a Herberto Helder
Ama, simplesmente ama, se o futuro te angustia,
talvez desejes a terra ao céu,
em breve serás somente semente e língua,
asas debruçadas em inventários.
*
Assim ressuscitaria a flor do corpo,
talvez, se não ressuscitasse criatura de artifícios,
como quem, sendo eco, mordesse a terra,
mas como a cobiçaria?
*
E cobiçando-a como me entregaria
ao avulso capricho dos novos felinos: lágrimas
como quem desvive a dor
em troca da nudez que Dante não ousou explicar?
João Rasteiro
PEQUENA RETROSPECTIVA DA ENCENAÇÃO, PEQUEÑA RETROSPECTIVA DE LA PUESTA EN ESCENA, Lastura, Enero, 2014
Pesa dentro de mim
o idioma que não fiz,
aquela língua sem fim
feita de aís e de aquis.
Era uma língua bonita,
música, mais que palavra,
alguma coisa de hitita,
praia de mar de Java.
Um idioma perfeito,
quase não tinha objeto.
Pronomes do caso reto,
nunca acabavam sujeitos.
Tudo era seu múltiplo,
verbo, triplo, prolixo.
Gritos eram os únicos.
O resto, ia pro lixo.
Dois leos em cada pardo,
dois saltos em cada pulo,
eu que só via a metade,
silêncio, está tudo duplo.
Paulo Leminski
POESIA BRASILEIRA DO SÉCULO XX DOS MODERNISTAS À ACTUALIDADE, Selecção, introdução e notas, Jorge Henrique Bastos, Edições Antígona, Lisboa, Fevereiro de 2002
Que vergonha, rapazes! Nós pràqui,
caídos na cerveja ou no uísque,
a enrolar a conversa no «diz que»
e a desnalgar a fêmea («Vist'? Viii!»).
Que miséria, meus filhos! Tão sem jeito
é esta videirunha à portuguesa,
que às vezes me soergo no meu leito
e vejo entrar quarta invasão francesa.
Desejo recalcado, com certeza...
Mas logo desço a rua, encontro o Roque
(«O Roque abre-lhe a porta, nunca toque!»)
e desabafo: - Ó Roque, com franqueza:
Você nunca quis ver outros países?
- Bem queria, Sr. O'Neill! E... as varizes?
Alexandre O'Neill
DE OMBRO NA OMBREIRA, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Setembro de 1969
Ninguém nos moldará de novo em terra e barro,
ninguém animará pela palavra o nosso pó.
Ninguém.
Louvado sejas, Ninguém.
Por amor de ti queremos
florir.
Em direcção
a ti.
Um Nada
fomos, somos, continuaremos
a ser, florescendo:
a rosa do Nada, a
de Ninguém.
Com
o estilete claro-de-alma,
o estame ermo-de-céu,
a corola vermelha
da purpúrea palavra que cantámos
sobre, oh sobre
o espinho.
Paul Celan
SETE ROSAS MAIS TARDE, Antologia Poética, Edição Bilingue, Selecção, tradução e introdução de João Barrento e Y. K. Centeno, Edições Cotovia Lda., Lisboa, 1996
Na carruagem-restaurante tive
a mesma sorte do outro poeta:
serviram-me a viagem
como dobrada fria.
Mas não pude protestar:
foram rasgando folha a folha o livro
de reclamações,
para embrulhar as sandes.
E comi frio.
Ah, que comboio é este,
que comboio, que combate
tão perdido.
A. M. Pires Cabral
QUE COMBOIO É ESTE, Edição Teatro de Vila Real, Dezembro de 2005
1
entram no ninho por um lado põem os ovos
saem por outro tiram os que lá estavam
cucos profissionais são maioria absoluta
Alberto Pimenta
AUTOCATACLISMOS, Pianola, Lisboa, 2014
Custa muito
pra se fazer um poeta.
Palavra por palavra,
fonema por fonema.
Às vezes passa um século
e nenhum fica pronto.
Enquanto isso,
quem paga as contas,
vai ao supermercado,
compra o sapato das crianças?
Ler seu poema não custa nada.
Um poeta se faz com sacrifício.
É uma afronta à relação custo-benefício.
Ricardo Silvestrin
colhido no blogue, Rua das Pretas.
hoje, dia de todos os demónios
irei ao cemitério onde repousa Sá-Carneiro
a gente às vezes esquece a dor dos outros
o trabalho dos outros o coval
dos outros
ora este foi dos tais a quem não deram passaporte
de forma que embarcou clandestino
não tinha política tinha física
mas nem assim o passaram
e quando a coisa estava a ir a mais
tzzt... uma poção de estricnina
deu-lhe a moleza foi dormir
preferiu umas dores no lado esquerdo da alma
uns disparates com as pernas na hora apaziguadora
herói à sua maneira recusou-se
a beber o pátrio mijo
deu a mão ao Antero, foi-se, e pronto,
desembarcou como tinha embarcado
Sem Jeito Para o Negócio
Mário Cesariny
CESARINY UMA GRANDE RAZÃO os poemas maiores, Assírio & Alvim, Lisboa, 2007
Raça de marinheiros, que outra coisa vos chamar,
senhoras que com tanta dignidade
à hora que o calor mais apertar
coroadas de graça e majestade
entrais pela água dentro e fazeis chichi no mar?
Ruy Belo
HOMEM DE PALAVRA(S), Publicações Dom Quixote, Lisboa, Janeiro de 1970
Devias saber
que é sempre tarde
que se nasce, que é
sempre cedo
que se morre. E devias
saber também
que a nenhuma árvore
é lícito escolher
o ramo onde as aves
fazem ninho e as flores
procriam.
Albano Martins
ESCRITO A VERMELHO, Campo das Letras, Editores, S. A., Porto, 1999
Não sei quem me manda a poesia
nem se Quem disso a chamaria.
Mas quem quer que seja, quem for
esse Quem (eu mesmo, meu suor?),
seja mulher, paisagem ou o não
de que há preencher os vãos,
fazer, por exemplo, a muleta
que faz andar minha alma esquerda,
ao Quem que se dá à inglória pena
peço: que meu último poema
mande-o ainda em poema perverso,
de antilira, feito em antiverso.
João Cabral de Melo Neto
Olhos de Orfeu, DOZE POETAS NO PORTO, organização e prefácio de António Roberval Miketen, Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Dezembro de 1985
para o António Barahona
Sufi-
ciência de mão: o saber
cantar o sôpro, partir
com igual lume e rigor,
engenho e arte,
o verso, a sílaba, o pão.
Ricardo Álvaro
Telhados de Vidro, N.º 19 . Maio . 2014, Averno, Lisboa
[a joão ubaldo ribeiro]
há o bigode caído e
redondo dos lados;
o teu olhar achinesado
compreensivo, escuro
azulado
esperançoso.
há o brilho pátrida
na tua testa;
dentes (os) sorrindo para aqui.
o pescoço reptilizante
a camisa que foi azul.
teus cabelos escasseiam;
teu sorriso - em letras -
talvez se eternize...
Ondjaki
DENTRO DE MIM FAZ SUL Seguido de ACTO SANGUÍNEO, Editorial Caminho, 2010.
A folia dos Santos é a da poesia
Vagarosamente entregue às iluminações,
Ao tormento da devoção,
À sintaxe das orações difíceis, talvez não lhes baste repeti-las.
Uma peregrinação pungente de intenções
Reconhecendo a imperfeição
Como pena perpétua.
José Emílio-Nelson
Bacchanalia seguido de Como Falsa Porta [TEOLOGIA CULPOSA], Edições Sem Nome, 2/2014
Erva daninha
Não tiveste ainda tempo de
comemorar a vitória sobre
a corriola e já estás de novo
em guerra agora com o escalracho
Preocupado com as beringelas
os tomates os pepinos de conserva
é uma luta inglória a que se
prenuncia A essa erva
outra se seguirá nem que seja
a mais daninha das ervas
- a poesia
Jorge Sousa Braga
A BULA, Correio do Porto, Julho de 2014
Paramos devagar entre paredes brancas
Entre mobílias escuras e as janelas verdes
Um longo instante paramos em frente
Das mil luzes e mil estátuas do poente
Sophia de Mello Breyner Andresen
O BÚZIO DE CÓS e outros poemas, Editorial Caminho, SA, Lisboa, 1997
III
Se o poema
analisasse
a própria oscilação
interior,
cristalizasse
um outro movimento
mais subtil,
o da estrutura
em que se geram
milénios depois
estas imaginárias
flores calcárias,
acharia
o seu micro-rigor.
Carlos de Oliveira
MICROPAISAGEM, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Setembro de 1969
Foi afixado
nos locais do costume
que É PROIBIDO MENDIGAR.
Logo mão que se descobre
escreveu a tinta por baixo
MAS NÃO É PROIBIDO SER POBRE.
Joaquim Namorado
A POESIA NECESSÁRIA, Cancioneiro, Vértice, Coimbra, 1966
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E, em mim, converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.
Luís de Camões
Sonetos de Luís de Camões escolhidos por Eugénio de Andrade, Assírio & Alvim, Lisboa, Julho de 2000