28.6.16

INDÍCIOS DE OIRO

7


Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
    Pilar da ponte de tédio
    Que vai de mim para o Outro.

                  Lisboa, Fevereiro de 1914

Mário de Sá-Carneiro

INDÍCIOS DE OIRO, Guimarães Editores, Lisboa, Novembro de 2009

24.6.16

Janelas altas

Quando vejo um casal de miúdos
E percebo que ele a anda a foder e ela
Usa um diagrama ou toma a pílula
Sei que isto é o paraíso

Com que os velhos sonharam toda a vida --
Compromissos e gestos postos de lado
Que nem uma debulhadora fora de moda,
E toda a gente a descer pelo escorrega,

Interminavelmente, para a felicidade. Será
Que alguém olhou para mim, há quarenta anos,
E pensou: Isso é que vai ser boa vida;
Nada de Deus, ou de suores nocturnos,

Ou medo do inferno, ou ter de esconder
Do padre aquilo em que se pensa. Ele
E a malta dele, c'um raio, hão-de ir todos pelo escorrega
Abaixo, livres que nem pássaros? E de imediato,

Em vez de palavras, vêm-me à ideia janelas altas:
O vidro que acolhe o sol, e mais além
O ar azul e profundo, que não revela
Nada e está em lado nenhum e não tem fim.

Philip Larkin

Janelas altas, tradução e introdução de Rui Carvalho Homem, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, 2004

23.6.16

Branco no branco

    Narciso e biombo
     Um o outro ilumina
     Branco no branco

     Matsuo Bashô


Sendo a sombra da sombra duma alvura
mais branca que a brancura, dia-a-dia,
cujo branco no branco é sombra pura
que depura o sentido que irradia;
sendo o branco no branco o sol a pino,
solstício de verão, paleta viva,
beleza que o sol transforma em hino,
um hino que a luz converte em vida;
sendo a sombra da sombra como a estrela
cadente que traceja e arrefece
num rasto luminoso, a sequela
da rútila visão quando perece,
sobre a sombra da sombra, eis a penumbra
cujo branco no branco me deslumbra.

Domingos da Mota

[inédito]

22.6.16

Segundo soneto familiar

Por falar dos avós, recordo os tios,
os primos, os sobrinhos, os cunhados
(e alguns dos parentes arredios
que chegaram a ser dos mais chegados),
e da vasta e diversa parentela
aqueles que ganharam, com esforço,
a medalha pendente na lapela
ou a corda apertada no pescoço.
Muita desta família que me coube
no decurso da vida, é natural
que sequer me ligasse, pois nem soube
que seria um deles e, afinal,
não deixo de trazer, levar a marca,
ainda que pequena, pobre, parca.

Domingos da Mota

[inédito]

19.6.16

Nas cidades do sul

Nas cidades do sul
há violência e há excesso,
de semente.
Estalam os rios e foge a água.
O corpo, encortiçado, racha.


Lendas vêm de há séculos assoreando
as margens.
E quando à boca de um poço vamos
provar o nosso eco,
águas puras irrompem,
noutra língua.

Luiza Neto Jorge

A LUME, Assírio & Alvim, Maio de 1989

16.6.16

HAI-KAI

Nós temos cinco sentidos:
são dois pares e meio d'asas.

-- Como quereis o equilíbrio?

David Mourão-Ferreira

LIRA DE BOLSO, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Novembro de 1969

15.6.16

[Vozes que a noite arrasta]

Vozes que a noite arrasta
inapreensíveis passagens
para o que é alto
puro e delicado
determinando-te
a partir de outra obscuridade

Luís Falcão

Bruma Luminosíssima, Artefacto, Maio de 2016

13.6.16

Qualquer música

Qualquer música, ah, qualquer,
Logo que me tire da alma
Esta incerteza que quer
Qualquer impossível calma!

Qualquer música -- guitarra,
Viola, harmónio, realejo...
Um canto que se desgarra...
Um sonho em que nada vejo...

Qualquer coisa que não vida!
Jota, fado, a confusão
Da última dança vivida...
Que eu não sinta o coração!

Fernando Pessoa

POEMAS DE FERNANDO PESSOA, Selecção, prefácio e posfácio de Eduardo Lourenço, VISÃO JL, Lisboa, Fevereiro de 2006

Dia a dia

     Procurava-se na palavra rebotalho

     Manoel de Barros


Tinha ares de vagabundo,
de quem sem poiso sentia
as cruezas que o mundo 
dia a dia lhe servia
como sendo o rebotalho,
o refugo do que resta,
carta fora do baralho,
a escória que não presta,
e assim habituado
ao desdém, ficou surpreso
quando alguém mesmo a seu lado
não o tratou com desprezo
e o fez sentir-se gente
e sorriu cordialmente.

Domingos da Mota

[inédito]

11.6.16

PALATINO

3.

Toda a maldição vomita a luz
pelos dedos -- o desejo das trevas
chamando à morte a única oração.

João Rasteiro

A DIVINA PESTILÊNCIA, Assírio & Alvim, Lisboa, Março 2011


10.6.16

CAMÕES E A TENÇA

Irás ao paço. Irás pedir que a tença
Seja paga na data combinada
Este país te mata lentamente
País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce

Em tua perdição se conjuraram
Calúnia desamor inveja ardente
E sempre os inimigos sobejaram
A quem ousou mais ser que a outra gente

E aqueles que invocaste não te viram
Porque estavam curvados e dobrados
Pela paciência cuja mão de cinza
Tinha apagado os olhos no seu rosto

Irás ao paço irás pacientemente
Pois não te pedem canto mas paciência

Este país te mata lentamente

Sophia de Mello Breyner

GRADES, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Novembro de 1970

8.6.16

DENÚNCIA DE CONTRATO

foi tudo tão depressa.
nem tempo tive para lavrar as mãos
e assinar, de cruz, um empréstimo de pão.

fiquei sem dias para trocar com a morte.

Emanuel Jorge Botelho

Telhados de Vidro N.º 20 . Setembro . 2015

5.6.16

PRELÚDIO

Partem os altos choupos, 
mas deixam o seu reflexo.

Partem os altos choupos,
deixando apenas o vento.

O vento na sua mortalha
jaz debaixo do céu.

Mas não levou os seus ecos,
que flutuam sobre os rios.

O mundo dos pirilampos
invadiu minha lembrança.

E um coração pequeno
vai-me brotando nos dedos.

Federico Garcia Lorca

TRINTA E SEIS POEMAS E UMA ALELUIA ERÓTICA, Tradução de Eugénio de Andrade, Editorial Inova Limitada, Porto, Janeiro de 1970