30.9.14

[Se o amor for a sombra do que dizes]

Se o amor for a sombra do que dizes,
pode ter em si mesmo o seu contrário:
do amor que se despe, sem matizes,
ao amor puramente imaginário;

do amor que desvela as cicatrizes,

quando apenas se troca, cego e vário,
ao amor que resiste e vence as crises,
apesar do pendor suicidário;

do amor que se esvai, perdidamente,

esse amor que sofreia, mal se ganha
a disputa feroz com outros mais,

ao amor que definha, simplesmente:

e sentir como dói, como arrepanha
o amor que se perde, por demais.

Domingos da Mota


[revisto]

18.9.14

0ração

Oiro da noite
pó das estrelas
chuva de cinzas
à flor da pele
matéria negra
matéria fria
língua de fogo

rogai por nós

Domingos da Mota

[revisto]

10.9.14

OFF PRICE

Que a sorte me livre do mercado
e que me deixe
continuar fazendo (sem o saber)
              fora de esquema
              meu poema
inesperado

          e que eu possa
          cada vez mais desaprender
          de pensar o pensado
e assim poder
reinventar o certo pelo errado

Ferreira Gullar

Em alguma parte alguma, Ulisseia, Edição Babel, Lisboa, Outubro de 2010

6.9.14

ROMANCE OU FALÊNCIA

Posta assim, como uma fraude à escala mundial
a falácia que se esconde nas traseiras
de um título, escrevo como uma puta,
um meteorologista político
que antecipa qualquer vento que sopre
a ouvidos inocentes
as verdades mais inconvenientes

O meu trabalho
é descobrir o nome mais bonito
que se pode dar ao vandalismo,
convencer toda a gente,
como quem esconde um derradeiro eclipse
de que escolher o romance
não é caminhar para a falência

Luís Pedroso

ROMANCE OU FALÊNCIA, Edições Artefacto, Lisboa, Julho de 2014

3.9.14

tantos seres(tantos demónios e deuses

tantos seres(tantos demónios e deuses
cada qual mais ganancioso do que todos)é um homem
(tão facilmente um em outro se esconde;
e não pode o homem,sendo todo,fugir a nenhum)

tão vasto tumulto é o mais simples desejo:
tão impiedoso massacre a esperança
mais inocente(tão profunda é a mente da carne
e tão desperto o que o acordar chama dormir)

assim nunca está o mais sozinho homem só
(o seu mais breve respirar vive o ano de algum planeta,
a sua mais longa vida é a pulsação de algum sol;
a sua menor imobilidade percorre a mais jovem estrela)

--como pode um louco que a si próprio se chama «Eu» supor
que entende um não numerável quem?

E. E. Cummings

livrodepoemas, tradução, introdução e notas de Cecília Rego Pinheiro, Assírio & Alvim, Lisboa, Junho de 1999

1.9.14

Esquisso

A voz que te nomeia
a boca que te chama
a língua que se ateia
não segreda - clama
o espaço que medeia
entre o lodo e a lama
a ira que desfeia
a pele que se descama
o tempo que perpassa
e segue sem parar
e vai e desenlaça
os braços que encontrar
são traços para um esquisso
da vida - ou nem isso

Domingos da Mota

[revisto]