3.4.20

O MEDO

Ninguém me roubará algumas coisas,
nem acerca de elas saberei transigir;
um pequeno morto morre eternamente
em qualquer sítio de tudo isto.

É a sua morte que eu vivo eternamente
quem quer que eu seja e ele seja.
As minhas palavras voltam eternamente a essa morte
como, imóvel, ao coração de um fruto.

Serei capaz
de não ter medo de nada,
nem de algumas palavras juntas?

Manuel António Pina

POESIA REUNIDA (1974-2001), Assírio & Alvim, Lisboa, Outubro 2001

27.3.20

Provérbios e Cantares

XLIV

   Tudo passa e tudo fica;
mas nossa vida é passar,
passar fazendo caminhos,
uns caminhos sobre o mar.

*

Todo pasa y todo queda,
pero lo nuestro es pasar,
pasar haciendo caminos,
caminos sobre la mar.

António Machado

Antologia Poética, [Campos de Castela], Selecção, tradução, prólogo e notas de José Bento, segunda edição revista e aumentada, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, 1999

26.2.20

A NOITE NOS ACENDE MOVIMENTOS

A noite nos acende movimentos
luminosos. E ampla se diria
ou paz, se não mover-nos
abrisse dentro da brisa.
Mas mesmo que o silêncio
nos alongue a memória e as axilas
respirem o que vemos,
a custo vemos crescerem às pupilas
os vasos de irem vendo
a inclinação das coisas esquecidas.

Fernando Echevarría

POESIA, 1956-1979, Edições Afrontamento, 1989

23.2.20

PAPOILAS

                                             A Izet Sarajlic


Sobre o antigo campo de batalha
onde morreram milhares de rapazes
volta a crescer o trigo, salpicado
aqui e ali por ardentes papoilas.

E dois apaixonados, que terão
mais ou menos a idade dos soldados
que então aqui morreram,
fazem hoje amor entre as searas.

Derrubam o trigo. Esmagam as papoilas.


*

AMAPOLAS

                                                 A Izet Sarajlic


Sobre el antiguo campo de batalla
donde murieron miles de muchachos
vuelve a crecer el trigo, salpicado
aquí y allá de ardientes amapolas.

Y dos enamorados, que tendrán
más o menos la edad de los soldados
que aquí entonces murieron,
hoy hacen el amor en el sembrado.

Tumban el trigo. Aplastan amapolas.

Juan Vicente Piqueras

Instruções para Atravessar o Desertopoemas escolhidos, tradução João Duarte Rodrigues e Manuel Alberto Valente, Porto Editora, Fevereiro de 2019

22.2.20

Pelo sim pelo não

Retiro o que não disse.
Não vá o diabo dizê-las.

Paulo José Borges

Um ócio todo estendido, Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Dezembro de 2019

20.2.20

SE BEM QUE SEJA OUTONO

Se bem que seja outono
e véspera d'inverno,
eu canto a primavera,
nela o meu estro ponho,

que és tu, ilimitada
tão constante presença,
o ar purificado
que sempre de ti vem.

E ali estamos ardendo
sempre desencontrados,
num benéfico espaço
com tão desiguais tempos.

António Salvado

ECOS DO TRAJECTO seguido de PASSO A PASSO, Edição Ricardo Neves Produção, Lda. - A.23 Edições, 2014

19.2.20

DESENCONTRO

Que língua estrangeira é esta
que me roça a flor do ouvido,
um vozear sem sentido
que nenhum sentido empresta?
Sussurro de vago tom,
reminiscência de esfinge,
voz que se julga, ou se finge
sentido, e é apenas som.

Contracenamos por gestos,
por sorrisos, por olhares,
rodeios protocolares,
cumprimentos indigestos,
firmes apertos de mão,
passeios de braço dado,
mas por som articulado,
por palavras, isso não.
Antes morrer atolado
na mais negra solidão.

António Gedeão

POESIAS COMPLETAS (1956-1967), Portugália Editora, Lisboa, Janeiro de 1971

10.2.20

Dado o caso

Escolhe entre os erros
que tens à tua disposição,
mas escolhe certo.
Talvez seja errado
fazer o que está certo
no momento errado,
ou esteja certo
fazer o que é errado
no momento certo?
Um passo ao lado,
impossível de corrigir.
O erro certo,
uma vez desaproveitado,
não é fácil que volte a surgir.

*

Gegebenenfalls

Wähle unter den Fehlern,
die dir gegeben sind,
aber wähle richtig.
Vielleicht ist es falsch,
das Richtige
im falschen Moment
zu tun, oder richtig,
das Falsche
im richtigen Augenblick?
Ein Schritt daneben,
nicht  wieder gut zu machen.
Der richtige Fehler,
einmal versäumt,
kehrt nicht so leicht wieder.

Hans Magnus Enzensberger

66 poemas escolhidos e traduzidos por Alberto Pimenta, edições do Saguão, Outubro de 2019

8.2.20

GOMES LEAL, II

(Grito de Gomes Leal no céu:)

"Cansado de dormir no basalto,
morri e meteram-me numa nuvem de elevador.
E agora cá estou no céu alto
com uma estrela ao peito em vez de flor.

Mas qualquer dia dou um salto.
(Ou peço a um anjo que me transporte
para não quebrar as pernas.)

Estou farto de céu e quero mundo! Quero morte!
Quero dor! Quero tabernas!"

José Gomes Ferreira

Eugénio de Andrade, Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa, Campo das Letras - Editores, S. A., Porto, Novembro de 1999

2.2.20

Um mau exemplo

Nunca quis chegar a sítio algum
nem tampouco a paisagem
me interessou particularmente.

Um pequeno bar de bairro
com uma mesa
de onde ver o mundo apagar
e acender
- debaixo de chuva -
as luzes nos passeios,
chegou-me para ser quase feliz.

Exilado dentro de mim,
nunca à venda
nem a beijar a mão a ninguém,
arrasto a minha epopeia minúscula
- por umas ruas
que nem sequer são já as minhas ruas -
e vou-me afastando.

*


Un mal ejemplo
Nunca quise llegar a ningún sitio/ ni tampoco me interesó/ especialmente
el paisaje.// Un pequeño bar de barrio/ con una mesa/ desde la que ver
el mundo apagarse/ y encenderse/ - bajo la lluvia -/las farolas en las
aceras,/ me ha bastado para ser casi feliz,// Exiliado en mi interior,/ nunca
en venta/ ni besando la mano de nadie,/ arrastro mi minúscula épica/
- por unas calles/ que ni siquiera son ya mis calles -/ y me voy alejando.

Karmelo C. Iribarren

Estas coisas acontecem sempre de repente, tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho, edição do lado esquerdo, Coimbra, Setembro de 2019

29.1.20

SEM TÍTULO

Um lago de luz negra sorveu-te os olhos
Com eles te arrastando e todo o peso do mundo
Cai na mesa onde estás deitado.
Só um vago sorriso ficou de fora
E é só de dentro que nos falas.

O tempo, enfim, deixou-te em paz,
Selou-te o coração com a última rubrica
Mas vem limpar em nós a sua faca.

Manuel Resende

Poesia reunida, Posfácio de Osvaldo M. Silvestre, Edições Cotovia, Lda., Abril, 2018

19.1.20

QUE TRABALHO

Que trabalho exasperado, o da língua,
essa em que dizes com mão insegura
desvios, desacertos, desalinhos.

Eugénio de Andrade

PEQUENO FORMATO, com um retrato de Alfredo Cruz e um desenho do escultor José Rodrigues, em edição fora do mercado, numa tiragem de 250 exemplares destinada aos amigos da Fundação Eugénio de Andrade, Fevereiro de 1997

30.12.19

[No inverno, a árvore]

No inverno, a árvore
pede à neve:
- Agasalha-me!

Albano Martins

Com as Flores do Salgueiro,  Edições Universidade Fernando Pessoa, Porto, 1995

28.12.19

[Oh anda ver]

Oh anda ver
uma bola de neve
a arder

Matsuo Bashô


O GOSTO SOLITÁRIO DO ORVALHO seguido de O CAMINHO ESTREITO, versões e introdução de Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio 2003

26.12.19

SETE PANFLATOS e um provérbio colombiano

6.

Portanto para si acabou a missa do galo!
já lhe disse que estou farta 
de discriminações,
e esta é uma discriminação de base;
não aceito, fim.
Compreendo.
claro que não compreende, os homens
não compreendem da missa a metade!
Quê, da missa do galo?
não é isso, 
mas sabe qual é a discriminação
da missa do galo, sabe?
         .....................................
pois, por que é que não é
da galinha, sabe?
Claro, a galinha não canta!
a galinha não canta!?
Não, nunca ouvi.
então!! depois de pôr o ovo
a galinha não canta?!
Tem razão! e estrelado
é o céu que nós é
nesta noite prometido...
e olhe que escalfado
não lhe fica atrás!
a galinha sabe o que faz
e fica feliz!
o galo não sabe nada e você
também não sabe o que diz!
Então vamos à missa da galinha,
só uma perninha?
isso é outro falar!
mas eu prefiro a asinha.

Alberto Pimenta

ZOMBO, edições Saguão, Lisboa, Maio de 2019

19.12.19

RIR, ROER

E se fôssemos rir,
Rir de tudo, tanto,
Que à força de rir
Nos tornássemos pranto,

Pranto colector
Do que em nós sobeja?
No riso, na dor
Que o homem se veja.

Se veja disforme,
Se disforme for.
Um horror enorme?
Há outro maior...

E se não houver,
O horror é nosso.
Põe o dente a roer,
Leva o dente ao osso!

Alexandre O'Neill

POESIAS COMPLETAS, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio 2007

24.11.19

HOMEM

Inútil definir este animal aflito.
Nem palavras,
nem cinzéis,
nem acordes,
nem pincéis
são gargantas deste grito.
Universo em expansão.
Pincelada de zarcão
desde mais infinito a menos infinito.

António Gedeão

POESIAS COMPLETAS (1956-1967), 3.ª edição, Portugália Editora, Lisboa, Janeiro de 1971

18.11.19

O regresso

Como quem, vindo de países distantes fora de
si, chega finalmente aonde sempre esteve
e encontra tudo no seu lugar,
o passado no passado, o presente no presente,
assim chega o viajante à tardia idade
em que se confundem ele e o caminho.

Entra então pela primeira vez na sua casa
e deita-se pela primeira vez na sua cama.
Para trás ficaram portos, ilhas, lembranças,
cidades, estações do ano.
E come agora por fim um pão primeiro
sem o sabor de palavras estrangeiras na boca.

Manuel António Pina

COMO SE DESENHA UMA CASA, Assírio & Alvim, Lisboa, Outubro 2011

7.11.19

La Maja Desnuda

Ao fundo da sala olhava-me humana e natural
como teria olhado Goya com os braços nus erguidos
atrás da nuca. Todo o corpo
desvendado e sem sombras mitológicas
a esconder a penugem do púbis. Por essa ousadia
inaugural da arte do nu bramiram inquisições
e até outra tela com o nu vestido
cumulou a penitência do herético pintor para ocultar
o inicial desbragamento que permaneceu oculto
mais de um século. Hoje as duas
telas estão na mesma sala descobrindo
a incontáveis visitantes
a impotência das mordaças da Arte.


Madrid, Museo del Prado

Inês Lourenço

Eufeme n.º 13 Magazine de Poesia (Outubro/Dezembro 2019)

1.11.19

[há bens]

há bens
de primeira necessidade
que têm prazo de validade
os corações
por exemplo
este quase não treme
nas tuas mãos está gasto

Alberto Serra

bens de primeira necessidade, selecção e organização de Francisco Duarte Mangas, Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Setembro de 2019