23.12.12

Lêdo Ivo [1924 - 2012]

CANTO GRANDE


Não tenho mais canções de amor.
Joguei tudo pela janela.
Em companhia da linguagem
fiquei, e o mundo se elucida.

Do mar guardei a melhor onda
que é menos móvel que o amor.
E da vida, guardei a dor
de todos os que estão sofrendo.

Sou um homem que perdeu tudo
mas criou a realidade,
fogueira de imagens, depósito
de coisas que jamais explodem.

De tudo quero o essencial:
o aqueduto de uma cidade,
rodovia do litoral,
o refluxo de uma palavra.

Aqui estou, minha canção
enfrenta o inverno, é de concreto.

Meu coração está batendo
sua canção de amor maior.
Bate por toda a humanidade,
em verdade não estou só.

Posso agora comunicar-me
e sei que o mundo é muito grande.
Pela mão, levam-me as palavras
a geografias absolutas.

Lêdo Ivo

POESIA BRASILEIRA DO SÉCULO XX DOS MODERNISTAS  À ACTUALIDADE, Selecção, introdução e notas de Jorge Henrique Bastos, Edições Antígona, Fevereiro de 2002

20.12.12

Pedro Tamen

                                                                           (Sorneto)



Não digo do Natal - digo da nata
do tempo que se coalha com o frio
e nos fica branquíssima e exacta
nas mãos que não sabem de que cio

nasceu esta semente; mas que invade
esses tempos relíquidos e pardos
e faz assim que o coração se agrade
de terrenos de pedras e de cardos

por dezembros cobertos. Só então
é que descobre dias de brancura
esta nova pupila, outra visão,

e as cores da terra são feroz loucura
moídas numa só, e feitas pão
com que a vida resiste, e anda, e dura.

Pedro Tamen

Memória Indescritível, Gótica, Lisboa, 2000

13.12.12

DIÁRIO DE RUM

Enquanto espero a subida das águas
Vou construindo de cabeça
O poema deste dia

Prédios para deitar abaixo
Escalpes de negócios clandestinos
Cães que hesitam a travessia

Os bárbaros chegaram ao governo
Falam línguas.

João Almeida

Telhados de Vidro, N.º 17 . Novembro . 2012

5.12.12

Papiniano Carlos (1918-2012)

A galope
um cavaleiro atravessa a noite.
Inútil perguntar-lhe
o que levava. Galopava.

À desfilada
atravessava noites, abismos, cidades.
Não lhe perguntásseis de onde veio,
aonde ia. Galopava.

Furacão
vingador, arcanjo desencadeado
que resta do que foste? Já não és fogo
nem vento. És cinza, pó. Mas galopas.

Papiniano Carlos

SONHAR A TERRA LIVRE E INSUBMISSA..., Editorial Inova, SARL, Porto, 1973

2.12.12

NESSE NUNCA

Nunca se pensa que virá um dia
em que essa idade como bruma fria
será a que teremos; todavia

nesse nunca está ela já contida:
se o pensamento desconhece a vida,
dela recebe o sangue da ferida

Gastão Cruz

CRATERAS, Assírio &  Alvim, Fevereiro 2010

1.12.12

ARIDEZ

O tempo passa devagar,
à volta das crateras.
Os relógios de pulso e os relógios de pêndulo
param,
tudo pára quando,
nos bosques nocturnos de sangue e pedra,
uma criança retira a última espiga do
cálice fumegante da terra.
É uma vida árida,
um pensamento de montanhas ao longe.
As mulheres,
quando o sol cai do outro lado do mundo,
deitam-se de bruços,
a ouvir a respiração da erva.
Mas ninguém cuida das vinhas.
Passam caravanas sem destino e os condenados
andam em círculo,
abandonados por deus.
É assim o longo silêncio das esferas.

José Agostinho Baptista

QUATRO LUAS, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio 2006

24.11.12

ARITMÉTICA EMOTIVA

Minhas duas irmãs éramos três,
minha mãe e meu pai éramos cinco.
Se existe, sabe Deus como se fez
a nossa casa, com amor e afinco.

Cada um eram cinco duma vez;
eu, à distância, ainda bem o sinto.
A alegria se fez e se refez:
todos brincavam. Hoje só eu brinco

atirando piropos à saudade,
que devolve em imagens. É a maneira
de refazer a tímida unidade

em que nos reunimos de algum modo.
Mas é apenas o fumo da fogueira,
vestígio vago do que foi um todo.

Armando Pinheiro

UMA ANTOLOGIA, Selecção e prefácio de Manuel António Pina com um desenho de José Rodrigues, ASA Editores, S.A., Porto, 2003

19.11.12

Mil Novecentos e Oitenta e Quatro

Recolhemos o gato
na madrugada de sábado,
recém-nascido, ainda com os olhos fechados.

Como uma mãe a um filho,
vigiamos-lhe o sono,
compramos um biberão e leite em pó,
uma tetina,
uma manta de reduzidas dimensões,
branca,
com um desenho negro no dorso,
para lhe lembrar a raça.

Não tendo resistido,
morreu serenamente,
num súbito vagido
e o pêlo encharcado,
quem sabe se pelo esforço
da grande travessia.

Por última mortalha,
metemo-lo num sobrescrito,
para continuar a viagem.

Amadeu Baptista

açougue, &etc, Lisboa, Junho de 2012

16.11.12

Ciclo

Abre o caruncho a rede, o labirinto
De escuras galerias que enfraquecem
A rijeza do cerne resinoso.

Toda a madeira passa nas mandíbulas
Dos insectos roazes, se converte
Em dejectos de pó, remastigados.

Tronco vivo que foi, agora morto,
Tornará o barrote à insondável
Matriz de que outra árvore se alimenta.

José Saramago

Os Poemas Possíveis, Editorial Caminho, Outubro de 1998

15.11.12

[Pode ser esta a hora]

Pode ser esta a hora
de um prodígio
ou de uma sombra funesta

António Ramos Rosa

Em torno do imponderável, Editora Licorne, Lisboa, Outubro de MMXII

13.11.12

Greve


o poema "greve (1962)", de Augusto de Campos

P.S.: Amanhã este blogue vai fazer greve.

11.11.12

NÃO ME MOSTRES NENHUM NORTE

Não me mostres nenhum norte
nem estradas para lá:
são tudo embustes.

Mostra-me antes pedras, folhas mortas
de Outono atapetando o chão das matas,
voos de libelinha rasando o sol poente,
cândidas risadas infantis.

Quero eu dizer: mostra-me coisas
daquelas que se corrompem sem pressa.

A. M. Pires Cabral

COBRA-D´ÁGUA, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, Outubro de 2011

31.10.12

Carlos Drummond de Andrade

RESÍDUO


De tudo ficou um pouco.
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos,
pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
- vazio - de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,

um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures,
na consoante?
no poço?

Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.

De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefactos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver... de aspirina.
De tudo ficou um pouco.

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória

Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vómito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espectáculos e sob a morte de escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.

Carlos Drummond de Andrade

60 Anos de Poesia, Antologia organizada e apresentada por Arnaldo Saraiva, Edições «O Jornal», Lisboa, Março 1985

26.10.12

Só

Sozinho em casa, com a tarde a anoitecer
entram-me na ensonada, enfermiça audição
os desvairados sons da cidade -
sirenes diversas em tumultos distantes.

Sirenes diversas
confusas
vagas, no rodopio das suas aflições indefinidas,
a percorrer as distâncias, as chuvosas curvas abertas
das cinturas internas.

As curvas abertas, distantes,
da cidade que anoitece.

Daniel Maia-Pinto Rodrigues

A Casa da Meia Distância, Mariposa Azual, Lisboa, Janeiro 2010

21.10.12

OS TEMPOS NÃO

Os tempos não vão bons para nós, os mortos.
Fala-se demais nestes tempos (inclusivé   cala-se).
As palavras esmagam-se entre o silêncio
que as cerca e o silêncio que transportam.

É pelo hálito que te conheço   no entanto
o mesmo escultor modelou os teus ouvidos
e a minha voz, agora silenciosa porque nestes tempos
fala-se demais são tempos de poucas palavras.

Falo contigo demais assim me calo e porque
te pertence esta gramática assim te falta
e eis por que todos temos a perder e por que é
cada vez mais pesada a paz dos cemitérios.

Manuel António Pina

AINDA NÃO É O FIM NEM O PRINCÍPIO DO MUNDO CALMA É APENAS UM POUCO TARDE, A Erva Daninha, SCRL, 2.ª edição, Porto, 1982

19.10.12

Manuel António Pina [1943-2012]

Completas


A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.

E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em fundos sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.

Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.

Manuel António Pina

POESIA, SAUDADE DA PROSA uma antologia pessoal, Assírio & Alvim, Lisboa, 2011

14.10.12

[Que os rituais podem ser mortíferos, mesmo entre cristãos]

Que os rituais podem ser mortíferos, mesmo entre cristãos,
Eis o que nos mostra uma triste nova vinda da África do Sul.
Durante um baptismo num rio da Suazilândia,

Um jovem negro afogou-se. Ainda a oração
Do padre não tinha chegado ao fim, já a corrente o arrastava
Rio abaixo, por entre rochas pontiagudas. Os fiéis

Perderam-no de vista em segundos. A cabeça,
Como um melão, foi levada para o centro, afundando-se depois
Num turbilhão mais forte. Metade cristão,

Metade ainda pagão, desapareceu entre as duas margens,
Nas ondas turvas, até receber agonizante
O sacramento do crocodilo.

Durs Grünbein

Aos Queridos Mortos, Tradução e posfácio de Fernando Matos Oliveira, Angelus Novus, Coimbra, 2003

9.10.12

O tempo

O tempo perfura portas cerradas
biombos, tabiques e lapsos
um rangido de ferrugem velha
a mercadoria imaginária que tenhamos

insectos erram de planta em planta
um feto desdobra as grandes folhas
estranhamente espaçosas
nesta estação

A lua sobe no céu
lavado de fresco pelas últimas trovoadas

José Tolentino Mendonça

ESTAÇÃO CENTRAL, Assírio & Alvim, Lisboa, Setembro de 2012

7.10.12

IMITAÇÃO DE OVÍDIO

II


mas que memória
podemos ter
de nós?
e de qual tempo?

deste tempo exterior
em que
depois de criados
e decifrados
os consensuais alfabetos
da exploração
da vida
chegou o projecto Stardust
com material inalterado
desde o início
do sistema solar,
que não nos diz
se então já havia actos de amor
e portanto
não nos diz nada (?)

(...)

Alberto Pimenta

IMITAÇÃO DE OVÍDIO, & etc, 2006