19.1.14

O INOMINÁVEL

Nunca
dos nossos lábios aproximaste 
o ouvido; nunca
ao nosso ouvido encostaste os lábios;
és o silêncio,
o duro espesso impenetrável
silêncio sem figura.
Escutamos, bebemos o silêncio
nas próprias mãos
e nada nos une
- nem sequer sabemos se tens nome.

Eugénio de Andrade

Poesia [ofício de paciência], Fundação Eugénio de Andrade, 2000

6.1.14

Para sempre

Cavalgamos a luz... / e eis-nos ante
o súbito lugar da eternidade:
o nó cego do tempo que nos há-de
cumular de silêncio: doravante,

rente ao chão do futuro deslizante,
confina-se o devir que nos invade:
irrompe, surde desde a intimidade
da terra com a terra: culminante

solapa-se o sentido dos sentidos:
soterrados, dispersos, dissolvidos,
talvez foz, para sempre, assoreada;

talvez chuva de cinzas e de vento:
no baldio mais chão do esquecimento,
talvez húmus apenas: pó / ... e nada.

Domingos da Mota

[revisto]