22.5.13

Quiproquó

Quando perguntas por alhos
e recebes em resposta
meia dúzia de bugalhos
ou outra coisa que arrosta
uma carga de trabalhos
para opores que a questão
não tem a ver com bugalhos,
mas com os alhos, então,
por muito que possa haver
acuidade e cortesia,
suportas, é bom de ver,
juntamente com a azia,
um sério aperto do nó
que agudiza o quiproquó.

Domingos da Mota

[inédito]

8.5.13

Cismas

Não quero cisma grisalho,
diz o ministro que não
vai seguir por esse atalho
onde passa a procissão.

Mas o ministro, reparo,
leva o turíbulo na mão,
segue debaixo do pálio
e aperta o passo. Então,

quem será que neste caldo
de cultura de opressão
contra os velhos busca um saldo
positivo de antemão?

Quem será que marca o risco,
a fronteira inexcedível,
a margem para o confisco,
a linha intransponível?

Seremos nós, serão eles,
serão os tais mandatários
ou os mandantes daqueles
que não passam de sicários?

Não sei quem é, quem não é.
Sei apenas que a avidez
reforça o finca-pé
que nos pisará de vez,

e que depois de esmagados,
maltratados, combalidos,
seremos armazenados,
e de seguida, morridos.

Domingos da Mota

[inédito]

3.5.13

Modo de dizer

Digo das pedras, dos cardos
e das feridas nos pés,
do sobrepeso dos fardos
e dos olhos de viés

e dos sinais e sentidos
e da tensão dos aflitos
a ver os passos perdidos
entre ditos e desditos

e das palavras mais duras
e das medidas sem dó
e dos choques, das rupturas,
do destempero -- e do nó

cego por feitos e factos
intangíveis e secretos
dos modelos abstractos
e dos ditames concretos

de quem agrava a desdita
e a confunde de modo
a que de forma expedita
se tome a parte pelo todo.

Domingos da Mota

[inédito]

1.5.13

Motete sobre coisíssima nenhuma

O homem não foi eleito
(nem) coisíssima nenhuma,
e mostra um ar contrafeito
e mais cerrado que a bruma.

O homem foi nomeado.
O homem foi promovido.
Gravemente obcecado
e bastante presumido,

o homem deu no que deu,
e é isto o que se vê
(e ademais quem o escolheu,
ou é cego, ou treslê).

Se o homem se mantiver,
ai de quem sobreviver.

Domingos da Mota

[inédito]