30.8.13

Num tempo póstumo

Por vontade dela, todos os poetas 
Iam parar ao nono círculo, mordendo-se
No crânio, sôfregos de cérebro, num nexo
De egoísmo e raiva, inferno dos maldizentes.

Inflexíveis, ambiciosos, acirrados,
Presos das maxilas, ferozes como bestas
Disputando-se o lugar, cravados, montados
Como Ugolino no arcebispo Rogério.

E quando ela fizesse o percurso gelado, 
Guiada e apoiada pela mulher de Virgílio,
Eu gritava: "Meu amor, quem é o laureado
No nosso país verde lá em cima, qual a vida

Mais dedicada e exemplar?". Diria ela:
"Os meus ouvidos de viúva não atendem
Às notícias sulfurosas de poetas
E poesia. Não podias, no nosso tempo,

Libertar-te mais vezes, descer risonho
Do teu quarto, e passear comigo ao sol-pôr,
E com os teus filhos - como naquele serão 
De feno e flores, as rosas bravas já a murchar?"

E ainda (outro autor ferrando-me já a nuca):
"Não eras o pior. Ansiavas por um tacto
Afável e indiferente, tipo 'todos têm culpa'.
Primeiro nós, depois os livros, abandonaste."

Seamus Heaney

DA TERRA À LUZ poemas 1966 - 1987, Tradução, prefácio e notas de Rui Carvalho Homem, Relógio D'Água Editores, Janeiro de 1997

25.8.13

Soneto da pouquidão

São poucos os que lutam contra o medo
sem medo de perder seja o que for,
que ousam cutucar o arremedo,
esse modo maligno de temor

que sofreia a coragem ante o susto
e que a tantos concita mais pavor
e os deixa tolhidos, dado o custo
da luta contra o medo ou o que for.

São poucos os que lutam, e a escassez
aumenta com tamanha pouquidão
que faz acumular, por sua vez,
o medo, com razão ou sem razão,

naqueles que se escondem, dia a dia,
por detrás do receio ou da apatia.

Domingos da Mota

[inédito]

23.8.13

Ode aos Amigos

Canto
os amigos:
bem poucos,
amigos do seu
amigo.
Não os amigos 
fortuitos.
Mas os que enfrentam
perigos, e cada um
com seu jeito,
contados e recontados
pelos dedos da mão,
são valiosos achados
no lado esquerdo
do peito.
Dos amigos
dessa lavra,
tão singulares, incomuns,
amigos, numa palavra,
couberam-me em sorte
alguns.
Canto
os amigos
de modo a não cair mais
no erro de tomar a parte
pelo todo, ou de esquecer
quem não devo.

não falo dos da infância,
das escolas, dos liceus,
de armas, de muita 
errância, de tertúlias,
de saraus, dos amigos
de trabalho que labutam
por aí, ou que perdi
nos atalhos da vida
que percorri.
Canto 
os amigos,
e a voz que sobe
num canto assim,
abraça alguns de vós.
Quem dera
que pouse em mim.

Domingos da Mota

[inédito]

17.8.13

Fleuma

Quantas vezes tantas vozes,
tanto ruído de fundo,
quantos dentes sem as nozes
tantas vezes, quanto mundo,

não direi o mundo todo,
pois se o dissesse mentia,
mas digo de qualquer modo
tantas vezes quanta azia,

e muito mais que a azia
que se agrava com a afronta
quantas vezes, quem diria,
apesar da língua pronta,

a melhor resposta acode
quando a fleuma implode

Domingos da Mota

[inédito]

9.8.13

Desconstrução da luz

Chovia sobre a sombra
das ruas pobres
penteadas para o turismo
Era uma chuva silenciosa
rala
pobre ela também de luz
E o amigo
que já não via as palmeiras
navegantes do seu sonhar
deslizava para a morte
numa poeira dourada de sons
cansados da própria beleza
Sentimos o primeiro sopro
do luto que chegava
a branco e negro
                                                           2007

Urbano Tavares Rodrigues

Horas de Vidro [Poemas do Novo Século], Publicações Dom Quixote, Lda., Lisboa, Fevereiro de 2011