rasto de um sentido.
Alguém diz tu à imagem que se esgarça,
à certeza de uma longínqua razão.
Longe. O passado. Nomes, errados nomes de desejo.
Cego de insónia, nem lembrar te posso.
Nem mesmo em sonho saberia ver-te.
És só o pronome, tu, a ondular-me na boca,
norte magnético num desespero em surdina.
És a sílaba que dói a dor solar de um sentido.
A história avança na cabra-cega sem rostos,
e eu vivo em ti o tu mais só da minha vida.

Óscar Lopes


GAZETA literária, número especial quarto, outubro de dois mil e sete, nos vinte e cinco anos da associação dos jornalistas e homens de letras do porto

11.3.13

VELHO POETA QUE TENTA SER MODERNISTA

Também a ele subiram ganas de experimentar
as novas andas.
Alçou-se a elas
e anda com muito cuidado como uma cegonha.
É assombrosa a amplitude de vistas que adquiriu.
Até pode contar as ovelhas do seu vizinho.

Olav H. Hauge

Dropar i austavind, 1966

versão de Amadeu Baptista.

8.3.13

MOEDA

Numa viela, em cima de cartão prensado,
Senta-se mais engelhada que os trapos.
Raspa com as unhas a cabeça do cão atormentado.
O fundo da garrafa serve de caçarola
E atira para aí as moedas.
(Ferrugentas são peças de coleccionadores.)

José Emílio-Nelson

PESA UM BOI NA MINHA LÍNGUA, Edições Afrontamento, 2013

3.3.13

DA LINGUAGEM DAS ÁRVORES E DO VENTO

8.
Cápsula


Tudo se foi embora. Já os sons adormeceram
ou retiraram-se já, como se diz do mar
que abandona a praia;
in-
suportável.
Ficou apenas
o áspero rumor distante da máquina
do mundo. Que funciona mal. Nada
solicita já a tua presença entretanto
inalcançável. A noite solidificou no espaço
entre o sagrado nome das coisas
quietas. Aquele rumor e esta noite são
o que te separa de ti -- frágil distância e
contudo demasiada.

Manuel Gusmão

PEQUENO TRATADO DAS FIGURAS, Assírio & Alvim, Fevereiro de 2013

25.2.13

CANÇÃO DO POEMA INÚTIL

      ao Domingos da Mota, meu amigo

       "Morreram todos a bordo, mas o barco persegue o intento que
        desde o porto vem buscando."

        - Seféris, com tradução do grego do poeta José Paulo Paes -


não me seduz mais caminhar entre mortos neste teatro vazio
as palavras estão gastas como as minhas sandálias de couro cru
não quero mais percorrer essas ruas sem saída
as feridas que trago nos olhos não cicatrizam mais
deixei para trás as esquinas que carregava comigo
herança de madrugadas inúteis
esqueci também a mulher que me esperava com um sorriso
e um por-de-sol nas mãos muito brancas
preciso respirar noutro porto
este aqui não me serve mais: meu navio naufragou - poucos se salvaram
não preciso de sorrisos enviados em garrafas
se não ancorei onde pretendia foi por não conhecer a intimidade dos ventos
os ventos me enganaram
deixei-me trair por uma bússola que pensei existir na palma da minha mão
o norte no entanto era outro e eu não consegui decifrá-lo
em compensação ainda estou vivo
e não sinto mais nenhuma necessidade do poema

Júlio Saraiva

São Paulo, Brasil

colhido no blogue do autor: Currupião.
uma versão (anterior) do poema pode ler-se aqui.

21.2.13

DENTRO

                                "O um é um e não dois"
                    
                                                Parménides, de Platão


estamos dentro de um dentro
              que não tem fora

e não tem fora porque
             o dentro é tudo o que há

e por ser tudo
é o todo:
tem tudo dentro de si

até mesmo o fora se,
               por hipótese,
se admitisse existir

Ferreira Gullar

Em alguma parte alguma, Edição Babel, Lisboa, 2010

18.2.13

Para tambor e voz

Viola violeta violenta violada,
óbvia vertigem caos tão claro,
claustro.
Lápides quentes sobre restos podres,
um resto de café na xícara e mosca.

Adélia Prado

Poesia reunida, 9.º edição, Editora Siciliano, São Paulo, 1999