18.3.26

[Em tudo o que fui ou que não soube]

Em tudo o que fui ou que não soube
   Ou não pude ser
Procuro as palavras exactas para esta manhã
   De um domingo de inverno
   Em que a luz tem a transparência
   Do verão
Procuro uma carícia que possa dizer
Que venho de muito longe
Para este gesto
Tão breve
E de repente
Todas as coisas
Se tornaram claras
Simples
Ou

José da Cruz Santos


José da Cruz Santos: O poeta disfarçado. Entrevista e poemas inéditos

Autor: Francisco Duarte Mangas, Fotografia, Carlos Cunha, Edição, Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Novembro de 2025

17.3.26

Fora de horas

não declines
nem te ausentes
em subjectivos lastros
cantemos de voz túrgida
mas cantemos
os nossos mortos
não perdoam a cobardia e o silêncio
que teima em algemar-nos

Domingos Lobo


quotidianos e outras noites, Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Junho de 2020

15.3.26

Deus Abençoe a América

Lá vão eles outra vez,
Os Ianques e as suas blindadas paradas
Entoando as suas baladas de alegria
A galope pelo vasto mundo
Louvando o Deus da América.

As sarjetas estão entupidas de mortos
Dos que não puderam alistar-se
Dos outros que se recusam a cantar
Dos que estão a perder a voz
Dos que esqueceram a música.

Os cavaleiros têm chicotes que ferem.
A tua cabeça rola para a areia
A tua cabeça é uma poça no lixo
A tua cabeça é uma nódoa no pó
Os teus olhos apagaram-se e o teu nariz
Fareja apenas o fedor dos mortos
E todo o ar morto está vivo
Com o cheiro do Deus da América.


Janeiro 2003


Harold Pinter

Guerra,
Tradução de Pedro Marques, Jorge Silva Melo e Francisco Frazão, edições Quasi







13.3.26

MOAB

Que filhos há-de
parir a mãe de todas
as bombas?

Que terríveis
hecatombes haveremos
de carpir?

Que mostrengos do
seu ventre aguardaremos
que expludam

fulminados pela
fúria da loucura
altipotente? 

© Domingos da Mota

Tempestade seca e outros poemas, Edição Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Agosto, 2025





27.2.26

[Não irei para o céu. Digo demasiados]

(para Domingos da Mota)


Não irei para o céu. Digo demasiados
palavrões, levanto tempestades em copos
d'água, tenho a maior dificuldade em perdoar
o mal que me fizeram, rasteiras insidiosas

que ao longo das estradas, invariavelmente,
me fazem cair e esfolar os joelhos.
Não irei para o céu, peço a cabeça
dos meus adversários e vejo-me a partir

cada um dos ossos dos meus inimigos,
em vez de ser benigno e lhes dar a outra face.
Não irei para o céu, a uns olho-os de lado

e em certas ocasiões até lhes rosno. Não irei para o céu.
Irei para outro lado, onde a hipocrisia não valha nada
e a verdade doa como espada a retalhar o espírito.

26.2.2026

Amadeu Baptista

colhido no perfil de Amadeu Baptista, no Facebook

20.2.26

NEM O FIO DA ESPADA

Nem o fio da espada o atravessa,
o fogo não o queima mesmo forte,
a água embora muita não o molha,
o vento violento não o seca

e poderão trocar-se o sul e o norte,
destruírem-se enfim o este o oeste,
uma forma qualquer ficar disforme,
terra tornar-se mar e mar a terra,

tudo o que é ser e faz parte do mundo
saber que vai viver breves segundos,
que os polos andarão enlouquecidos -

perene sobre mim não vou esquecer
o teu olhar: sinal de uma certeza
que a morte ignora e para sempre existe.



António Salvado

Ecos do Trajecto seguido de Passo a Passo, Edição Ricardo Neves Produção Lda. - A.23 Edições, 2014: 114



14.10.25

Poeiras

Bem cedo hoje de manhã

mangueira na mão o meu vizinho

a correr com o Sara.


Francisco José Craveiro de Carvalho


Dois Primos Gémeos, Edição: Temas Originais, Lda., 2025

10.10.25

[Passos velhos na escada.]

Passos velhos na escada.
Um cansaço já antigo.
Ave desassossegada
Do caminho percorrido.

Uma raiva acetinada
- o corpo todo estremece -
Vem fria indiferente
Colocar-se a teu lado.

De repente decidida
Avança e triunfante
Te envolve e tortura.

Depois hesita. Recua.
Ficas só vendo passar
«A Senhora Dona Morte».


Liberto Cruz

ÚLTIMA COLHEITA [poesia reunida 1954-2021]
, Edição Carlos Nogueira, Officium Lectionis edições, Porto 2022

20.9.25

ALEXANDRA PIZARNIK ATRAVESSA A ZONA PROIBIDA

A vida impõe-me condições a que não sei
responder, não sei como suportar esta réstia de sol
na minha cama, esta noite obstinada
no meu espírito, a sitiar-me o cansaço
de uma culpa insustentável, despovoada.

Não sei o que faço entre a vitória
e a derrota, desprovida de oblação e realidade,
enquanto nada temo e tudo me fere. Aqui se esgotam
as atribulações da bonança e não sei que tormenta

se seguirá. Ah, não fui profeta nesta terra
e as pequenas elegias que escrevi
foram as únicas conivências a que me permiti,
nesta greve de sangue, total e irrespondível.


Amadeu Baptista

As Sombras Nítidas, Edição RJV - Editores, Lda., Castelo Branco, Junho de 2025

11.9.25

Dies Irae

    o ódio sopra uma bolha de desespero
     na vastidão do sistema do mundo do universo e explode

     e. e. cummings


Falo
agora dos tempos cegos,
surdos, das vinganças
cruéis, dos ódios

roucos, do terror
a bramir, do absurdo
encharcado de fé
até aos ossos. Das torres,

do poder, de tanto orgulho
a ruir das alturas,
bruscamente

(do riso amarelo dos abutres)
e da fúria das águias
e dos ventos.

© Domingos da Mota

Bolsa de Valores e Outros Poemas, Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010

3.8.25

IN MEMORIAM

     à minha Mãe


Desaba o sol, o silêncio,
a dor no coração da terra
comovida; na levada

do tempo, no rigor da noite
para sempre desmedida.
Desaba a luz, o sentido — a vida.

Domingos da Mota

Agosto de 2003

Pequeno tratado das sombras, edição Busílis, 2018

2.8.25

Só quando os incêndios

Só quando os incêndios
forem naturais:
relâmpagos, raios,
rajadas de vento
que os acendam
e soprem e alastrem

(sem mãos escondidas,
fogachos e fósforos)
e as trovoadas
súbitas 
e secas
acaso culpadas
forem descobertas;

e nem a montante
do fogo que arde
sequer a jusante
soprar com alarde
o rol de granjeios,
de ganhos, proventos,

promessas, enleios,
desculpas, lamentos;
só quando os incêndios
depois do sol-posto
não derem estipêndios,
nem mesmo em Agosto.

© Domingos da Mota

11.7.25

MORTE

Sabemos que de todas as sementes
é a mais pesada. Havemos de esperar
por ela. Acolhemo-la e nada
podia ser tão nosso. Compreendemos
que no seu interior talvez exista
a última seiva, o rumor de outra
germinação para que fique
junto dela. Descai silenciosa
e devagar. A terra é o nosso corpo.

Fernando Guimarães


(Sete poemas, Revista de Poesia relâmpago N.º 29/30, Outubro de 2011-Abril de 2012, Ano XV)

2.7.25

O VELHO ABUTRE

O velho abutre é sábio e alisa as suas penas
A podridão lhe agrada e seus discursos
Têm o dom de tornar as almas mais pequenas


Sophia de Mello Breyner

Grades, publicações Dom Quixote, Novembro de 1970

10.6.25

Correm turvas as águas deste rio

Correm turvas as águas deste rio
Que as do céu e as do monte as enturbaram;
Os campos florescidos se secaram;
Intratável se fez o vale, e frio.

Passou o verão, passou o ardente estio;
Umas cousas por outra se trocaram;
Os fementidos Fados já deixaram
Do mundo o regimento, ou desvario.

Tem o tempo sua ordem já sabida;
O mundo, não; mas anda tão confuso,
Que parece que dele Deus se esquece.

Casos, opiniões, natura e uso
Fazem que nos pareça desta vida
Que não há nela mais que o que parece.


Luís de Camões


Sonetos de Luís de Camões escolhidos por Eugénio de Andrade, Assírio & Alvim, Julho 2000




7.6.25

A LONGO PRAZO

Valente na medida da sua maldade,

a gota arrisca-se

a perfurar a montanha

nos próximos cem mil anos.


José Emilio Pacheco


A Árvore Tocada pelo Raio, Antologia Poética, Tradução de Miguel Filipe Mochila, Maldoror, 2024

18.4.25

62 teatro da guerra


no teatro
da guerra
cada dia
trabalha
nova companhia.
mas permanece
o encenador
e a peça
é sempre
do mesmo autor.
o actor                                                 esse fenece
esse fenece                                          com a cena
com a cena
e desaparece.
é um teatro
realista
que a toda a hora
muda de artista.




mas de hora a hora deus melhora


Alberto Pimenta

O LABIRINTODONTE, 7 nós, 2012

13.4.25

STABAT MATER (PERGOLESI)

Pranto que afoga

o coração da mulher

que canta

até ao soar

da última nota.


João Pedro Mésseder


Estação dos Líquidos, Elefante Editores, Setembro de 2021