29.7.15

Oração das Vésperas

Fazei, Senhor, com que os velhos se esqueçam
da pancada, do rombo que levaram;
que a amnésia se agrave e permaneçam
em busca dos tostões que amealharam,
de que foram sacados, despojados
no altar de voláteis decisões,
em nome do mercado, dos mercados
e de outras mercantis resoluções
e, sobretudo agora, tomai conta,
não deixeis uma réstia de memória
a quem pouco recebe e mal desconta,
não vá trazer a lume a sua história
e pior, bem pior, mudar o voto
ou deixá-lo perdido em saco roto.

Domingos da Mota

[inédito]

27.7.15

[O remoto rei dos corvos]

O REMOTO REI DOS CORVOS,
Edgar Allan Poe,
deixa cair do seu bico,
no centro de uma biblioteca,
os restos de uma musa.
Cansados de tanta melancolia,
os ratos montam à sua volta um circo.

«Annabel Lee», «Annabel Lee»,
guincham os bichos,
repartindo os ossos entre si.

Mostram os dentes,
esticam-lhe a pele.
Sabem que o poema
não tem outro precursor
a não ser a fome,
nem outro seguidor
a não ser o crime.

Golgona Anghel

COMO UMA FLOR DE PLÁSTICO NA MONTRA DE UM TALHO, Assírio & Alvim, Maio de 2013

24.7.15

[De barro somos, dizem os oráculos]

De barro somos, dizem os oráculos,
solícitas vozes do crepúsculo
ou das manhãs solenes, rituais.

De heróis e deuses falam
mitos e salmos, dou
tos compêndios de
subtil doutrina. Assim
de urtigas e de musgo
se alimentam as parábolas,
escreve a ciência
os seus epitáfios-

Albano Martins

VOCAÇÃO DO SILÊNCIO, Poesia (1950-1985), Prefácio de Eduardo Lourenço, Imprensa Nacional- Casa da Moeda, Fevereiro de 1990

18.7.15

Poema

    de faca nos dentes

     António José Forte


Um poema de faca
afiada nos dentes
que rasgue as palavras
obesas e ocas, assaz
numerosas, fingidas,
mordentes que enchem
as bocas.

Um poema-revólver
com balas reais,
não de pólvora seca,
sequer de borracha,
que aponte e dispare
visões radicais,
pergunto: que achas?

Um poema-navalha
de ponta e mola
metido no bolso,
mas pronto a usar
se alguém te sufoca,
te esmaga, te esfola,
te rouba o ar.

Domingos da Mota

[revisto]

10.7.15

Elegia para o gato morto

Com os olhos pregados no infinito,
no mais fundo de si, já revirados
e os bigodes suspensos pelo grito
que alvoraça as pombas nos telhados

e com o céu da boca, se aflito,
mesmo à beira do fim, agoniado
e o pêlo sedoso, tão esquisito,
de súbito a ficar amarrotado,

na procura apressada de outra vida
renascida das sete que viveu,
que não vê, não encontra, pois perdida
como alma penada lá no céu

dos gatos: foi assim, quase descrente,
que vi o gato morto, de repente.

Domingos da Mota

[revisto]

6.7.15

Giánnis Ritsos

As palavras têm outra casca


As palavras têm outra casca
lá mais para dentro
como as amêndoas
e a paciência.

                                            1974

Giánnis Ritsos

POESIA MAIS-QUE-PERFEITA, Tradução Ana Leal, Edição Alma Azul, Coimbra/Castelo Branco, Fevereiro 2005

4.7.15

Nunca o medo

Fosse o espanto, nunca o medo
o causador de arrepios
quando irrompem, tarde ou cedo,
no meio de desvarios,

ameaças de degredo,
a chantagem, pura e dura,
contra quem, neste arremedo,
desafia a urdidura

de tantos mangas-de-alpaca,
serviçais, vozes do dono,
que afiam como se facas
expiações, desabonos,

impassíveis, inumanos
contra gregos e troianos.

Domingos da Mota

[inédito]

3.7.15

Bebendo o Sol de Corinto

Bebendo o Sol de Corinto
Lendo as ruínas de mármore
Percorrendo vinhedos e mares
Divisando adiante do arpão
Um peixe votivo que se escapa
Encontrei as folhas que o salmo do sol recorda
A terra viva que a paixão rejubila em abrir.

Bebo água, corto frutos,
Faço avançar minha mão pela folhagem do vento
Os limoeiros diluem o pólen de estio
As aves verdes dilaceram meus sonhos
Parto com um olhar
Um grande olhar em que o mundo se recria
Bebo desde o princípio até às dimensões do coração!

Odysseus Elytis

DEZASSEIS POEMAS DE ODYSSEUS ELYTIS, Traduzidos por Mário Cláudio, com um desenho de Rui Aguiar, o oiro do dia, Porto, Janeiro/1980

2.7.15

Filosofia política

       a partir de poemas de Carlos Drummond de Andrade e de Manuel Bandeira


Estou farto da poesia
como se renda de bilros:
tricotada bonitinha
a alancear a vidinha
com porosos atavios

e mesuras timoratas
amarrotadas sem viço
cabisbaixa de alpargatas
e de olhos sempre de gatas
entre a dor e o derriço.

Ai do lirismo que arrima
e nem é carne nem peixe
pois um poema sem espinha(s)
virgulado picuinhas
será melhor que se deixe

de mergulhar no mar alto
no abismo dos sentidos
de atravessar o asfalto
de voar de ir a salto
pra mundos desconhecidos.

O poema deve ser
uma pedra no caminho
com as sílabas a arder -
língua de fogo a crescer
e a morder até ao imo.

Mas se a mão o largar
numa toada vazia
desenfreada frenética
há que suster a poética -
e soltar a poesia.

Poetas abaixo a rima
(se ela for a prisão
onde o poema definha).
Estou farto de poesia
que não é libertação.

Domingos da Mota

[revisto]

1.7.15

COISAS ACABADAS

Dentro do medo e das suspeitas,
com a mente agitada e os olhos aterrados,
fundimos e planeamos o que fazer
para evitar o perigo
certo que desta forma horrenda nos ameaça.
No entanto, equivocamo-nos, não está esse no caminho;
falsas eram as mensagens
(ou não as ouvimos, ou não as sentimos bem).
Outra catástrofe, que não imaginávamos,
brusca, torrencial, cai sobre nós,
e desprevenidos - como teríamos tempo - arrebata-nos.

Konstandinos Kavafis

POEMAS E PROSAS, Tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis, Relógio D'Água Editores, Lisboa, 1994