dizem que a coisa é assim: a grande sonsa
crepuscular alastra pelas veias,
fogem tacto e olfacto à geringonça
e o gosto, o ouvido, a vista e as ideias.
o cabelo suado, a barba intonsa,
as demais circunstâncias muito feias,
alguma gente em pranto que responsa
num negrume confuso de alcateias.
deitam o olho às jóias, à mobília,
os membros menos tristes da família
e a chuva dá nos vidros grosso açoite.
vai-se em cata da agência à luz das velas
nas páginas abertas, amarelas,
a murmurar: "- não passa desta noite."
Vasco Graça Moura
uma carta no inverno, Quetzal Editores, Lisboa, Março de 1997
27.4.14
25.4.14
MANIFESTAÇÃO
Manifestantes e avarandados entreolham-se.
O olhar trocou-se.
Não se trocou o cheiro.
Alexandre O'Neill
POESIAS COMPLETAS, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio 2007
O olhar trocou-se.
Não se trocou o cheiro.
Alexandre O'Neill
POESIAS COMPLETAS, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio 2007
23.3.14
SONETO FUNCIONÁRIO
Agente que sou vil do desperdício,
funcionário sem rosto e sem vergonha,
pior que rama reles, meretrício,
redundância fatal que nem se sonha
nos piores pesadelos das Finanças,
imagem que o desprezo fez profundo,
como lixo deixado das mudanças
ou esgoto a escorrer de um torvo mundo,
recuso-me a pensar por vossas mentes,
olhais-me e eu sou só indiferença,
e meus actos se fazem mais ausentes
à medida que o ódio em mim pensa.
Este foi o soneto funcionário
que escreveu um poeta panfletário!
Luís Filipe Castro Mendes
A MISERICÓRDIA DOS MERCADOS, Assírio & Alvim, Porto, Janeiro de 2014
funcionário sem rosto e sem vergonha,
pior que rama reles, meretrício,
redundância fatal que nem se sonha
nos piores pesadelos das Finanças,
imagem que o desprezo fez profundo,
como lixo deixado das mudanças
ou esgoto a escorrer de um torvo mundo,
recuso-me a pensar por vossas mentes,
olhais-me e eu sou só indiferença,
e meus actos se fazem mais ausentes
à medida que o ódio em mim pensa.
Este foi o soneto funcionário
que escreveu um poeta panfletário!
Luís Filipe Castro Mendes
A MISERICÓRDIA DOS MERCADOS, Assírio & Alvim, Porto, Janeiro de 2014
19.3.14
Do tempo
Tudo se gasta.
As estradas, os carros, a noite,
os cenários urbanos,
o areal privativo
de um mês de outono,
a Foz do Douro,
o mar, os astros, Deus
e o paraíso,
o rosto que jurámos,
de tudo se prevê um fim, e nós,
seres curvados,
genéticos, sozinhos, caminhamos.
Nuno Dempster
NA LUZ INCLINADA, Companhia das Ilhas, Lajes do Pico, Março de 2014
As estradas, os carros, a noite,
os cenários urbanos,
o areal privativo
de um mês de outono,
a Foz do Douro,
o mar, os astros, Deus
e o paraíso,
o rosto que jurámos,
de tudo se prevê um fim, e nós,
seres curvados,
genéticos, sozinhos, caminhamos.
Nuno Dempster
NA LUZ INCLINADA, Companhia das Ilhas, Lajes do Pico, Março de 2014
6.3.14
O SUPLÍCIO
A febre parece-se com Deus.
A loucura a última oração.
Longo tempo bebi por um estranho cálice
feito de álcool e de fezes
e vi na maré do copo os peixes
atrozmente brancos do sonho.
E ao erguer o copo digo
a Deus, ofereço-te este suplício
e esta hóstia nascida do sangue
que de todos os olhos brota
como que ordenando-me que beba, como que ordenando-me que
morra
para quando por fim for ninguém
ser igual a Deus.
Leopoldo María Panero
POESIA ESPANHOLA DE AGORA/ POESÍA ESPAÑOLA DE AHORA, volume I, pág. 159, de Joaquim Manuel Magalhães, Posfácio de José Ángel Cilleruelo, Relógio d'Agua Edoitores, Lda., Lisboa, Janeiro de 1997
A loucura a última oração.
Longo tempo bebi por um estranho cálice
feito de álcool e de fezes
e vi na maré do copo os peixes
atrozmente brancos do sonho.
E ao erguer o copo digo
a Deus, ofereço-te este suplício
e esta hóstia nascida do sangue
que de todos os olhos brota
como que ordenando-me que beba, como que ordenando-me que
morra
para quando por fim for ninguém
ser igual a Deus.
Leopoldo María Panero
POESIA ESPANHOLA DE AGORA/ POESÍA ESPAÑOLA DE AHORA, volume I, pág. 159, de Joaquim Manuel Magalhães, Posfácio de José Ángel Cilleruelo, Relógio d'Agua Edoitores, Lda., Lisboa, Janeiro de 1997
19.1.14
O INOMINÁVEL
Nunca
dos nossos lábios aproximaste
o ouvido; nunca
ao nosso ouvido encostaste os lábios;
és o silêncio,
o duro espesso impenetrável
silêncio sem figura.
Escutamos, bebemos o silêncio
nas próprias mãos
e nada nos une
- nem sequer sabemos se tens nome.
Eugénio de Andrade
Poesia [ofício de paciência], Fundação Eugénio de Andrade, 2000
dos nossos lábios aproximaste
o ouvido; nunca
ao nosso ouvido encostaste os lábios;
és o silêncio,
o duro espesso impenetrável
silêncio sem figura.
Escutamos, bebemos o silêncio
nas próprias mãos
e nada nos une
- nem sequer sabemos se tens nome.
Eugénio de Andrade
Poesia [ofício de paciência], Fundação Eugénio de Andrade, 2000
10.12.13
PUNHAL EXCELENTE
Já quase não há, o punhal excelente
com que a mim próprio me esventrei algumas vezes
para melhor me desentranhar em versos --
-- esses lícitos salpicos de lama,
essas coisas à toa, hossanas, ambições,
promessas, juras, astutas
ingenuidades: toda essa merda que há
dentro do poeta e com que ele gosta
de borrifar os outros. Para que
não se fiquem a rir.
E eis que agoniza: o gume rombo,
manchas inamovíveis de ferrugem,
incapaz de incisões, definitivamente
inoperacional o punhal excelente.
Paz ao seu aço.
A. M. Pires Cabral
gaveta do fundo, Edições Tinta-da-China, Lda., Lisboa, Novembro de 2013
com que a mim próprio me esventrei algumas vezes
para melhor me desentranhar em versos --
-- esses lícitos salpicos de lama,
essas coisas à toa, hossanas, ambições,
promessas, juras, astutas
ingenuidades: toda essa merda que há
dentro do poeta e com que ele gosta
de borrifar os outros. Para que
não se fiquem a rir.
E eis que agoniza: o gume rombo,
manchas inamovíveis de ferrugem,
incapaz de incisões, definitivamente
inoperacional o punhal excelente.
Paz ao seu aço.
A. M. Pires Cabral
gaveta do fundo, Edições Tinta-da-China, Lda., Lisboa, Novembro de 2013
18.11.13
Relatório
É um mundo pequeno,
habitado por animais pequenos
- a dúvida, a possibilidade da morte -
e iluminado pela luz hesitante de
pequenos astros - o rumor dos livros,
os teus passos subindo as escadas,
o gato perseguindo pela sala
o último raio de sol da tarde.
Dir-se-ia antes uma casa,
um pouco mais alta que um império
e um pouco mais indecifrável
que a palavra casa; não fulge.
Em certas noites, porém,
sai de si e de mim
e fica suspensa lá fora
entre a memória e o remorso de outra vida.
Então, com as luzes apagadas,
ouço vozes chamando,
palavras mortas nunca pronunciadas
e a agonia interminável das coisas acabadas.
Manuel António Pina
COMO SE DESENHA UMA CASA, Assírio & Alvim, Lisboa, Outubro 2011
habitado por animais pequenos
- a dúvida, a possibilidade da morte -
e iluminado pela luz hesitante de
pequenos astros - o rumor dos livros,
os teus passos subindo as escadas,
o gato perseguindo pela sala
o último raio de sol da tarde.
Dir-se-ia antes uma casa,
um pouco mais alta que um império
e um pouco mais indecifrável
que a palavra casa; não fulge.
Em certas noites, porém,
sai de si e de mim
e fica suspensa lá fora
entre a memória e o remorso de outra vida.
Então, com as luzes apagadas,
ouço vozes chamando,
palavras mortas nunca pronunciadas
e a agonia interminável das coisas acabadas.
Manuel António Pina
COMO SE DESENHA UMA CASA, Assírio & Alvim, Lisboa, Outubro 2011
6.11.13
Filhos da época
Somos filhos da época
e a época é política.
Todos os teus, nossos, vossos
problemas diurnos e nocturnos
são problemas políticos.
Quer queiras quer não,
os teus genes têm passado político,
a pele um tom político,
os olhos um aspecto político.
O que dizes tem ressonância,
o que calas tem expressão,
seja como for, política.
Mesmo passeando pelo campo,
dás passos políticos
em solo político.
Poemas apolíticos são também políticos
e lá em cima brilha a lua,
unidade que deixou de ser lunar.
Ser ou não ser, eis a questão.
Que questão, diz, querido.
A questão política.
Nem é preciso ser humano
para ganhar importância política.
Chega que sejas petróleo,
ração composta ou matéria reciclável.
Ou a mesa de debate,
cuja forma foi discutida meses a fio:
em que mesa se negoceiam a vida e a morte?
Redonda ou quadrada?
Entretanto pereciam homens,
morriam animais,
ardiam casas,
tornavam-se os campos bravios
como nos tempos antigos
e menos políticos.
Wislawa Szymborska
Alguns gostam de poesia (Gente na ponte), Antologia, Czeslaw Milosz e Wislawa Szymborska, Cavalo de Ferro Editores, Lda., Lisboa, Março de 2004
e a época é política.
Todos os teus, nossos, vossos
problemas diurnos e nocturnos
são problemas políticos.
Quer queiras quer não,
os teus genes têm passado político,
a pele um tom político,
os olhos um aspecto político.
O que dizes tem ressonância,
o que calas tem expressão,
seja como for, política.
Mesmo passeando pelo campo,
dás passos políticos
em solo político.
Poemas apolíticos são também políticos
e lá em cima brilha a lua,
unidade que deixou de ser lunar.
Ser ou não ser, eis a questão.
Que questão, diz, querido.
A questão política.
Nem é preciso ser humano
para ganhar importância política.
Chega que sejas petróleo,
ração composta ou matéria reciclável.
Ou a mesa de debate,
cuja forma foi discutida meses a fio:
em que mesa se negoceiam a vida e a morte?
Redonda ou quadrada?
Entretanto pereciam homens,
morriam animais,
ardiam casas,
tornavam-se os campos bravios
como nos tempos antigos
e menos políticos.
Wislawa Szymborska
Alguns gostam de poesia (Gente na ponte), Antologia, Czeslaw Milosz e Wislawa Szymborska, Cavalo de Ferro Editores, Lda., Lisboa, Março de 2004
6.10.13
Meditação íntima do Infante D. Fernando sobre Ceuta e a sua vida
"De honra e fé atapetaram
os verdugos meus passos. As razões
de estado me pedem santidade;
a burocracia espera apenas a data
para me erguer altar.
A tudo assisto
com ironia e distância enquanto
minha vida lentamente passa.
Que Deus me dê paciência e raios
levem esta maldita praça!"
Alberto Soares
(Arquivo Mortal, 2013)
colhido no blogue Arpose, em Notas de Leitura VI: Sobre a poesia de Alberto Soares, de HN)
os verdugos meus passos. As razões
de estado me pedem santidade;
a burocracia espera apenas a data
para me erguer altar.
A tudo assisto
com ironia e distância enquanto
minha vida lentamente passa.
Que Deus me dê paciência e raios
levem esta maldita praça!"
Alberto Soares
(Arquivo Mortal, 2013)
colhido no blogue Arpose, em Notas de Leitura VI: Sobre a poesia de Alberto Soares, de HN)
23.9.13
António Ramos Rosa (1924-2013)
[Em qualquer parte um homem]Em qualquer parte um homemdiscretamente morre.Ergueu uma flor.Levantou uma cidade.Enquanto o sol perduraou uma nuvem passasurge uma nova imagem.Em qualquer parte um homemabre o seu punho e ri.
António Ramos Rosa
O GRITO CLARO, (selecção de poemas) [Primeira Parte], Colecção «A Palavra», n.º 1, Faro, 1958
13.9.13
UMA LARANJA PARA ALBERTO CAEIRO
Venho simplesmente dizer
que uma laranja é uma laranja
e comove saber que não é ave
se o fosse não seriam ambas
uma só coisa volátil e doce
de que a ave é o impulso de partir
e a laranja o instinto de ficar.
Não sei de nada mais eterno
do que haver sempre uma só coisa
e ela ser muitas e diferentes
e cada coisa ternamente ocupar
só o espaço que pode rodeada
pelo espaço que a pode rodear.
Sei que depois de laranja
a laranja poderá ser até
mesmo laranja se necessária
mas cada vez que o for
sê-lo-á rigorosamente
como se de laranja fosse
a exacta fome inadiável.
De ser laranja gomo a gomo
o íntimo pomo se enternece
e não cabe em si de amor
embriagada de saber
que a sua morte nos será doce.
Natália Correia
O VINHO E A LIRA, Edição de Fernando Ribeiro de Mello, Lisboa
que uma laranja é uma laranja
e comove saber que não é ave
se o fosse não seriam ambas
uma só coisa volátil e doce
de que a ave é o impulso de partir
e a laranja o instinto de ficar.
Não sei de nada mais eterno
do que haver sempre uma só coisa
e ela ser muitas e diferentes
e cada coisa ternamente ocupar
só o espaço que pode rodeada
pelo espaço que a pode rodear.
Sei que depois de laranja
a laranja poderá ser até
mesmo laranja se necessária
mas cada vez que o for
sê-lo-á rigorosamente
como se de laranja fosse
a exacta fome inadiável.
De ser laranja gomo a gomo
o íntimo pomo se enternece
e não cabe em si de amor
embriagada de saber
que a sua morte nos será doce.
Natália Correia
O VINHO E A LIRA, Edição de Fernando Ribeiro de Mello, Lisboa
4.9.13
"Aquisição fabulosa"
Para João Cabral de Melo Neto
Lapidar o poema.
Lançá-lo limpo à língua,
Sem o peso do vácuo.
Palavra por palavra,
Sem prematura pressa.
Palavra por palavra,
Sem proezas supérfluas.
Palavra por palavra,
Sem pretensões precárias.
Para depois de pronto,
Aos deuses, devolvê-lo,
Sem o peso do véu.
Adriano Nunes
(Publicado com a autorização do poeta. Mais poemas do autor, entre outros sítios, em Que Faço Como Que Não Faço).
Lapidar o poema.
Lançá-lo limpo à língua,
Sem o peso do vácuo.
Palavra por palavra,
Sem prematura pressa.
Palavra por palavra,
Sem proezas supérfluas.
Palavra por palavra,
Sem pretensões precárias.
Para depois de pronto,
Aos deuses, devolvê-lo,
Sem o peso do véu.
Adriano Nunes
(Publicado com a autorização do poeta. Mais poemas do autor, entre outros sítios, em Que Faço Como Que Não Faço).
30.8.13
Num tempo póstumo
Por vontade dela, todos os poetas
Iam parar ao nono círculo, mordendo-se
No crânio, sôfregos de cérebro, num nexo
De egoísmo e raiva, inferno dos maldizentes.
Inflexíveis, ambiciosos, acirrados,
Presos das maxilas, ferozes como bestas
Disputando-se o lugar, cravados, montados
Como Ugolino no arcebispo Rogério.
E quando ela fizesse o percurso gelado,
Guiada e apoiada pela mulher de Virgílio,
Eu gritava: "Meu amor, quem é o laureado
No nosso país verde lá em cima, qual a vida
Mais dedicada e exemplar?". Diria ela:
"Os meus ouvidos de viúva não atendem
Às notícias sulfurosas de poetas
E poesia. Não podias, no nosso tempo,
Libertar-te mais vezes, descer risonho
Do teu quarto, e passear comigo ao sol-pôr,
E com os teus filhos - como naquele serão
De feno e flores, as rosas bravas já a murchar?"
E ainda (outro autor ferrando-me já a nuca):
"Não eras o pior. Ansiavas por um tacto
Afável e indiferente, tipo 'todos têm culpa'.
Primeiro nós, depois os livros, abandonaste."
Seamus Heaney
DA TERRA À LUZ poemas 1966 - 1987, Tradução, prefácio e notas de Rui Carvalho Homem, Relógio D'Água Editores, Janeiro de 1997
Iam parar ao nono círculo, mordendo-se
No crânio, sôfregos de cérebro, num nexo
De egoísmo e raiva, inferno dos maldizentes.
Inflexíveis, ambiciosos, acirrados,
Presos das maxilas, ferozes como bestas
Disputando-se o lugar, cravados, montados
Como Ugolino no arcebispo Rogério.
E quando ela fizesse o percurso gelado,
Guiada e apoiada pela mulher de Virgílio,
Eu gritava: "Meu amor, quem é o laureado
No nosso país verde lá em cima, qual a vida
Mais dedicada e exemplar?". Diria ela:
"Os meus ouvidos de viúva não atendem
Às notícias sulfurosas de poetas
E poesia. Não podias, no nosso tempo,
Libertar-te mais vezes, descer risonho
Do teu quarto, e passear comigo ao sol-pôr,
E com os teus filhos - como naquele serão
De feno e flores, as rosas bravas já a murchar?"
E ainda (outro autor ferrando-me já a nuca):
"Não eras o pior. Ansiavas por um tacto
Afável e indiferente, tipo 'todos têm culpa'.
Primeiro nós, depois os livros, abandonaste."
Seamus Heaney
DA TERRA À LUZ poemas 1966 - 1987, Tradução, prefácio e notas de Rui Carvalho Homem, Relógio D'Água Editores, Janeiro de 1997
9.8.13
Desconstrução da luz
Chovia sobre a sombra
das ruas pobres
penteadas para o turismo
Era uma chuva silenciosa
rala
pobre ela também de luz
E o amigo
que já não via as palmeiras
navegantes do seu sonhar
deslizava para a morte
numa poeira dourada de sons
cansados da própria beleza
Sentimos o primeiro sopro
do luto que chegava
a branco e negro
2007
Urbano Tavares Rodrigues
Horas de Vidro [Poemas do Novo Século], Publicações Dom Quixote, Lda., Lisboa, Fevereiro de 2011
das ruas pobres
penteadas para o turismo
Era uma chuva silenciosa
rala
pobre ela também de luz
E o amigo
que já não via as palmeiras
navegantes do seu sonhar
deslizava para a morte
numa poeira dourada de sons
cansados da própria beleza
Sentimos o primeiro sopro
do luto que chegava
a branco e negro
2007
Urbano Tavares Rodrigues
Horas de Vidro [Poemas do Novo Século], Publicações Dom Quixote, Lda., Lisboa, Fevereiro de 2011
17.7.13
de nada - 12
oh
se os tivessem
assassinado na juventude
oh
mas o passado
sabe
proteger-se
não sei já
de qual deles falávamos
se era de todos
de todos os que tiveram
os seus incêndios do Reichstag
Bush
o seu 11 de Setembro
Pinochet
as suas panelas das domésticas
já não sei
mas que adiantava
neste mundo
onde os criminosos se instalaram
com a sua conhecida lei
dos 3 magos do Ocidente
Elias
Melias
Melambes
Alberto Pimenta
de nada, Edição Boca - palavras que alimentam, Lda., Novembro de 2012
se os tivessem
assassinado na juventude
oh
mas o passado
sabe
proteger-se
não sei já
de qual deles falávamos
se era de todos
de todos os que tiveram
os seus incêndios do Reichstag
Bush
o seu 11 de Setembro
Pinochet
as suas panelas das domésticas
já não sei
mas que adiantava
neste mundo
onde os criminosos se instalaram
com a sua conhecida lei
dos 3 magos do Ocidente
Elias
Melias
Melambes
Alberto Pimenta
de nada, Edição Boca - palavras que alimentam, Lda., Novembro de 2012
13.7.13
[Eu tenho de nação ideias desmembradas]
Eu tenho de nação ideias desmembradas,
comungo do ranger de dentes
com os vizinhos,
comungo de açularem
os perros uns contra os outros,
mas não eu contra todos,
só contra alguns,
e mesmo assim
isolo-me no bosque do silêncio,
fujo para esta folha,
os cães ficam lá fora.
No entanto, eu que empunhei o fogo
sem Deus se ter lembrado
de chamar a águia,
quando os sinos e as sirenes
soarem a rebate, terei de ir,
o fígado desfeito por cirroses
somadas de desgosto,
embora aos meus vizinhos
pouco falte para se armarem
nos conflitos de bairro,
em defesa do quarto e da cozinha.
No fundo, sei que sou o tempo,
as minhas coordenadas e as alheias,
e daí que haja tempo para tudo,
um tempo para a paz,
um tempo para a vida,
um tempo para a guerra e para a morte,
um tempo para ser-se tudo e nada
ao mesmo tempo, a pele dos outros
que desvisto com suma falta de piedade.
Daí que não acredite em maiorias.
As maiorias são volúveis,
fácil é comprar-lhes
a consciência e o nome da rua,
e agora os estrangeiros chegam,
estendem as metástases,
ocultam lentamente o sol,
e os olhos de tal gente
tornam-se mortiços e cegam.
Somente um genocídio podia convencê-la
de que havia um reduto aqui
e não sei se acreditava,
tantas formas há de se confiscarem
as cidades, os campos, os mosteiros,
os palácios, a Língua,
um longo rol de fábricas,
a energia dos rios e do vento,
milhões de vozes
que constroem o amor
a partir de satélites,
e ninguém se interessa:
é pouco provável
que os estrangeiros entrem numa aldeia
ou assolem as ruas suburbanas
e sejam invisíveis,
embora não se vejam.
Nuno Dempster
UMA PAISAGEM NA WEB, &etc, 2013
comungo do ranger de dentes
com os vizinhos,
comungo de açularem
os perros uns contra os outros,
mas não eu contra todos,
só contra alguns,
e mesmo assim
isolo-me no bosque do silêncio,
fujo para esta folha,
os cães ficam lá fora.
No entanto, eu que empunhei o fogo
sem Deus se ter lembrado
de chamar a águia,
quando os sinos e as sirenes
soarem a rebate, terei de ir,
o fígado desfeito por cirroses
somadas de desgosto,
embora aos meus vizinhos
pouco falte para se armarem
nos conflitos de bairro,
em defesa do quarto e da cozinha.
No fundo, sei que sou o tempo,
as minhas coordenadas e as alheias,
e daí que haja tempo para tudo,
um tempo para a paz,
um tempo para a vida,
um tempo para a guerra e para a morte,
um tempo para ser-se tudo e nada
ao mesmo tempo, a pele dos outros
que desvisto com suma falta de piedade.
Daí que não acredite em maiorias.
As maiorias são volúveis,
fácil é comprar-lhes
a consciência e o nome da rua,
e agora os estrangeiros chegam,
estendem as metástases,
ocultam lentamente o sol,
e os olhos de tal gente
tornam-se mortiços e cegam.
Somente um genocídio podia convencê-la
de que havia um reduto aqui
e não sei se acreditava,
tantas formas há de se confiscarem
as cidades, os campos, os mosteiros,
os palácios, a Língua,
um longo rol de fábricas,
a energia dos rios e do vento,
milhões de vozes
que constroem o amor
a partir de satélites,
e ninguém se interessa:
é pouco provável
que os estrangeiros entrem numa aldeia
ou assolem as ruas suburbanas
e sejam invisíveis,
embora não se vejam.
Nuno Dempster
UMA PAISAGEM NA WEB, &etc, 2013
24.6.13
CAVA
Livros que suportam tudo, até a estante.
O gozo da poesia como uma faca
afiando os dedos.
Uma mão que segura pelas pontas
a possibilidade de alguns gestos.
Folhas que num tempo adiantado
impõem o silêncio e outra vez
a vénia, a veia, a cova.
Marta Chaves
Telhados de Vidro, N.º 18 . Maio . 2013, Averno, Lisboa
O gozo da poesia como uma faca
afiando os dedos.
Uma mão que segura pelas pontas
a possibilidade de alguns gestos.
Folhas que num tempo adiantado
impõem o silêncio e outra vez
a vénia, a veia, a cova.
Marta Chaves
Telhados de Vidro, N.º 18 . Maio . 2013, Averno, Lisboa
20.6.13
DISCURSO TARDIO À MEMÓRIA DE JOSÉ DIAS COELHO
Éramos jovens: falávamos do âmbar
ou dos minúsculos veios de sol espesso
onde começa o verão; e sabíamos
como a música sobe às torres do trigo.
Sem vocação para a morte, víamos passar os
barcos,
desatando um a um os nós do silêncio.
Pegavas num fruto: eis o espaço ardente
do ventre, espaço denso, redondo, maduro,
dizias: espaço diurno onde o rumor
do sangue é um rumor de ave --
repara como voa, e pousa nos ombros
da Catarina que não cessam de matar.
Sem vocação para a morte, dizíamos. Também
ela, também ela a não tinha. Na planície
branca era uma fonte: em si trazia
um coração inclinado para a semente do fogo.
Morre-se de ter uns olhos de cristal,
morre-se de ter um corpo, quando subitamente
uma bala descobre a juventude
da nossa carne acesa até aos lábios.
Catarina ou José -- o que é um nome?
Que nome nos impede de morrer,
quando se beija a terra devagar
ou uma criança trazida bela brisa?
1972
Eugénio de Andrade
Homenagens e Outros Epitáfios, Editora Fundação Eugénio de Andrade, Porto, Edição 8.ª, Setembro, 1993
ou dos minúsculos veios de sol espesso
onde começa o verão; e sabíamos
como a música sobe às torres do trigo.
Sem vocação para a morte, víamos passar os
barcos,
desatando um a um os nós do silêncio.
Pegavas num fruto: eis o espaço ardente
do ventre, espaço denso, redondo, maduro,
dizias: espaço diurno onde o rumor
do sangue é um rumor de ave --
repara como voa, e pousa nos ombros
da Catarina que não cessam de matar.
Sem vocação para a morte, dizíamos. Também
ela, também ela a não tinha. Na planície
branca era uma fonte: em si trazia
um coração inclinado para a semente do fogo.
Morre-se de ter uns olhos de cristal,
morre-se de ter um corpo, quando subitamente
uma bala descobre a juventude
da nossa carne acesa até aos lábios.
Catarina ou José -- o que é um nome?
Que nome nos impede de morrer,
quando se beija a terra devagar
ou uma criança trazida bela brisa?
1972
Eugénio de Andrade
Homenagens e Outros Epitáfios, Editora Fundação Eugénio de Andrade, Porto, Edição 8.ª, Setembro, 1993
13.6.13
[Pobre velha música!]
Pobre velha música!
Não sei por que agrado,
Enche-se de lágrimas
Meu olhar parado.
Recordo outro ouvir-te.
Não sei se te ouvi
Nessa minha infância
Que me lembra em ti.
Com que ânsia tão raiva
Quero aquele outrora!
E eu era feliz? Não sei:
Fui-o outrora agora.
Fernando Pessoa
POEMAS DE FERNANDO PESSOA, Selecção, prefácio o posfácio de Eduardo Lourenço, revista Visão e JL, Fevereiro de 2006
Não sei por que agrado,
Enche-se de lágrimas
Meu olhar parado.
Recordo outro ouvir-te.
Não sei se te ouvi
Nessa minha infância
Que me lembra em ti.
Com que ânsia tão raiva
Quero aquele outrora!
E eu era feliz? Não sei:
Fui-o outrora agora.
Fernando Pessoa
POEMAS DE FERNANDO PESSOA, Selecção, prefácio o posfácio de Eduardo Lourenço, revista Visão e JL, Fevereiro de 2006
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