4.9.24

AQUÁRIO

A rima
o ritmo
os moldes formais

Reparo
nos peixes dentro
de água
As ideias
no cérebro devem mover-se
de uma forma semelhante

A rima
o ritmo
os moldes formais


Joan Brossa


TRANSVERSÕES I, poemas reescritos em português por Zetho Cunha Gonçalves [de 22 poemas de Joan Brossa], editora contracapa, Vila Meã, Julho de 2024

21.8.24

MÁ CONSCIÊNCIA

O adjectivo
dá-me de comer.
Se não fora ele
o que houvera de ser?

Vivo de acrescentar às coisas
o que elas não são.
Mas é por cálculo,
não por ilusão.


Alexandre O'Neill

DE OMBRO NA OMBREIRA
, publicações Dom Quixote, Lisboa, Setembro de 1969

10.8.24

DESCRIÇÃO DA GUERRA EM GUERNICA

X


O incêndio desce;
do canto superior direito;
sobre os sótãos,
os degraus das escadas
a oscilar;
hélices, vibrações, percutem os alicerces;
e o fogo, veloz agora, fende-os, desmorona
toda a arquitectura;
as paredes áridas desabam
mas o seu desenho
sobrevive no ar; sustém-no
a terceira mulher; a última; com os braços
erguidos; com o suor da estrela
tatuada na testa.


Carlos de Oliveira

A Leve Têmpora do Vento, Antologia Poética, Selecção e nota de João Pedro Mésseder, Quasi Edições, Novembro de 2001

GINÁSTICA APLICADA

Meu verso cínico é minha terapêutica
e minha ginástica. Nele me penduro
e ergo, em sua precisão de barra fixa.
Nele me exercito em pino flexível,
sílaba a sílaba, movimento controlado
de pulso, e me volteio aparatoso
na pirueta lograda, no lance bem ritmado.

Há um sorriso discreto em minha segurança.

Porém, se às vezes me estatelo, folha Seca
(o verso é difícil e escorregadio), meu verso,
como de vós, ri-se de mim em ar de troça.


Rui Knopfli

Uso Particular (Poemas Escolhidos de Rui Knopfli)
, edição do lado esquerdo, Coimbra / Fundão, Julho de 2017

7.8.24

— Glória —

(Malcolm Lowry)


A glória é como uma terrível catástrofe,
pior que a casa incendiada; enquanto
se abate a trave-mestra, o fragor
da destruição repercute-se cada vez mais depressa;
e tu contemplas tudo aquilo, inane
testemunha da danação.

Como uma bebedeira a glória devora
a casa da alma, revela que trabalhaste
para coisa pouca: para ela -
ah, queria que esse beijo traiçoeiro nunca tivesse
molhado a minha face: queria
fundir-me, só, para sempre, na obscuridade, na noite.


1987 e 1996-97

Herberto Helder 

OUOLOF Poemas Mudados para Português por Herberto Helder, Assírio & Alvim, Lisboa, 1997

5.8.24

HAIKU DO BECO DE SÃO MIGUEL

As palavras são para as ocasiões,
o luto é quotidiano.

Não passou por aqui o amor.


Manuel de Freitas

GAME OVER, &etc, Lisboa, Maio de 2002

31.7.24

Girassóis não tenho

hei-de dizer ao Van Gogh que não tenho girassóis mas
                                     se ele quiser hidranjas azuis
ou mesmo um pinheiro nórdico de cor turquesa e que
                                     abre os braços com ternura
pode vir cá pintar

a porta está aberta


Inácio Nuno Pignatelli

Compêndio de Botânica (árvores, arbustos e plantas de Vila Nova de Cerveira)
, Edições Húmus, Vila Nova de Famalicão, Abril de 2022

27.7.24

[o sol]

o sol
à roda
deixando
sombras nas
costas dos trabalhadores

*

the sun
walks in circles
tossing
shadows onto
laborer's backs


Robert D. Wilson


de: 11 Tanka seguidos de 20 haiku [tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho], DiVersos - Poesia e Tradução | n.º 37 Primavera - Verão 2024

22.7.24

RIZOMAS

As vozes dos poetas
que ouço desde criança
são caules submersos na minha fala
a enviar o rumor das raízes

Todos eles navegam
na superfície da minha língua materna
transportando saberes e ignorâncias
transmitindo negrumes e fulgores
cumprindo desvios e sentidos
na ameaça da certeira eternidade
do pó.


Inês Lourenço


Ainda o Lugar Incerto da Procura, Edição Glaciar, Lisboa, Agosto de 2024

18.7.24

Charleville-Mézières

                                  Para Luís Quintais


O discurso
mais curto
de recusa
do Nobel
foi o de Patti
(a Smith):

Rimbaud.


Francisco José Craveiro de Carvalho


Revoada, Edição Húmus, Vila Nova de Famalicão, Setembro de 2023

10.7.24

[a ocidente e antes que soubesse]

a ocidente      e antes que soubesse
geografia       o mar atravessava
os quartos de dormir      fazia a cava
por dentro das plantas        quem merece

seu tempo não possui      a maresia
crescendo entre muros      da cozinha
ao longo corredor        por aí vinha
em sombras e perfis   talvez o dia

houvesse mais rigor   além a rua
o muro dos jardins     perto um novo
desenho de texturas    e é tanto

o tempo que nos dói    que quase nua
imagem vem à mão   e só o povo
conhece bem a festa   tem seu canto

Diogo Alcoforado

espinho quase sempre
27 exercícios com um desenho do autor, ASA Editores, S. A., Porto, Abril de 2004

9.7.24

LÍRIOS

Um dia deixarei para sempre o casaco no cabide da entrada
outras mãos que não as minhas haverá para o recolher
outros olhos pelos meus lhe hão-de fitar depois a ausência.
Depois, nem isso.
Há um momento em que se estende a toalha sobre a mesa dos mortos
como se tivesse sido sempre a mesa dos vivos. Esse dia virá.
Tudo então estará certo e limpo como o esquecimento.
Ou quase assim.

Dispo agora toda esta roupa e escrevo
- sem frio nem perda nem desastre -
a partir desse dia que virá, esse dia depois de mim:

lírios crescem no acaso vivo da relva
uma leve poeira se acrescenta ao ar que não respiro.

Rosa Maria Martelo

SIRINGE, Averno, Lisboa, Março de 2017

8.7.24

DOIS POEMAS DE VIAGEM

I


A solidão é uma magnólia:
autocarro de gente
um cansaço de
pétalas
sem cor


II


A tristeza do tempo
escorre pelo autocarro,
onde o que não vivemos
espera chegar a casa


André Osório

Sala de Operações, Guerra e Paz, Editores, Lda., Março de 2024

5.7.24

[Bato à tua porta sem medo]

Bato à tua porta sem medo
Não tinha ainda nascido
estava no ventre da minha mãe
quando uma grande tristeza
me invadiu

Nunca mais me deixou desde aí
Está comigo agora
que estou velho e doente
e o tempo me arrasta pelos cabelos

O tempo toca o tambor
Não tenho para onde ir
Deixa-me entrar


Kabir


O Nome Daquele Que Não Tem Nome, versões de Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim, Março de 2016

18.6.24

[Como ave de arribação]

Como ave de arribação
também o chapéu de palha
salta de Verão a Verão.


Francisco José Craveiro de Carvalho

As sapatilhas de Usain Bolt e outros tercetos, Companhia das Ilhas, Junho de 2015

16.6.24

[Ontem é passado]

Ontem é passado
o dia de hoje também acaba
a Primavera foge

 

Yosa Buson 

PRIMEIRO AMOR e outros poemas, Editora Licorne, outubro de 2013

13.6.24

Tomamos a vila depois de um intenso bombardeamento

A criança loura
Jaz no meio da rua.
Tem as tripas de fora
E por uma corda sua
Um comboio que ignora.

A cara está um feixe
De sangue e de nada.
Luz um pequeno peixe
- Dos que bóiam nas banheiras -
À beira da estrada.

Cai sobre a estrada o escuro.
Longe, ainda uma luz doura
A criação do futuro...

E o da criança loura?


Fernando Pessoa

OBRA POÉTICA [Cancioneiro] 
I Volume, Organização, prefácio, cronologia e biografia de João Gaspar Simões, Círculo de Leitores, Lisboa, Janeiro de 1986

11.6.24

HEUREKA

Nosso dever acordados
ver tempo passar na pele
não cantar dogma aos ouvidos
do primeiro que passa sem ele

Nosso alibi sentir caos
possuir no sangue a senha
afastar de nós o vale
que treme olhando a montanha

Nosso corpo o mato as silvas
ter nos nervos explosão
tocar fartos mesmo quando
não temos flauta nem pão


Fernando Grade


Maria Alberta Menéres, E.M.de Melo e Castro, Antologia da Poesia Portuguesa 1940-1977, 2.º Volume, Moraes Editores, Lisboa 1979

10.6.24

Volta a mote

Pus meus olhos nũa funda,
E fiz um tiro com ela
Às grades dũa janela.


Ũa dama, de malvada,
Tomou seus olhos na mão
E tirou-me ũa pedrada
Com eles ao coração.
Armei minha funda então,
E pus os meus olhos nela:
Trape! quebro-lhe a janela.


Luís de Camões


LÍRICA, Terceiro volume das Obras Completas, Edição Círculo de Leitores, Lda., Setembro de 1984, 10.ª edição.

1.6.24

O PÃO

Não é ainda um seio
mas quase. Na brancura.
Porém, onda de leite
a branca levedura.

Um mecanismo incerto
de ferro e madrugada.
A fome e o excesso
futuros. Na seara.

A fome e a carência
de sol(o) para a boca.
Não é ainda um campo
de areia. Ou terra solta.

Um campo descampado
um canto com bolor.
É arte que se move
minéria como a água.

Engenho de palato.
Alvéolo de pulmão.
Respira-se o exemplo
de sol. Oxigénio.

Não é ainda um círculo
branco por toda a mesa:
manchado na toalha
de sombra e aspereza.

Não é ainda uma ave
descendo sobre a pele:
um mecanismo triste
movendo a boca breve.


Nuno Guimarães

Entre Sílabas e Lavas: poesia completa, Assírio & Alvim, Abril de 2024