27.8.16

Duas chávenas

Tínhamos duas chávenas
em forma de meia lua
e uma triangular.
Quando alguém ia lá a casa
bebíamos os dois pelas meias luas
o convidado pela triangular.
Era uma regra da casa
nem escrita
nem pronunciada
apenas pressentida.
Até que alguém apareceu
e trocou os sítios das chávenas
a mim coube-me a triangular.
As regras eram mesmo assim
para quebrar
como as tartes
como as chávenas.
Será que ainda as podemos colar?

Ana Paula Inácio

2010-2011, Averno, Junho de 2011

25.8.16

Natureza morta com lebres

Este país de fumos e brasidos
que lavram noite e dia pelos montes
e deixam para trás, mortos, perdidos
os gados e os pastos e as fontes,
mal o verão começa a afoguear,
este país de enganos e de enredos
que abundam e alastram sem parar,
numa teia rendosa de segredos,
este país assim que mal respira,
os pulmões imolados numa pira
que não poupa nem vidas nem haveres,
é um país de festas e de febres,
de muitos caçadores, de poucas lebres,
e ao sabor do vento, basta veres.

Domingos da Mota

[inédito]

24.8.16

Margem de erro

Quando a certeza mais certa,
com grande convicção
é desmentida e desperta
uma nova percepção
do princípio da incerteza
e da dúvida metódica,
e se discute a justeza
da afirmação categórica,
apurada a margem de erro
do argumento cabal,
sopesa-se o próprio erro,
humano e natural,
cuja existência refuta
a verdade absoluta.

Domingos da Mota

[inédito]

22.8.16

Apatia

Assim não chego lá - pensou e disse de si 
para consigo - e o pensamento cheio
de ser pisado e perseguido quedou-se

por ali, varado, ausente, sem saber 
que fazer, que rumo dar às ideias 
que subiam os degraus e batiam à porta,

mas que não se abria para ninguém,
tão absorto olhava o mundo
em que descria, que por muito sagaz 

e confiante buscasse uma razão, 
nessa apatia continuava perdido
algures, distante.

Domingos da Mota

[inédito]

21.8.16

OS LAGARTOS AO SOL

Expõe ao sol a perna escalavrada, 
no Jardim do Príncipe Real,
uma velha inglesa. Não há nada
tão bonito (pra mim), so natural.

E conversamos: «Helioterapia
medicina barata em Portugal».
Accionista do sol, ajudo à missa:
«But, não muito, que senão faz mal».

Gozosos, eu e a velha, ali ficamos
à mercê de meninos e marçanos.
Ela, a inglesa, de perninha à vela;
e eu, o português, à perna dela.

Talvez que, se o Briol nos conservara,
alguém um dia nos ajardinara.

Alexandre O'Neill

POESIAS COMPLETAS, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio de 2007